'Precisamos compreender e cuidar': a criatividade desta cuidadora está transformando a rotina de uma paciente com Alzheimer
Estudante de Educação Física relata como começou a 'embarcar' nas memórias da idosa da qual é cuidadora para garantir um método baseado no afeto e na melhoria de vida
Nayara Oliveira tem mais de 40 mil seguidores no TikTok e vídeos que ultrapassam 3 milhões de visualizações. Seu conteúdo, no entanto, não é de um nicho popular, como beleza, moda ou humor. Na verdade, ela cria a partir do seu trabalho como cuidadora de uma idosa, Maria Emília, que tem Alzheimer. Inovando com criatividade e diversão, ela mostra que é possível cuidar com afeto e abraçar as memórias, mesmo que elas não venham de forma linear, em busca de conforto para sua paciente.
Indo na contramão de movimentos que visam aprisionar, rejeitar e discriminar possíveis confusões decorrentes do transtorno, a estudante de Educação Física acredita que sua paciente pode ser mais feliz quando se sente compreendida. "Faço isso há muitos anos, mas só fui começar a postar agora. Foi nesse feeling de entender que, quando eu 'embarcava' nas ideias dela, via que ficava mais feliz. Seus olhos brilhavam", conta em entrevista a Marie Claire.
Memórias do início
Nayara é natural de Minas Gerais e veio para a capital do Rio de Janeiro em 2015. Na cidade, acabou fazendo amigos, incluindo o filho de Maria Emília. Ela passou a frequentar a casa da família e, durante a pandemia da Covid-19, perdeu o emprego e foi convidada a morar na casa deles. Foi nesse período que Maria recebeu o diagnóstico do Alzheimer. Então, como estava desempregada, ofereceram que ela ajudasse como cuidadora.
A família de Nayara ajudou na nova função: sua mãe e seu tio também atuam como cuidadores de Maria Emília. Para ela, o início foi a pior parte do processo. "Ficava assustada, não sabia lidar", diz, referindo-se aos lapsos de memória que acometem pessoas com essa condição.
No entanto, ela já tinha uma certa relação com esse tipo de ofício porque cuidou de um tio que tinha neurotoxoplasmose, que acabou levando a lesões cerebrais com sequelas cognitivas. "Tinha comportamentos muito parecidos com a Maria Emília, incluindo conversar com o espelho e incontinência urinária. Acompanhei o processo dele até a morte."
A estudante ainda diz ver uma semelhança entre a senhora de quem cuida e sua falecida avó, que ficou doente um longo período de tempo e precisou fazer hemodiálise. "Não era muito madura para entender que ela precisava de carinho e leveza no dia dela. Às vezes sinto um pouco de arrependimento, porque se eu fizesse com ela o que faço com a Maria Emília, ela ficaria muito feliz."
Entre a lucidez e o esquecimento
Nayara conta que, no começo, não sabia lidar com a confusão psicológica de Maria Emília. "Batia de frente", admite. "Quando ela falava que não estava em casa ou estava atrasada para dar aula [ela é professora aposentada], rebatia, dizendo que ela estava sim em casa", relembra. "Deixava ela extremamente estressada, a ponto de ter crises e chorar. Era horrível."
Então, seu feeling apontou que ela deveria testar uma nova abordagem. "Comecei a 'embarcar' em tudo. Se ela falava que queria ir para casa, pegava pelo braço e dávamos voltas por lá. Se diz que não quer deitar porque sua cama está cheia de baratas, falo: 'Vamos matar essas baratas!'. Dou um chinelo na mão dela e fingimos que estamos matando-as. Ela faz isso até dizer que quer se deitar", explica.
Eternizando momentos
Nayara explica que se inspirou em uma outra cuidadora que viralizou nas redes sociais para compartilhar sua experiência. "Todos meus amigos e pessoas próximas me encaminharam dizendo para eu fazer o mesmo com a 'Tia Emília', porque todos já conheciam o meu modo de cuidar. Postei e o vídeo bombou, então pensei em postar mais um e assim foi. Com uma pessoa com Alzheimer, toda hora é uma novidade e nós precisamos compreender e cuidar dela", pontua.
"Muitos profissionais falaram o quanto é importante e ajuda [trabalhar dessa forma], o próprio médico dela me fala isso. E essa troca que surgiu a partir dos meus vídeos, com pessoas comentando que passaram a testar isso em casa e deu certo, é um retorno que não tem preço", celebra.
Por fim, ela exalta a forma bem-humorada que ajuda Maria a lidar com o esquecimento: "É como um refúgio que a mente encontra para viver e lidar com isso, parece que tudo fica mais lúdico, por isso é tão importante alimentar essas memórias e viver esse momentos ao lado deles", defende. "O diagnóstico está ali e não volta atrás. Com o Alzheimer nada se recupera, só se perde. É muito legal ter abraçado tudo isso, não é fácil, mas sinto que estou fazendo a diferença na vida dela."
Nayara conta que pretende seguir na área de cuidados mesmo após sua formatura. "Me sinto bem cuidando e sentir que estou levando uma leveza para alguém que tem Alzheimer, que é um transtorno muito doloroso, é recompensador. Vou me formar em Educação Física e meu foco é trabalhar com isso: idosos e recuperação", finaliza.









