Retratos
Por
Manuela Azenha
, redação Marie Claire — de Rio de Janeiro, RJ

São 10h30 da manhã quando Aimi Kokoro chega em casa de mototáxi, com R$ 1 mil a mais na conta bancária. Está sem nenhuma maquiagem, os cabelos longos e naturais, short jeans curtíssimo, bustiê verde e rasteirinha. Gosta da aparência discreta, tipicamente carioca, com o bronzeado em dia e marquinha de biquíni, já que os porteiros do prédio onde vive em Copacabana não sabem de sua profissão. “O síndico pode implicar”, explica, já no elevador.

Carrega na bolsa um sapato de salto cor-de-rosa, que coloca somente na recepção do hotel ali perto onde costuma atender, para “dar um tchan”. “Não curto essa expressão ‘do job’. Sou puta e pronto”, define Kokoro, trabalhadora sexual desde os 18. “Não gostam da palavra ‘prostituta’ então ficam querendo criar termos para romantizar uma profissão que já existe.”

Plataformas de conteúdo adulto cresceram exponencialmente durante a pandemia da covid-19, e Kokoro deixou de fazer expediente em casas de prostituição para captar clientes de forma autônoma e digital. Faz em média dois programas por dia, de três a quatro vezes por semana, por R$ 1 mil a hora. Também recebe por assinaturas de plataforma digital, como Only Fans, e é atriz de filmes pornô, que grava duas vezes ao mês. O salário varia de R$ 20 mil a R$ 60 mil, a depender de quanto está disposta a trabalhar. “Nunca tomei anticoncepcional, uso camisinha. Então a tensão pré-menstrual pode me deixar sensível e sem energia.”

Faltam dados sobre prostituição no Brasil, mas ainda é uma minoria das trabalhadoras sexuais que usam a mediação de plataformas digitais, segundo levantamento feito aqui, em 2023, pela Universidade de Essex, no Reino Unido, e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Principalmente quando se trata daquelas que ‘fazem rua’, que trabalham em pequenos cabarés e zonas e as que estão fora do eixo Rio-São Paulo”, afirma Natânia Lopes, coordenadora da pesquisa.

Kokoro prefere atender durante o dia, para evitar os “jovenzinhos bêbados” da noite. O turno da manhã, em particular, é disputado: “O cliente diz para a mulher que entrou mais cedo no trabalho. Quando ela vai imaginar que foi encontrar com outra?” Na manhã em que a encontramos era um executivo brasileiro de 70 anos que mora nos Estados Unidos. Ele a contactou pelo Private55, site em que garotas de programa deixam anúncios a uma mensalidade de R$ 600. “Velhinho, mas com os músculos firmes. Adorei, foi um gentleman”, elogia. O sexo durou 20 minutos, os outros 40 minutos foram de conversa.

Aimi em seu apartamento de Copacabana — Foto: Julia Mataruna
Aimi em seu apartamento de Copacabana — Foto: Julia Mataruna

Desde outubro do ano passado, ela mora em um charmoso apartamento de dois dormitórios, piso de taco e amplas janelas, que divide com o casal Rafaela, dentista, e Cristina, médica. Quando se candidatou a alugar um dos quartos, disse que o pai é quem pagaria suas contas e omitiu o verdadeiro trabalho. “É a primeira vez que fiz isso na vida. Sempre contei para todo mundo que sou puta, inclusive para minha família inteira. Mas gostei tanto do apartamento que não quis correr o risco de perdê-lo”, alega. Telas originais do artista pernambucano J. Borges, morto em julho de 2024, cobrem uma das paredes da sala. “Eu tinha acabado de ir na exposição dele e amo essa obra, do coração. Quando vi ela aqui, sabia que era para ser.”

Aimi na praia de Copacabana — Foto: Julia Mataruna
Aimi na praia de Copacabana — Foto: Julia Mataruna

Ao chegar em casa depois do programa com o cliente, coloca um biquíni cortininha azul para ir à Praia de Copacabana, a duas quadras dali, como faz todos os dias por algumas horas até almoçar. “Cansada de gente”, vai sempre com os cachorros de Rafaela, os vira-latas Poze (em homenagem a MC Poze do Rodo) e Deisy. Abre uma cadeirinha de praia e fuma o primeiro baseado do dia. “É a droga perfeita pra mim, me dá tesão.”

Kokoro passou a valorizar ainda mais o sol e o mar depois de viver um ano com o ex-marido em Washington D.C., Estados Unidos, em 2023. Médico estadunidense, a conheceu pela internet como cliente, em videochamadas. Apaixonou-se por ela e começaram um relacionamento que durou dois anos. Passaram a gravar conteúdo pornográfico juntos. “Ele era viciado em pornografia e sempre queria mais e mais. Fiz mais maluquice com ele do que em todos os anos que trabalho como prostituta. Ele chegou a contratar cinco garotos de programa para me comerem na frente dele”, conta. “Caí na fantasia clássica de ir morar fora com um cliente. Mas ele me fez muito mal.”

Kokoro mostra a tatuagem no antebraço com o nome do ex-marido e conta que está fazendo sessões para retirá-la. “Estou pensando em tatuar ‘eu sou puta’ no braço como fez a Lourdes Barreto (prostituta e ativista de 85 anos). Se já tatuei até nome de macho, por que não?”

Quando terminou o casamento, voltou ao Brasil e teve uma depressão severa. “Não queria mais viver”, diz. Aconselhada por sua analista, passou três meses internada em uma clínica de reabilitação em 2024, onde também ficou afastada do celular e conseguiu romper o vínculo com o ex-marido. “Hoje minha prioridade é a minha saúde mental.” E faz terapia há quatro anos. Gosta tanto de psicanálise que pretende começar a estudar. “Sou cachorrinha do Freud.”

Aimi com Poze em Copacabana — Foto: Julia Mataruna
Aimi com Poze em Copacabana — Foto: Julia Mataruna

A sociedade não aceita uma mulher que ama ser puta

Parte dos clientes de Kokoro são pessoas com deficiência, como um executivo do audiovisual sem braços que atende regularmente. Outro fixo é um homem obeso e depressivo, com quem janta antes de ir para o hotel, e faz o papel de “namoradinha”. “Tem cliente que me pede para dar beijinhos nas costas dele e dizer ‘eu te amo’.”

Costuma almoçar no quiosque da Fatal Model (site de anúncios em prostituição), em frente ao hotel Copacabana Palace. Aproveita para deixar cartões de contato com os garçons, que oferecem aos turistas – como acontece em vários outros estabelecimentos de Copacabana. Depois vai para a academia, das 13h30 às 15 horas.

Aimi passa parte do dia respondendo a mensagens de clientes — Foto: Julia Mataruna
Aimi passa parte do dia respondendo a mensagens de clientes — Foto: Julia Mataruna

Ao longo do dia, se dedica a responder mensagens de clientes no WhatsApp. Calcula que 60% sejam fixos. Prefere homens mais velhos, que “transam melhor e conversam melhor também”, além de estrangeiros. “Lá fora o programa acaba quando o cliente goza. Aqui, depois do sexo ainda fazemos companhia até completar a hora. Os gringos não sabem disso então depois de 20 minutos já fico livre.”

No fim daquela tarde, Kokoro participou de um encontro do coletivo Puta da Vida, do qual faz parte. Fundado em 1992 por Gabriela Leite, prostituta e ativista, o grupo atua em defesa dos direitos das trabalhadoras sexuais, “contra estigma e vitimização das putas”, conforme se lê na bio da página de Instagram. Uma reunião com quatro membros foi convocada na Casa Nem, no centro do Rio, para discutir ações contra o projeto de lei apresentado pelo deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil), que proíbe a presença de profissionais do sexo em vias públicas. Movimentos de trabalhadoras sexuais do país inteiro farão um ato em Brasília, no dia 2 de junho, Dia Internacional da Prostituta.

Duas das garotas de programa na reunião também são professoras de escola, e por isso preferem não ser identificadas. “A gente vai pisar na cabeça desse moleque. Quer que a gente exponha todos os clientes de Brasília?”, diz uma delas.

Durante o encontro, tomam Kombucha e comemoram o sucesso do Bloco Zona do Mangue, que percorreu as ruas da antiga zona do mangue, atualmente os bairros de Cidade Nova e Estácio, onde já trabalharam cerca de 7 mil profissionais do sexo.

Kokoro viralizou nas redes sociais após ser filmada no bloco dizendo em uma entrevista: “Amo ser puta”. Foi alvo de um avalanche de críticas, acusada de romantizar a prostituição. “A sociedade não aceita uma mulher que ama ser puta. Temos que ser coitadinhas, vítimas”, afirma uma das prostitutas, que também é pesquisadora do tema. “Entrar para a prostituição pode não ser escolha, mas, se manter nela, sim. Se está insatisfeita, sempre tem vaga no McDonald’s por um salário mínimo”, provoca outra.

No encontro trocam causos da profissão, como o do padre que ensinou uma delas a fazer sexo oral. “Foi tão didático, me ensinou direitinho a chupar. Era ótimo cliente, mas uma das meninas denunciou e ele foi expulso da diocese.” Ela conta também que agora só atende homem que quer fazer inversão [quando ele é penetrado] ou shibari [amarração de BDSM]: “São mais evoluídos. E, se topam essas coisas, é porque confiam em mim.”

Kokoro – que também já teve um cliente padre – atende sempre nos mesmos hotéis, onde os funcionários a conhecem e se sente segura. Vai à casa de clientes somente quando são fixos e em prédios com portaria. Diz que passou por apenas uma situação de risco nesses anos todos. Foi logo no início da carreira, quando “comeu bola” e aceitou fazer o programa para só depois receber. O cliente disse que estava sem dinheiro e garantiu que pagaria no dia seguinte. Mas parou de responder a mensagens e, quando Kokoro ligou para cobrar, ele reagiu com agressividade dizendo que não pagaria mais nada.

Aimi se arruma antes de um programa — Foto: Julia Mataruna
Aimi se arruma antes de um programa — Foto: Julia Mataruna

Seu nome verdadeiro é Renata

Tudo começou quando Kokoro assistiu ao filme de Bruna Surfistinha, com 16 anos, interpretada por Deborah Secco. Ali decidiu que queria a mesma vida de Raquel Pacheco. “O problema dela foi o vício em cocaína, então sabia que não poderia cometer o mesmo erro”, conta. Quando completou 18, saiu da casa onde vivia com os pais em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, e foi ao centro trabalhar em boates.

A primeira experiência, no entanto, aconteceu no ano anterior. “Fiz uma besteira”, confessa. Tinha 17 anos, entrou no chat do UOL e escreveu “sou ninfeta de programa”. Marcou um encontro e sua irmã ficou esperando do lado de fora do hotel. “Logo de cara, ele me perguntou se eu faria golden shower. Não sabia o que era, mas disse que sim. Ele então me falou para ajoelhar no box do chuveiro e fez xixi na minha cara. Como não sabia como tinha que fazer, engoli.”

Antes de ser Aimi Kokoro, foi Antonieta, quando começou a trabalhar em boates, “nomes únicos e inconfundíveis”. Mas seu nome verdadeiro é Renata. E não tem 22 anos, como consta nos anúncios, mas 30. É filha de um técnico de engenharia e de uma dona de casa, evangélica. Tem uma irmã publicitária, que não quis ser prostituta. O ambiente em casa era de violência doméstica até os pais se separarem. “Não foi fácil, mas aceitaram que sou puta. Minha mãe hoje é o amor da minha vida.”

Bissexual, diz que não quer mais se relacionar com homem. Acaba de terminar um namoro com uma designer, que conheceu pelo Tinder. “Ela sabia que sou puta, e não tinha problema. Tinha mais ciúmes da Renata do que da Aimi.”

Seu plano é ganhar dinheiro o suficiente e parar de trabalhar aos 50. Aprendeu a investir pelo YouTube com a Nath Finanças, influenciadora de educação financeira. Também quer escrever uma autobiografia e produzir filmes pornô feitos por mulheres. Estudou três anos de Direito, mas desistiu depois de fazer estágio na defensoria pública e testemunhar “o sistema falido”. Hoje pensa em voltar para se formar e atuar no coletivo em defesa das trabalhadoras sexuais: “Minha paixão é pelos direitos humanos”.

Mais recente Próxima 'É só o início para repatriar nossa história': paleontóloga luta pelo retorno de fóssil brasileiro raro que está na Alemanha
Mais do Marie Claire

Ex-sister conversa com a Marie Claire sobre rotina intensa após o reality, as amizades que se mantiveram e e os desafios de se dividir entre compromissos profissionais e culturais no Amazonas

Como Marciele Albuquerque concilia pós-BBB com o festival de Parintins: 'Maior loucura'

Evento gravado nesta quarta-feira (13/5), no Rio de Janeiro, será transmitido pela TV Globo em 24 de maio

Prêmio Sim à Igualdade Racial 2026: veja os vencedores em cada categoria

Participante comentou desdobramentos de caso recente e falou sobre os rumos da relação entre as duas fora do reality. Em conversa com a Marie Claire, a ex-sister detalhou o vínculo com a campeã desta edição

Milena, do 'BBB 26', explica como está amizade com Ana Paula Renault após polêmica no Dia das Mães: 'Fiz o que bem entendi'

Em conversa exclusiva com a Marie Claire, a artista contou detalhes das mudanças físicas e do processo de construção do papel

Alice Carvalho revela mudanças no olho e cabelo para viver Marta em novo filme: 'Personagem desafiadora'

Artista falou sobre o desejo de aumentar a família e contou como imagina a futura maternidade

Giovanna Lancellotti revela planos para engravidar em 2027 e diz que pretende ter até três filhos: 'Muita vontade de ser mãe'

Com preços a partir de R$ 78,47, selecionamos modelos bivolt com tecnologia iônica e até 1300W de potência para garantir agilidade e efeito de salão sem pesar no bolso

Escova secadora com 60% off no Magalu; 4 opções para um cabelo de salão

Apresentadora visitou espaço dedicado à trajetória da comunicadora e relembrou momentos marcantes da televisão brasileira

Patrícia Poeta se emociona ao conhecer acervo de Hebe Camargo: 'Senti imediatamente a energia dessa pessoa'

Artista apostou em um look grifado para Prêmio Sim à Igualdade Racial, que acontece na noite desta quarta-feira (13) e tem duas categorias apresentadas por ela

Bella Campos reflete sobre ausência de referências na mídia: 'Sei o impacto disso para os nossos sonhos’

Artista compartilhou registros da viagem e recebeu uma enxurrada de comentários dos fãs; veja os cliques

Paolla Oliveira ganha elogios ao abrir álbum de fotos na Itália: 'Por aí'

A premiação acontece nesta quarta-feira (13), no Rio de Janeiro

'Estar no digital é também disputar narrativas', diz Preta Letrada, finalista do Prêmio Sim à Igualdade Racial