‘Um cachorro, um Celta e um sonho’: quem é a mulher que largou a carteira assinada para viajar até o Peru
Para muitos, uma mulher jovem vivendo em um carro e viajando Brasil afora sozinha pode parecer loucura, mas, para Ana Clara Uchôa é a realidade do cotidiano. Em entrevista a Marie Claire, ela revela os motivos que fizeram ela abrir mão de uma rotina estável para realizar sonho de cruzar o país com a cadela de estimação, Ísis, e chegar até o Peru pelas rodovias
Por Lívia Maria, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)
“Sempre trabalhei como CLT, mas era totalmente infeliz". É assim que Ana Clara Uchôa, de 25 anos, define o que sentia antes de tomar uma decisão drástica. A jovem decidiu colocar tudo o que tinha em um Celta e viajar ao lado da golden retriever, Ísis, seu xodó. A ideia foi alimentada durante anos, enquanto ela acompanhava a história de um influenciador que foi até o Alasca ao lado de seu pet.
"Achava a história dos dois o máximo e quando eu ganhei a Ísis comecei a juntar dinheiro para viajar e levar ela. Quatro anos depois me demiti. Em um dia pedi demissão e dois dias depois já estava na estrada", conta. O carro, longe de ser confortável, ganhou até um apelido, Ozzy.
Ana Clara traçou um objetivo: queria chegar até o Peru. Em sua primeira tentativa, nem tudo saiu como o esperado. Ela desistiu logo após as primeiras semanas, quanto estava no Rio Grande do Norte, porque se sentia cansada. As muitas trocas de cidade, a solidão e a imprevisibilidade do cotidiano a fizeram repensar o projeto. A culpa também apareceu. “Fui consumida pela ideia do que as pessoas iriam falar. Tive medo que, por ser mulher, pensassem que eu era fraca e não conseguia aguentar os desafios de viajar sozinha", relembra.
'Agora, tem sido maravilhoso'
Agora em 2025, Ana Clara decidiu que era hora de uma nova tentativa. Ela conversou com Marie Claire enquanto seguia a caminho até o destino final, que segue sendo o Peru. A jovem também é acompanhada por mais de 350 mil seguidores, que acompanham cada detalhe do trajeto.
Assim que decidiu seguir viagem, ela fez alterações no veículo. Além de adaptar os bancos traseiros do carro para dormir, ela decidiu levar um fogão portátil. A família, claro, estranhou a ideia. "Hoje em dia, por causa do sucesso nas redes sociais, a situação ficou mais controlada. Agora, eles sabem onde estou e entendem melhor”, explica.
Ainda que se sinta corajosa e focada no objetivo, ela não nega que sente medo. Ela sabe que mulheres correm mais riscos. “Há noites em que sinto medo, há momentos em que acho melhor sair de certas regiões para evitar riscos e também tenho um entendimento de que algumas cidades exigem um maior nível de cuidado”, pontua. “Nos momentos em que sinto medo me vem o impulso da coragem, porque viajar é o que quero fazer. Eu sempre vou achar uma solução antes de alguma coisa me impedir de continuar fazendo o que eu quero”, completa.
Muitos chegam a duvidar que ela esteja realmente sozinha ao lado de Ísis. "Eu não me incomodo, mas penso que se fosse um homem no meu lugar achariam normal. Alguns desconfiam de que eu viajo sozinha por causa dos desafios, mas posso garantir que sempre me virei muito bem”, diz ela.
A mulher que está a caminho do Peru
Quando conversou com Marie Claire, Ana Clara estava em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Falta muito até o destino final, mas ela conta que está feliz e que, até agora, tudo saiu como o previsto. “Essa segunda temporada de viagem tem sido maravilhosa. Vamos ver até onde a gente vai com uma cachorra, um Celta e um sonho. Quero conhecer Machu Picchu, fazer trilha. E depois? Não sei", conta ela que incentiva outras mulheres a também apostarem sua liberdade -- mas, claro, com segurança.
“Penso que todas as mulheres do mundo deveriam ter pelo menos uma vez na vida a experiência de viajar sozinha. Pode ser que a pessoa nem goste, pode ser que ela pense: ‘não é para mim’, mas a experiência de ter trocas com outras mulheres e conhecer o mundo é maravilhoso. Eu fico muito feliz de poder incentivar elas nesse sentido.”









