'As pessoas não têm ideia de como é nossa vida': freiras atraem novas interessadas e buscam diálogo nas redes sociais
As freiras do Instituto Filhos da Misericórdia, em Fortaleza (CE) divertem seguidores ao quebrar tabus. Em entrevista a Marie Claire, Madre Elizabeth, responsável pelas redes das irmãs, defende que o uso das plataformas ajuda aproximar o público e atrair novas irmãs para vocação
Por Lívia Maria, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)
Há sete anos, as freiras do Instituto Filhos da Misericórdia, de Fortaleza (CE), se jogaram nas redes sociais. Desde 2018, elas começaram a gravar vídeos para as mais diversas plataformas onde mostram seu cotidiano na tentativa de gerar interesse em mais mulheres sobre a vida religiosa. Nos últimos meses, o sucesso tem aumentado -- só em uma das plataformas, os vídeos das irmãs já foram curtidos mais de 500 mil vezes.
Nas gravações, elas exibem detalhes do dia a dia no convento. Contam, por exemplo, que seguem uma vida normal: podem fazer academia, praticar esportes, dançar, conversar sobre os mais diversos assuntos. Também exibem os ritos católicos e dizem que são felizes, mesmo abdicando da vida mundana.
Marie Claire procurou a mente por trás dos vídeos. Ela é Madre Elizabete, de 28 anos, coordenadora do ramo feminino do Instituto. Ela conta que a repercussão dos vídeos ajuda tanto na quebra de preconceituosos sobre as religiosas como também tem aumentado o número de candidatas a ingressar na irmandade.
“Nós nascemos no mundo, não dentro do convento. Então, sabemos mexer nas redes sociais como qualquer um desta geração. Ainda hoje, nossos principal objetivo com as redes é o vocacional: chamar outras vocações [mulheres]. Também queremos mostrar um pouco do nosso dia a dia, porque ainda há uma visão muito abstrata sobre a vida religiosa e por vezes, distante da verdade”, avalia a freira.
“Mostramos aos leigos nossa atuação sempre presente e fazendo parte do pulmão da Igreja Católica que é a vida religiosa”
Quando questionada sobre a atuação feminina na Igreja Católica, a Madre Elizabete pontua que a própria instituição reconhece a importância das mulheres, mesmo com as diferenças de cargos designados para homens e mulheres. Sobre os diferentes trabalhos de homens e mulheres na religião ela comenta:
"A Igreja Católica sempre valorizou o papel feminino. Quando recebemos perguntas sobre o motivo da mulher não estar em cargos eclesiásticos mostramos que há figuras femininas fortes ao longo dos séculos de história da Igreja e a importância dessas mulheres assumindo e abraçando a fé católica".
Para ela, as mulheres seguem com um papel fundamental dentro da religião: difundir o evangelho e, no caso da comunidade que ela representa, ajudar a quem precisa. “Eu me sinto muito vista neste papel e como freiras, sabemos de nossa importância. Na internet, mostramos aos leigos nossa atuação sempre presente e fazendo parte do pulmão da Igreja Católica que é a vida religiosa.
“Já enfrentamos situações difíceis com comentários de cunho sexual, assédio e falas maldosas”
Nas redes sociais, são mais de 300 mil seguidores. Para se aproximarem ainda mais do público, elas contam que apostam na leveza e na alegria. “De forma geral, nosso conteúdo chega em quem tem interesse por assuntos religiosos. Porém, existe quem sabe da existência de uma freira, mas não tem ideia da vida real de uma freira. Nosso objetivo é fazer com que esses curiosos entendam que há renúncias nesta vida, mas como em qualquer trabalho que se exerça.”
Em grande parte, perguntas e comentários não são ofensivos, mas a madre comenta que em casos isolados internautas usam o anonimato das redes para ofendê-las e reforçar estereótipos. “Já enfrentamos situações difíceis com comentários de cunho sexual, assédio e falas maldosas. Não permitimos que isso atinja nossa missão e bloqueamos todos”, pontua ela.
“Sabemos que a vida religiosa, a castidade e o voto de pobreza não é para todas”
Seis anos após estrearem nas redes sociais, a irmã conta que a instituição cumpriu o objetivo principal dos vídeos de atrair novas vocações. Neste ano, foram mais de 200 inscrições para a preparação vocacional, o que a coordenadora do convento enxerga como consequência de mostrar a naturalidade da escolha de ser freira.
Na instituição da qual a madre faz parte, o início da vida religiosa só pode ocorrer após a conclusão do ensino médio e até os 35 anos. Aos 15, meninas que se interessam pela missão podem iniciar a preparação vocacional. "Quem já viveu muitos anos e já se adaptou a um estilo de vida, dificilmente consegue adotar algo completamente distinto", explica ela sobre a preparação das irmãs ainda bem jovens.
“Nós não esperamos um grande número de inscrições, porque sabemos que a vida religiosa, a castidade e o voto de pobreza não é para todas, portanto, não é uma decisão tão simples. Acho que nas redes fizemos as pessoas entenderem isso e que ninguém é forçada a ser freira, assim como há a liberdade de desistir se eventualmente, a mulher entender que isso não é sua vocação”, diz.









