'Tive que me provar o tempo todo': única mulher em seu curso na faculdade relata exclusão e crises de ansiedade
Aos 20 anos, estudante de Ciência da Computação da UFPB detalha a Marie Claire como foi sua experiência cursando universidade sem colegas mulheres em sua sala. Ela admite ter sofrido preconceito, aprendido a lidar com 'piadas' e comentários maldosos de colegas a descredibilizando e conta como o apoio feminino de estudantes de outros cursos e professoras mulheres a ajudaram a seguir sua trajetória na instituição
Isabela Silva de Araujo, de 20 anos, teve um primeiro período da faculdade marcado por medo, exclusão e inseguranças. Ela cursa o quarto período de Ciência da Computação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e sempre teve uma grande afinidade pela área de exatas, mas nunca imaginou que esse sonho fosse custar caro para sua saúde mental. Além dos desafios relacionados ao alto nível exigido pela academia, a universitária conta que teve que lidar com piadas por ser mulher, com a falta de inclusão por parte dos colegas e até a descredibilização dos resultados que alcançava. "Meu primeiro dia foi traumatizante, desesperador. Quando entrei para a minha primeira aula, vi que éramos quatro meninas, contando comigo, em uma turma de 40 alunos — sendo que uma delas não era do meu período. Até a metade do semestre, só sobraria eu."
"Quando entrei, estranhei a ausência de mulheres, porque tinham me falado que havia uma participação feminina maior no campus do que nos anos anteriores. Não sei se tinham essa impressão porque é uma faculdade no interior, mas mesmo com as pautas de inclusão que estavam implementando ali, ainda me vi sozinha", detalha a estudante, que foi a única que não trancou ou saiu do curso apesar das dificuldades e da grande desigualdade de gênero, em entrevista a Marie Claire.
De acordo com a professora e Coordenadora do Curso de Ciência da Computação - Centro de Informática da UFPB, Giorgia de Oliveira Mattos, dos 428 alunos matriculados no curso em questão no período de 2025.1 364 são homens, sendo apenas 64 mulheres - o equivalente a 15% da formação discente. "Ao longo dos últimos 15 anos, não aconteceu de termos apenas uma menina iniciando o curso. Mas tivemos somente duas que concluíram o curso, uma em 2014 e outra 2018", revela a profissional.
"Ninguém me incluía em nada. Senti muita falta de amizades, principalmente no primeiro e segundo períodos", lamenta a estudante, que, por cursar um curso integral, precisava passar praticamente o dia inteiro na faculdade. "Tentei me conectar com alguns meninos, mas era terrível. A galera da Computação faz muitas piadas com humor ácido sobre mulheres."
Uma ajuda em um meio masculino
O que Isabela acredita que a "salvou" foi o fato do corpo docente da universidade ser formado por diversas professoras que a acolhem mais que seus colegas e incentivam projetos de inclusão: "[A universidade] tem uma proposta de integração das meninas e projetos de extensão, como o Projeto It Girls [que incentiva meninas da rede pública a ingressarem em cursos da área de tecnologia], e eventos, como o Mulher Tech Sim Senhor [que faz parte do programa Women Techmakers, iniciativa global do Google que busca empoderar mulheres na tecnologia por meio de visibilidade, construção de senso de comunidade e investimento de recursos para tornar a prática possível]".
Essa sororidade, no entanto, também virou motivo de chacota e ataques por parte dos outros alunos. "Quando minhas notas se destacavam, diziam que eu só havia ido bem porque a professora também era mulher", relata. "O meu esforço, para eles, se devia à afinidade que as professoras tinham comigo. Não era porque eu tirava boas notas, era porque, por ser a única mulher, era considerada a 'queridinha' da professora."
Ao todo, o Centro de Informática, unidade que rege os cursos de Ciência da Computação, Engenharia da Computação e Ciência de Dados e Inteligência da UFPB, tem 13 docentes mulheres e 51 homens. "Até nas subáreas da computação temos essa disparidade entre profissionais homens e mulheres. Em áreas como Engenharia de Software e IA, por exemplo, temos mais mulheres do que em Redes, Arquitetura de Computadores e Robótica", explica Giorgia.
Por mais que tente ignorar os ataques e manter o foco nos seus objetivos, Isabela admite que passar por essas situações a fez questionar o seu próprio valor. "Diziam que eu estava passando e me destacando porque só tinha eu de menina. Senti que não gostavam de mim. Não gosto de falar que tinham inveja, mas percebia que era isso. Depois de tudo que passei, comecei a desacreditar em mim e a me questionar. Tive crises de ansiedade em provas, porque passei a levar muito a sério essa questão de me provar."
Ao longo do curso, já foi chamada de "metida", "arrogante" e "chatinha", por se sobrepor aos seus colegas homens mesmo em uma área dominada por eles quase que de forma absoluta. "Teve uma aula em que um garoto chegou a dizer que leu um artigo que dizia que as mulheres não tinham tanta participação em cursos de exatas porque não temos o cérebro muito bem desenvolvido para essas questões."
Amizades femininas, ajuda e cumplicidade
Outro refúgio para ela se deu às conversas de corredor e eventuais colegas de outros períodos que acabavam em sua turma. "Conheci meninas de outros cursos e turmas, mas infelizmente não deu para ter muito contato por todo mundo buscar se aproximar mais de quem é do seu próprio ano, mas nas vezes que as via, eram super atenciosas e acolhedoras."
A estudante relata que, apesar de ter fortes amizades femininas que cresceram com ela fora da faculdade, acabou se afastando um pouco por conta das altas demandas do seu curso. "A universidade pública exige que você esteja sempre lá e isso prejudicou bastante os meus laços. Não tem como sobreviver a um período sem ter nenhum apoio social. Eu achava que daria para ficar com tranquilidade e isso não fez bem para a minha cabeça", reconhece.
Isabela acredita que a amizade entre mulheres desenvolvem um elo muito mais profundo do que quando é com homens. "O principal é a compreensão de que não há competitividade. Tem apoio e é uma amizade genuína, que a outra realmente tem interesse por você. É mais leve e tranquila e tem muita ajuda", pontua.
"Com os rapazes, ou levam [a amizade] para o âmbito da sexualização ou têm medo ou fazem com que nós tenhamos que nos provar o tempo todo dignas daquele espaço", critica. "Eles nunca me pediram ajuda em muitas cadeiras em que eu era destaque. Pediam para o professor ou apenas entre eles."
O futuro é feminino
Apesar da experiência difícil na graduação, a paraibana acredita que o mercado de trabalho será menos desafiador. "Me sinto preparada, porque vejo o mercado se movimentando para aumentar a participação feminina. Nas poucas entrevistas e momentos em que tive contato, não vi essa diferença tão grande [entre gêneros]. Não senti que tinha que provar tanto o meu valor. Vejo muitas portas abertas e acho que difícil encontrar uma experiência pior do que a da faculdade", lamenta.
"Já foi testado e comprovado que equipes de trabalho mistas, com experiências, habilidades e competências diferentes geram melhores resultados. A diversidade constrói um ambiente rico em criatividade e esses times resolvem problemas com maior agilidade, propõem melhores soluções e apresentam resultados muito superiores. Ainda, a diversidade de perspectivas enriquece a criação de produtos e soluções mais inclusivas e eficazes. Ou seja, são muitos pontos positivos que precisam ser considerados e estimulados", destaca Giorgia.
A coordenadora ainda reforça que é otimista e luta pela igualdade de gênero em seu meio de atuação: "É um trabalho a médio e longo prazo, que precisa ser feito e estimulado. Também é fundamental que os homens apoiem, colaborem e incentivem as mulheres na computação, garantindo um ambiente de trabalho justo e igualitário e inspirando as gerações futuras".









