Retratos
Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire

Nos Estados Unidos, brasileiras ganham milhares de seguidores e visualizações nas redes sociais ao mostrar suas aventuras nas caçambas de lixo norte-americanos. Elas se enfiam em caçambas de lixo de lojas, farmácias e supermercados, mas também buscam por “achadinhos” nos lixos de vizinhos ricos em condomínios.

Lá, encontram desde produtos para cozinha até brinquedos, roupas e itens como bicicletas, televisões e patinetes. Há quem se arrisque a levar comida descartada para casa, incluindo carnes não refrigeradas e frutas. Esse tipo de conteúdo ganhou o nome de dumpster diving: dumpster é “lixeira” em inglês e diving, “mergulhando”. Ou seja, em português fica algo como “mergulhando no lixo”.

As brasileiras que fazem dumpster diving são, geralmente, mulheres que se mudaram para os Estados Unidos com a família inteira. Ao que tudo indica, não são pessoas que passam necessidade, já que elas mostram o resultado dos “garimpos” em casas confortáveis, às vezes com lareira e piscina.

Uma das mais notórias criadoras de conteúdo neste sentido é Adeline Camargo, que tem 961 mil inscritos em seu canal no YouTube e compartilha sua vida nos Estados Unidos. Natural do Paraná, faz dumpster diving há, pelo menos, mais de um ano, e já encontrou desde chapinha de US$ 499 até brinquedos de U$ 1 mil.

Brasileiras reviram lixo de lojas dos EUA e pegam de móveis até carne grátis

Brasileiras reviram lixo de lojas dos EUA e pegam de móveis até carne grátis

Seus vídeos acumulam milhões de visualizações. Um deles a mostra empolgada enquanto encontra enfeites de Natal, jogo americano, xícaras e kit de batom da Paris Hilton, além de presilhas de cabelo. "Fizemos a feira! Tô de queixo caído, tem muita coisa. Jogaram o estoque inteiro fora", diz em um deles.

"Ali tem outra caixa cheia. Vou ter que entrar ali", diz em outro momento, antes de pular dentro da caçamba de lixo. Em outro vídeo, ela encontra diversas paletas de maquiagem, pulseiras e brincos dentro de sacolas plásticas.

Outra entusiasta destes vídeos é Andressa Schinemann e a família, que é de Curitiba e vive nos Estados Unidos desde 2019. No canal do YouTube Família Schinemann, que tem mais de 370 mil inscritos, ela compartilha mais vídeos em que mostra caixas lacradas em lixos de lojas, repletas de utensílios de cozinha (como talheres, toalhas de mesa e guardanapos), roupas, malas intactas e eletrônicos – desde fones de ouvido a caixas de som.

Em seu Instagram, onde é seguida por 863 mil pessoas, posta reels desses achados. Todos começam com uma frase, dita com empolgação e deslumbre: "Olha isso!" Vários deles ultrapassam a marca de 1 milhão de visualizações.

Inspirada pela mãe, Alanys Schinemann chegou a montar um enxoval inteiro com artigos encontrados no lixo. "Tenho três, quatro caixas cheias de coisas que estou guardando, mas resolvi mostrar só isso para vocês hoje", conta. Em frente a ela está uma mesa abarrotada de abajures, tigelas, panelas, potes de plástico, flores decorativas e taças de vinho.

Comida do lixo dos EUA

Mas há quem se arrisque (e muito) para conseguir "tesouros". Dona do canal Aventuras EUA, com 122 mil inscritos, uma mulher aparece revirando o lixo de uma farmácia à noite. Encontra um fone bluetooth, um pacote de chocolates M&Ms ("estão dentro da validade", explica), caixas de sapatos novos e maquiagens. Mas chegou a colocar a mão em lixo medicamentoso. "[Tem uma] pomada. Não vou nem mexer em coisa que é usada, não é muito legal", diz.

No mesmo vídeo, ela também faz buscas no lixo de um supermercado. Coloca no porta malas do carro pizza, detergentes e multiuso, mas também produtos que devem ser refrigerados, como frango orgânico, costelas, linguiça, salmão e carne assada.

Para se decidir sobre levar ou não, vê a validade das carnes (algumas venceram naquele dia ou na data anterior) ou tira as luvas de proteção para checar a temperatura. "Estou levando porque está gelado", diz. "Jogaram fora toda uma leva de carne. Depois vou ver se foi recall [quanto o lote tem algum problema], às vezes não refrigeraram do jeito certo. Aí jogam fora. Devem ter passado muito tempo fora da geladeira."

‘Cada mergulho é uma aventura’

A criadora de conteúdo Camila Loures, que também se jogou na prática, diz que os norte-americanos costumam jogar fora qualquer coisa que encontrem defeito, de shorts que desfiaram até iPhones.

"Não tem nenhuma regra que fala que a gente não pode fazer isso [pegar itens de lixos de lojas], mas não tem nenhuma dizendo que a gente pode", explica, posicionada em frente a um dos dumpsters. "Mas a gente vai tentar. Se alguém pegar, a gente vai ter que correr", continuou, enquanto um amigo seu se revira em meio a diversas sacolas plásticas. Da caçada saiu apenas uma garrafa de academia.

Adeline Camargo rechaça o termo "mergulho no lixo", definindo-o como "termo infeliz para uma busca nobre, ​​recuperar, doar e reutilizar coisas perfeitamente boas que estão sendo jogadas fora todos os dias, muitas vezes em ótima forma."

"Cada mergulho é uma aventura que ganha vida própria. Quando encontro muitas coisas o coração vai a milhão, e confesso que a adrenalina sobe a mil quando mergulho nas lixeiras. Nem sempre podemos encontrar um tesouro, mas a emoção da busca é uma das melhores partes da aventura”, acrescenta.

A dona do canal Luciana Neves USA, que tem 19,5 mil inscritos, também compartilha conteúdos de dumpster diving e afirma receber críticas de muitos brasileiros. Ela ouve que "saiu do Brasil para pegar lixo na América". "Aqui é muito comum, quando você não quer alguma coisa, colocar na calçada. E essa época do ano, quando troca estação, tem muita coisa free", explica em um dos vídeos em que sai por um condomínio em busca dos "lixos" dos vizinhos.

Em um de seus vídeos mais vistos, ela mostra o que está disponível: um cortador de grama elétrico, muitos móveis, tapete, livros, tábua de passar, uma churrasqueira e um banco de madeira para quintal.

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