A médica que retribuiu a ajuda que recebeu atendendo ribeirinhos em barco hospital no Amazonas: 'Sempre precisei do governo'
Larissa Oenning, de 26 anos, atendeu pacientes de forma voluntária a bordo do Barco Hospital São João XXIII. Durante a experiência, e jovem abriu os olhos para a realidade das comunidades ribeirinhas do Amazonas e disse que quis se voluntariar para devolver a quem precisa a ajuda que recebeu de políticas públicas
Por Lívia Maria, redação Marie Claire — redação Marie Claire
A médica Larisa Oenning decidiu viver uma experiência que a marcou profundamente quando estava em férias, em maio deste ano. Residente em Dermatologia na Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, e médica formada pela Univille de Joinville (SC), ela quis passar por uma experiência diferente do habitual, trabalhando como voluntária em uma expedição de atendimento a comunidades ribeirinhas, no Amazonas.
Foi assim, que ela se tornou parte da equipe de médicos e dentistas do Barco Hospital São João XXIII, que desde 2024 tem atendido pacientes como parte do Sistema Único de Saúde, o SUS.
“Sempre precisei do governo para estudar, porque ganhei bolsa integral do Prouni, e me especializei em uma instituição pública. Desde o meu ingresso em Medicina, eu sabia que precisava devolver toda essa ajuda que ganhei para a população e o voluntariado foi a realização desse sonho. Quando descobri por amigos que poderia ter essa experiência, sabia que eu precisava participar”, relata Larissa a Marie Claire.
A jovem é uma das centenas de profissionais da saúde que se inscreveram no banco de talentos da Associação e Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus, entidade religiosa que, com ajuda de doações e, dos governos do Amazonas e do Pará, leva assistência aos moradores de regiões isoladas. Ao todo, são 7 dias de expedição com cerca de 20 enfermeiros e biomédicos, do Sistema Único de Saúde (SUS), na equipe fixa, além dos voluntários, 24 no total.
“A Dermatologia é uma área com menos procura e deficiência de talentos, então ui chamada mais rápido do que outros profissionais, como os dentistas que disputam vagas bem concorridas. Apesar de atender com a minha especialidade, eu também atuei como Clínico Geral. O trabalho é muito já que as pessoas viajam por horas de comunidades ainda mais distantes e chegam na madrugada só para a consulta”.
A rotina a bordo de um barco hospital
O voluntariado sempre foi um sonho. Por isso, Larissa avalia que não ficou acuada ao lidar com as adversidades. Ela pontua que ter escolhido a residência em um hospital público a preparou para lidar melhor com a pressão. “Eu fui de cabeça aberta e sabia o que estava me esperando. Dividi quarto com outros voluntários, entendi aspectos da cultura regional e me senti muito envolvida com tudo”.
Durante as 20 horas que ficou a bordo do barco após sair de Manaus, a médica consultou pacientes dos arredores do município de Urucará, uma distância de mais de mil quilômetros. Por lá a rotina começava cedo, às seis horas da manhã e se estendia até tarde da noite: “Nós distribuíamos as fichas para a população e dividíamos os grupos de acordo com as queixas. São cerca de 50 pacientes por médico, mas algumas especialidades como a ginecologia às vezes atendiam o dobro”.
Os procedimentos feitos pela equipe tinham o intuito de acelerar processos para a descoberta de diagnósticos de forma mais rápida, assim como o encaminhamento de casos sérios para instituições da capital. “Alguns exames, como radiografia, exame de sangue, ultrassom e mamografia, nós já conseguíamos fazer dentro do barco e encaminhar os pacientes. Com isso, uma consulta que poderia levar um ano para ser realizada pode ser feita em questão de seis meses ou de forma imediata, se fossem diagnósticos graves”, diz.
“Parece pouco perto da vivência com que muita gente está habituada, mas para pessoas que vivem em um sistema onde tudo é mais difícil de chegar essa triagem tem um impacto muito grande.”
Além da assistência médica, os ribeirinhos também queriam ser ouvidos. É por isso, que em muitas consultas, ela e os colegas se envolviam com as histórias de seus pacientes: “A gente precisava se policiar para não se apegar demais nos desabafos deles, eu principalmente. Para muitos, nós não éramos apenas profissionais da saúde, mas sim, super-heroínas e super-heróis. Eles contavam histórias muito difíceis de ignorar e fechar os olhos”.
O relato de médica voluntária a bordo de barco hospital de comunidades ribeirinhas
Médica relata causas urgentes das populações ribeirinhas
Dos diagnósticos recebidos pelos pacientes do Barco São João XXIII, a voluntária se lembra com mais preocupação daqueles que representam também um problema social: “Na dermatologia, havia os casos mais comuns nas clínicas, como a dermatite atópica e alergia, e aqueles que a gente sabe que tem causa social e estrutural, como doenças fúngicas e até mesmo sarna”, diz ela.
Além disso, ela também se deparou com questões de gênero em diversas consultas, já que muitas meninas sequer sabiam do que se tratava a educação sexual: “É muito triste ver que muitas meninas não sabiam dos métodos contraceptivos e que mulheres adultas nunca tinham feito exames preventivos, como Papanicolau e mamografia. Por isso, eu e outras médicas tínhamos mais cuidado com elas. Fizemos testes preventivos, de gravidez, e explicamos sobre o uso dos contraceptivos, para as mais novas até as mais velhas”.
Graças ao cuidado maior com as mulheres que a equipe pôde encaminhar pacientes com nódulos nas mamas para a capital, Manaus, e conscientizar muitas delas sobre a importância dos exames: “Passar por essas pacientes me ajudou a entender que a medicina não chega da mesma forma para todo mundo. Há essa ideia de que a pessoa descobriu o câncer em estágio avançado porque não fez o rastreio, sem considerar que esses exames de rastreio não chegam a muita gente. No caso delas, as mulheres nem sabiam o quão importante para saúde era a mamografia”.
Os conselhos da voluntária para outros colegas que desejam ter a mesma experiência
Com o fim do voluntariado, a residente de dermatologia retornou a São Paulo para concluir os estudos, mas já tem planos de realizar outras missões: “Há programas em diversas partes no Brasil e do mundo. Por aqui, muitos custeiam a viagem e as despesas dos médicos, como no caso dos franciscanos. Mas, em outros países, como Angola, é preciso pagar tudo e eu ainda não tenho condições para isso. Mas, certamente, é uma experiência que eu vou repetir”.
A médica também aconselha outros colegas a terem vivência semelhante, o que garante que a amadureceu como profissional: “[O voluntariado] me mudou muito, porque modificou a forma com a qual enxergo os pacientes. Eu penso que todo médico deveria fazer um trabalho voluntário de cabeça aberta, porque não é transformador só do ponto de vista social. Te faz enxergar o mundo com mais sensibilidade” conclui.
Como ser voluntário
Procurada pela Marie Claire, a assessoria da Associação e Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus explicou como funciona a captação de talentos que desejam se voluntariar nas expedições de saúde. No Pará, onde a fundação religiosa também atua, é o Barco Hospital Papa Francisco responsável pela assistência.
“A associação tem um banco de médicos e dentistas. Para ser voluntário, é preciso fazer o cadastro em nosso site e falar a especialidade em que atua. Nós organizamos as expedições cerca de dois meses antes de acontecer e elas acontecem a cada 15 dias. Por isso, averiguamos não só a especialização do profissional, mas também a disponibilidade de agenda. Felizmente, nós temos muito interesse das pessoas em contribuir”, declarou a equipe.









