Retratos
Por
Manuela Azenha
, redação Marie Claire — São Paulo

Da casa de Cesar Augusto Rossatto, em El Paso, cidade nos Estados Unidos que faz fronteira com o México, é possível avistar o muro dividindo os dois países. Também se vê helicópteros da polícia, os pontos por onde entram os imigrantes e os tantos pertences deixados para trás após a dura travessia. “É um filme diário que assisto”, conta o cônsul honorário do Brasil por El Paso. Professor universitário da Universidade do Texas, Rossatto trabalha com imigração desde 1985. Foi assistente social em Los Angeles por sete anos e em 2017 recebeu o título de cônsul honorário do governo brasileiro - cargo não remunerado, com autorização para representar o consulado.

“Nunca vi uma situação tão caótica como agora”, relata. “Abriu-se as portas para a caça às bruxas de um jeito inédito. Desde a posse de Donald Trump, que legitima o discurso da supremacia branca, ficou autorizado ir atrás de imigrantes em igrejas, hospitais, escolas. É muito grave. Não há mais lugar seguro para essas pessoas.”

A maioria dos casos em que Rossatto atua são para ajudar imigrantes mulheres. São elas também as que mais sofrem ao tentar realizar o esforço físico do percurso até os EUA: “Imagina pular um muro de 10, 15 metros de altura…Um brasileiro bateu a cabeça e morreu ali. Ou cruzar o deserto. Uma brasileira foi encontrada morta no deserto, não aguentou andar no calor e com pouca água para não carregar peso. Além disso, a maioria dos coiotes são homens, que veem a possibilidade de abusar sexualmente dessas mulheres. É muito comum isso acontecer”.

São quase 2 milhões de brasileiros vivendo nos EUA, segundo dados do Itamaraty. Estima-se que 230 mil estão indocumentados, e 38 mil já podem ser deportados com os processos judiciais concluídos, de acordo com o ICE, agência governamental de imigração dos EUA. Entre outubro de 2019 e setembro de 2024, 162 mil brasileiros foram detidos ao tentar cruzar a fronteira com o México.

Rossatto relembra quando, há oito anos, foi chamado pelo consulado brasileiro para ajudar uma mulher que havia sido escravizada sexualmente por um estadunidense, veterano de guerra. “Ele era fanático por armas, as paredes todas cobertas por metralhadoras e revólveres”, conta o cônsul. “Para resgatá-la, o Consulado Brasileiro armou uma situação em que ela mandaria os cachorros de estimação para o Brasil. Esperei no aeroporto de El Paso com a polícia e consegui libertá-la. Estava totalmente desorientada, puro osso. Não falava inglês e nem espanhol. Não fez denúncia formal, só quis sair do país. Entrou no avião e foi embora, nunca mais tive notícias.”

O cônsul também intermediou a situação de uma brasileira presa, acusada pelo FBI de vender os filhos. “Ela emprestou as crianças para outro brasileiro entrar nos EUA como se fosse o pai delas”, relata Rossatto. “Quando cheguei na sala, com as equipes da polícia, patrulha de fronteira e segurança nacional, tinha ali um bebê de 6 meses. Foram quatro horas de interrogação e descobri que ela tinha sido vítima dos traficantes de seres humanos, os coiotes. Ameaçaram ela de morte quando se recusou a entregar os filhos. Tirei ela da prisão no mesmo dia.”

As crianças estavam em um centro de detenção, sob péssimas condições, diz o cônsul. “Foi um longo processo para reunificar a família. Recebi a medalha do Rio Branco depois desse episódio. Se não fosse a nossa intervenção, ela ia pegar 10 anos de prisão e perder a guarda dos filhos.”

Em outra situação recente, Rossatto assistiu uma brasileira de 23 anos, abusada sexualmente por 4 homens no caminho para os EUA, vindo do Canadá.

“Os casos são constantes. As pessoas vivem em desespero. Quando são pegas, não sabem se defender.”

Parte de organizações como o NEA (Sindicato Nacional de Educadores dos EUA), com mais de 3 milhões de filiados, Rossatto diz que diferentes grupos estão se unindo para resistir às ameaças aos direitos dos imigrantes. “Orientamos as pessoas a se defenderem de ilegalidades. Crianças, por exemplo, não devem responder a perguntas da polícia por serem menores de idade. Se a imigração toca a campainha, não devem abrir a porta sem que haja ordem judicial, mandado de busca e apreensão.”

Novas medidas de Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quarta-feira (29) que planeja assinar uma ordem executiva para deter "imigrantes ilegais criminosos" na prisão militar da Baía de Guantánamo, usada para manter presos suspeitos de terrorismo desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O local teria capacidade para 30 mil prisioneiros. A declaração ocorreu enquanto o presidente assinava a Lei Laken Riley, que trata da detenção e possível deportação de pessoas em situação irregular no país, caso sejam acusadas de roubo e outros crimes violentos.

Uma das primeiras medidas de Trump deste mandato foi declarar estado de emergência na fronteira entre México e Estados Unidos. Tropas do Exército e da Guarda Nacional serão enviadas à região para reforçar a segurança. Agentes federais de imigração também tiveram os poderes ampliados para deter suspeitos.

A medida ainda facilita a liberação de recursos para retomar a construção do muro na fronteira. Além disso, o governo também encerrou programas que permitiam a entrada de estrangeiros por motivos humanitários.

Trump também emitiu uma ordem executiva eliminando o direito à cidadania para filhos de imigrantes em situação irregular ou com vistos temporários nascidos nos EUA. Estados governados por democratas já entraram com ações judiciais contra a medida.

Além disso, o governo ampliou o alcance da chamada deportação acelerada, sem a necessidade de uma audiência judicial.

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