'Nos querem mansas, mas somos livres': quem são e o que querem as bruxas do século 21?
Sob a neblina de Paranapiacaba, as bruxas do Clã Senhora dos Mistérios param as ruas em um cortejo para Lilith, a deusa que desobedeceu Adão e abriu mão do Paraíso para seguir seus desejos. Em meio a um mundo que cai – de novo — para o obscurantismo, elas encontram na magia o rastro de suas ancestrais para permanecerem livres
Uma camada grossa de neblina dificulta a visão das ruas de paralelepípedos e das casinhas de arquitetura inglesa do Vale de Paranapiacaba, na Grande São Paulo. Ao fundo, se destaca primeiro o som: um cântico em uníssono formado por vozes femininas e por tambores. Depois, vultos em capas pretas irrompem da névoa e se tornam cada vez mais nítidos. Quem está de fora, quando não se junta, saca os celulares para registrar o cortejo das bruxas do Clã Senhora dos Mistérios que, sorridentes, saúdam à deusa Lilith — tida como a primeira mulher de Adão antes de Eva.
Erguem-se sobre suas cabeças estandartes. Um manda “Liberte-se como Lilith”, com ilustrações da cobra e da maçã que levou devassidão ao Paraíso; outra, o símbolo feminino com um pentagrama em seu centro, ardendo em fogo, com os dizeres “Bruxas feministas”. O cântico para invocar a deusa ora soa como cantiga infantil, ora como mantra: “Lilith, Lilith, venha a mim. Lilith, Lilith, me faça aprendiz”, entoado num sussurro em coro.
O cortejo de bruxas leva a uma pequena praça, em frente a um casebre de madeira — que mais se parece cenário da era medieval do que da metade do ano de 2025. É lá, em meio à 20ª Convenção de Bruxas e Magos do Brasil, que acendem um caldeirão e o cercam num círculo para começar seu ritual sagrado, que reverencia aquela que foi contra as leis de seu criador e a submissão de Adão, escolhendo sua liberdade — como descreve sua história contada no Alfabeto de Sira.
"A serpente que se renova fez revolução onde as mulheres eram oprimidas e só se ouvia não", repetem bruxas e aliados em grupo com a sacerdotisa Camila Eiroa, 32 anos, que lidera o Clã. "A magia de Lilith me fez renascer, aprender minhas potências e a sexualidade conhecer. Sou liberta, libertina se quiser. Lilith ensina: seja o que você quiser."
Ao som de tambores, que progressivamente ficam mais fortes e rápidos, algumas bruxas choram, outras dançam, ao pensarem nos momentos em que "porventura, se sentiram oprimidas". Há alguns homens, bem-vindos no ritual, que também sucumbem. Mas são poucos.
Guiadas pela sacerdotisa, elas pensam na raiva e na dor que sentiram ao ser subjugadas, caladas, violentadas para alimentar o fogo. “Lilith ensina que a raiva deve ser sentida como potência para quebrar qualquer amarra. Vamos trazer isso à tona e queimar no caldeirão", ordena gentilmente Camila. Tudo acaba numa catarse coletiva: um grito que ecoa de dezenas de bocas, mas parece vir de um só organismo.
"Entreguei o patriarcado da minha família para Lilith no caldeirão", conta a tatuadora e multiartista Jessica Padias, 34 anos. Dançando com as mãos e totalmente entregue, sua brasa foram as várias violências que viveu nas mãos de homens da família, mas também da mãe, a quem define como “controladora e machista”, fruto de uma criação evangélica calçada pela opressão. "O que posso fazer por ela é ser livre e fazê-la me ver viva", diz.
As netas das bruxas
Momentos antes do ritual, Camila enfatiza a bruxaria feminista como um dos pilares no Clã. “Não dá para levantar a bandeira de bruxaria sem lembrar o que foi a inquisição e como ela acontece até hoje, de outras formas. A fogueira não é mais o fogo, mas ainda existe.”
É claro que seria injusto dizer que pouco mudou de lá para cá, mas o maquinário de opressão, em grande parte, segue operando com a mesma maestria. As bruxas contemporâneas percebem isso.
Em uma de suas mais célebres frases, Simone de Beauvoir afirma que os direitos das mulheres não são permanentes e são questionados a cada crise política, econômica e religiosa. “Você terá de se manter vigilante durante toda sua vida.”
Foi neste contexto que a bruxaria foi usada como um aval para se cometer o que a filósofa italiana Silvia Federici define como o maior genocídio de mulheres do mundo, em referência à caça às bruxas que tiveram seu pico mundial entre os séculos 16 e 18.
Em sua clássica obra feminista Calibã e a bruxa: Mulheres, corpo e acumulação primitiva (ed. Elefante, 464 págs., R$ 69,90), Federici mapeia o maquinário construído pela Igreja Católica, a nobreza e a burguesia no momento das Reformas na Europa — ou seja, no surgimento do capitalismo — para sufocar todo e qualquer direito, soberania e humanidade de mulheres camponesas, pessoas indígenas e africanas escravizadas, seja na Europa ou durante a colonização das Américas.
"A caça às bruxas foi instrumento da construção de uma nova ordem patriarcal em que os corpos das mulheres, seu trabalho e seus poderes sexuais e reprodutivos foram colocados sob o controle do Estado e transformados em recursos econômicos”, argumenta Federici.
Se antes as mulheres, sobretudo mais velhas, eram consideradas sábias por seus conhecimentos de feitiçaria, cura por meio de plantas, parteiras e guardiãs da natalidade (como saber fazer um aborto), foram alvos de uma campanha maciça para serem perseguidas, condenadas e mortas.
"Ao recorrerem ao poder da magia, debilitavam o poder das autoridades e do Estado, dando confiança aos pobres em sua capacidade para manipular o ambiente natural e social e, possivelmente, para subverter a ordem construída", escreve a filósofa. O intuito era claro: instrumentalizar a misoginia como via de regra e garantir que esses os saberes ancestrais das bruxas fossem descontinuados para sempre.
Mas não deu certo. No século 21, o que as fazem recorrer à bruxaria e suas vertentes é uma escolha que vai além da religião. É também política — seja na retomada dos saberes das mulheres sábias e revolucionárias que foram parar na fogueira, seja como uma maneira de encontrar pertencimento fora de religiões dogmáticas.
Se a inquisição foi minimizada e abafada por historiadores ao longo dos anos, foi no feminismo que a iconografia da bruxa tornou-se símbolo da emancipação, poder, liberdade sexual e sabedoria. O desejo unânime da bruxa é a busca pela liberdade.
Em um mundo que parece retroceder diante de uma ofensiva contra mulheres e outras minorias, a comunicadora Gabriella Bertozzi, 30 anos, diz que ser bruxa é sinônimo de coragem — seja para dar vazão aos próprios desejos ou para viver sua vida de forma autêntica, mesmo que seja considerada "desajustada" por isso. "Mas, principalmente, significa revolução. Não há nada mais sagrado e mágico do que aprender, celebrar, cuidar e ser cuidada por uma comunidade incrível de (majoritariamente) mulheres que vai contra a rivalidade que o patriarcado nos ensina diariamente."
A doutoranda em estudos linguísticos Sarayu Stifani, 29 anos, chegou a viver num seminário de padres na infância, mas percebeu aos poucos que a Igreja não era um lugar onde se sentia pertencente. Foi num sabá (uma celebração) que sentiu uma conexão.
Depois de encontrar o Clã, se sentiu acolhida e confortável para iniciar a transição de gênero. Encontrou forças em deusas do submundo, como a própria Lilith e Hel (deusa dos mortos na mitologia nórdica), para criar a força de ser quem realmente é. "Trabalhar com a bruxaria é sair da dicotomia entre bem e mal. Foi o lugar em que me entendi melhor enquanto mulher."
"Para mim, ser bruxa é ter o poder e a liberdade de fazer minhas escolhas e assumir as consequências. É se assumir livre, doa a quem doer", define a produtora de conteúdo Giovana Saad, 52 anos. "Ser uma bruxa moderna hoje enquanto mulher periférica é resistência", pensa a assistente social Renata de Oliveira Matos, 27 anos. "É ter a coragem de ser quem sou, seguir minha intuição e cultuar a natureza, principalmente em uma sociedade em que o capitalismo selvagem destrói tudo."
A bruxaria para Camila Eiroa, que também é jornalista, doula e taróloga, é uma herança familiar. A avó nasceu em Galiza, ao noroeste da Espanha, e veio ao Brasil fugindo da ditadura franquista. Foi dela que puxou os conhecimentos com ervas e alimentos curativos, além do conhecimento em cristais. Com a morte do pai na infância, viveu em um núcleo matriarcal, ao lado da avó bruxa e da mãe. Foi natural que se interessasse em dar seguimento ao legado.
Em 2015, passou a dar aulas sobre a feitiçaria das bruxas; até que, em 2020, fundou a Casa La Reina, que abriga o Clã Senhora dos Mistérios. Situada em Pinheiros, na capital paulista, é uma escola de bruxaria e espaço de troca de saberes e vivências com foco na bruxaria natural.
“Ser bruxa é uma retomada da autonomia espiritual. Muito do que é ensinado como sagrado hoje é uma construção moderna, e a bruxaria resgata antigas práticas de conexão com a natureza, colocando isso como sagrado. Tem algo de bonito na bruxaria que é, justamente, quebrar com a imagem do divino como masculino, porque muitas sociedades antigas cultuavam as deusas. Também não faz sentido para nós a dogmatização, porque é assim que se perde a soberania de cada um. Na bruxaria, a bruxa é sua própria autoridade mágica.”
Para Jessica Padias, a bruxaria também foi um chamado ancestral. Sua bisavó, uma poderosa benzedeira indígena, foi "laçada"; ou seja, capturada por um português que "foi responsável pela destruição da família dela". "Ela era tão forte que o marido morreu jovem. O pai também morreu de uma forma bem estranha."
A primeira aparição à bisneta aconteceu numa gira de um terreiro de umbanda. Depois, as duas passaram a se comunicar em sonhos e por meio da meditação. Mesmo em uma família opressora, a presença da bisavó tornou-se, de alguma forma, um elo para que seus dons tenham, ao menos, algum respeito.
"Entro em contato com a dor e a raiva dela por ter sido perseguida. Disse a ela: ‘Posso curar vivendo o que você não viveu: tendo liberdade. Me ensine a rezar como você'. A resposta foi: 'Estou com você quando você reza. Eu acredito. Sinto a ancestralidade."
O ritual de Lilith naquela tarde em Paranapiacaba se encerra no ponto em que começou: no canteiro da pousada cercada por árvores e mata, coberta pela neblina. As silhuetas das bruxas continuam visíveis, imponentes.
Agora, há a sensação de que houve um expurgo: depois de alimentar o fogo com suas dores mais profundas, as bruxas saltam, sorriem, cantam mais alto e mais alegremente. "Nos querem mansas, mas somos livres. Estamos vivas!" Não é possível saber quem disse a frase no emaranhado de vozes que se misturam no ar. Mas que foi dita, foi.









