A história da chef de cozinha que é professora universitária da própria mãe: ‘Responsabilidade ainda maior’
Bai Frazão ajudou a mãe, Marinalva Frazão, a realizar o sonho de cursar Gastronomia. Em entrevista para Marie Claire, as duas contam contam como funciona a dinâmica em sala de aula: ‘Não tem essa de descobrir o que vai cair na prova antes de todo mundo’
É comum encontrar histórias de mães professoras que lecionaram para o filho, seja no ensino primário ou na universidade. O inverso é raridade, mas é o que vive a chef de cozinha Babi Frazão, de 33 anos: ela é professora universitária da própria mãe, Marinalva Frazão, que resgatou o sonho da primeira graduação aos 52 anos.
Professora no curso de Gastronomia do Centro Universitário UDF, no Distrito Federal, Babi já trabalhava ao lado de Marinalva em seu restaurante, o Afeto, localizado no Lago Norte do point gastronômico Quituart. Mas os laços familiares se tornaram ainda mais fortes depois que a mãe decidiu ingressar no ensino superior.
"Sempre tive vontade de cursar, mas na minha época o curso de Gastronomia não existia", conta Marinalva, em entrevista por vídeo para Marie Claire. O único curso disponível na época era o de Nutrição, mas Marinalva não se via na área da saúde. Além disso, era a principal responsável pelo cuidado com Bárbara e seu irmão, Arnaldo, o que dificultava ainda mais a possibilidade de estudar.
"Depois que eles cresceram, um amigo da Bárbara, que é professor, me incentivou a fazer o curso. Respondi que não, porque não tinha mais tempo para isso. Ele disse que, caso eu quisesse, me ajudaria. Daí, a Bárbara me ligou perguntando se era o que eu queria." Foi assim — “no susto”, como diz Marinalva — que ela se viu dentro da sala de aula.
"Acho que não há idade para essa troca de inspiração. Em algum momento da vida ela me inspirou. Sem dúvida, hoje sou uma inspiração que a motiva a fazer algo melhor e se propor a fazer coisas novas", diz Babi, que também é vencedora da competição MasterChef Pro, da TV Band, em 2023. "Independentemente da época, o conhecimento sempre vai te elevar."
Por mais que seja extremamente criteriosa e não permita que o relacionamento interfira na dinâmica do ensino, Babi conta que é impossível virar uma chave e tratar a mãe como uma pessoa desconhecida.
"Tenho o privilégio que nenhum professor ou aluno tem. É gostoso porque existe uma relação de carinho, respeito e hierarquia. O respeito vem independentemente de quem está ali, e vou proporcionar para todos o que eu proporciono para a minha mãe."
Tudo começou começou na cozinha
Filha de uma nordestina e um mineiro, Babi coloca a família como a alma de sua culinária e do afeto que permeia o cardápio de seu restaurante. É onde ela transmite suas "heranças na culinária", em que cada prato traduz uma parte de sua trajetória de vida. "Dentro desse espaço, minha mãe sempre esteve do meu lado, me dando liberdade e autonomia", a chef conta.
A relação afetuosa das duas na cozinha está tão enraizada que Marinalva se lembra de uma das primeiras fotos da filha: em que ela aparece criança, em cima de um banquinho, para ajudá-la a fazer pudim.
Os anos passaram, mas o amor de Babi pela culinária e os ensinamentos de sua mãe na cozinha, não. Em 2021, quando ela inaugurou o Afeto, viu uma brecha para trazer a mãe para mais perto do lugar onde sempre quis estar. "Trabalhava como segurança lá na universidade e Bárbara me convidou para ser a sous-chef dela. Pedi demissão na mesma hora e fui", diz Marinalva.
Não foi difícil pegar o jeito: Marinalva tirou de letra tanto a administração do restaurante quanto a execução das receitas do menu. Se as duas já eram unha e carne, a relação ficou ainda mais próxima ao virarem parceiras de negócios. Como se não desse para aprofundar mais que isso, veio a nova dinâmica em sala de aula.
'Entrar numa sala de aula com a minha mãe é muito diferente'
Quando Marinalva começou o primeiro semestre do curso, Babi sequer contou aos alunos que ela era sua mãe. Ela não queria que ficasse entendido (equivocadamente, é claro) que Marinalva teria qualquer privilégio pelo parentesco. A descoberta aconteceu algum tempo depois do início das aulas, quando Babi revelou o parentesco em um evento da universidade.
"Entrar numa sala de aula com a minha mãe é muito diferente”, diz Babi. “A responsabilidade e o compromisso são ainda maiores com a classe. Deviam se perguntar: 'Vai ser diferente? Ela vai ter privilégios?' Só que sou tão criteriosa com ela quanto com todo mundo. Sem contar que quero que ela realmente seja a profissional que busco ver no mercado de trabalho. Aqui, não tem essa de descobrir o que vai cair na prova antes de todo mundo.”
Ou seja, Marinalva tem o mesmo nível de atenção e disponibilidade que o restante de seus colegas têm; mas, por mais que a cobrança seja a mesma, a motivação muda quando uma de suas alunas é a própria mãe.
"É gostoso saber que ela me conhece mais do que qualquer pessoa que está ali. Ao mesmo tempo, é um desafio. Sofro quando vejo que ela está nervosa e ansiosa para fazer tudo certo. Só que, infelizmente, é uma angústia que não posso tirar dela enquanto profissional. Até porque isso faz parte do processo de aprendizagem", pondera a chef.
Para Marinalva, o que pegou foi a cobrança do novo ambiente e de ficar a par das disciplinas. "Falam que como sou mãe da professora, tenho que tirar nota boa", diz. A idade em si não foi um impeditivo, ela conta. Primeiro porque, por estudar no período noturno, tem contato com pessoas de várias idades. Há ao menos outros três alunos em uma faixa etária mais próxima dela, enquanto o restante se mostra aberto e interessado em caminhar ao seu lado.
Outro ponto que ajuda nesse entrosamento é o seguinte: todos que estão na turma já trabalham na área e buscam expandir os conhecimentos, além de ratificarem a capacitação com o diploma.
Enquanto Marinalva é descrita pela filha como "uma aluna tranquila e dedicada", Babi é vista pela mãe como "focada, desde sempre". "Ela é muito séria em sala de aula. Procuro nem ficar olhando muito para ela na hora das explicações", brinca.
"Mas ela é muito boa. Gosto muito de tê-la como professora. Estamos ainda mais próximas, literalmente. Tenho muito orgulho de ser mãe dela e ver o quanto ela cresceu e ainda cresce. A Bárbara está colhendo tudo o que plantou", acrescenta com orgulho.
A entrada de Marinalva na universidade não faz parte de uma realização do sonho dela. Mais ainda, inspirou outras mulheres para que também corressem atrás dos estudos que sempre quiseram ter, mas não tiveram a oportunidades antes.
"Quando coloquei no Instagram que minha mãe voltou a estudar, as pessoas vieram cumprimentá-la no restaurante. Temos um grupo de mulheres formado por mais velhas, entre 60 e 65 anos, e duas disseram que iriam começar por conta da minha mãe. Então, ela inspirou outras pessoas. Acho que quando nós, mulheres, promovemos o que a gente faz e vence, trazemos todas as outras junto”, pondera Babi.









