Barragem ameaça romper em MG, e mulheres criam rede de apoio a desabrigados: ‘Medo de perder tudo’
A lavradora Irani Rodrigues relata a angústia de ter saído de casa às pressas depois que a Barragem das Lajes, em Porteirinha (MG), começou a transbordar e passou a apresentar risco de rompimento
Era madrugada de domingo (1º) quando a lavradora Irani Rodrigues, 39 anos, ouviu as batidas na janela. “Levanta, levanta. Pega as crianças e sai de casa, que a água está chegando na porta.” Era sua irmã que, às pressas, dava a notícia de que a Barragem das Lajes, em Porteirinha, cidade do norte de Minas Gerais, estava transbordando.
“Foi um momento angustiante. Eu levantei rápido e peguei só os documentos. A gente saiu e, quando chegou no portão, a água já estava quase em casa. Não entrou na minha, mas invadiu a casa de vizinhos próximos”, conta Irani.
Ela e outros moradores da região mais próxima à barragem se refugiaram em uma casa localizada em um ponto alto, onde a água não chegaria. No fim daquele domingo, a Defesa Civil os encaminhou para um abrigo em um Cemei (Centro Municipal de Educação Infantil).
Desde então, ela e os dois filhos, uma menina de 13 anos e um menino de 9, não puderam voltar para casa. Segundo a Prefeitura de Porteirinha, de sábado para domingo a cidade registrou mais de 120 milímetros de chuva em cerca de quatro horas, volume considerado superior à média histórica para o período. Esta já é a maior enchente registrada na região em mais de 40 anos.
“Aqui [no abrigo] a gente é bem tratado. Tem comida, colchão e lanche. Mas a nossa mente não fica tranquila sem saber o que pode acontecer, com medo de perder tudo a qualquer momento caso a barragem rompa. Meu filho, por exemplo, pegou uma tesoura ontem e cortou o próprio cabelo. Não é fácil. É muita angústia. Ele não está acostumado a ficar assim”, lamenta a lavradora.
Ao pensar em barragem e Minas Gerais, a memória recente encaminha o retrato das tragédias de Mariana e Brumadinho. Mas, agora, não se trata do mesmo problema: diferentemente dos desastres provocados pela mineração comandada pela Vale no estado, a situação em Porteirinha envolve uma barragem de água.
Neste caso, o risco de rompimento está associado a fatores como chuvas intensas e aumento da pressão do reservatório. As informações da prefeitura citam um rompimento parcial na estrutura da barragem, com comprometimento superior a 90% do sangrador – local destinado a dar vazão ao excesso de água.
“Nossa comunidade é muito unida. Tentamos ajudar uns aos outros. Mas nem todos querem sair de suas casas. É a fonte de sustento. Muitas famílias vivem do leite e da produção de queijo. Precisam trabalhar, vender a produção. A vida não pode parar. Durante o dia trabalham e à noite buscam o abrigo”, relata Irani.
Apoio entre mulheres
No abrigo, Irani encontra apoio e conforto nas outras mulheres que também precisaram deixar suas casas. “Uma vizinha teve a casa invadida pela água e pela lama. Ela não pode ir lá limpar ou cuidar de nada. A gente fala muito sobre o medo de perder tudo o que conquistamos com tanto esforço: móveis, casa, bens”, desabafa.
Ao todo, 114 pessoas foram retiradas de 46 residências da área de risco. Segundo a prefeitura, somente 13 optaram pelo abrigo e as demais foram para casas de familiares. No bairro Cidade Alta, duas residências foram danificadas por deslizamento de terra. As pessoas afetadas estão desabrigadas e foram encaminhadas para um hotel da cidade com apoio da Administração Municipal.
Apesar de toda a assistência oferecida, existem questões que não são lembradas em momentos como esse: itens de higiene íntima, como absorventes, não foram distribuídos para as mulheres abrigadas. “É difícil, mas precisamos lidar com isso. Mulher não tem escolha.”
Para ela, em contextos como esse, as mulheres costumam sofrer mais com os impactos negativos. “Quem é mãe se preocupa mais. Tem também os idosos na família, avó, bisavó, mãe, neta, e as mulheres acabam se preocupando mais do que os homens”, ela diz.
A professora Deidiane Antunes, 30 anos, não mora na região de risco e, por isso, não precisou deixar sua casa, mas a ofereceu para ser ponto de apoio para alguns vizinhos e as equipes da prefeitura, dos Bombeiros, da Defesa Civil, da Polícia Militar e Ambiental que estão atuando no monitoramento da barragem.
“A minha casa é tipo um prédio. Lá de cima, dá para ver a água inundando o rio, de longe. Eu consegui ter essa vista. Meus vizinhos começaram a chegar aqui em casa para ficar mais seguros, pelo menos até a chuva parar”, conta.
Hoje, ela abriga também os sogros, que precisaram deixar a casa onde moram.
“A gente viu momentos de choro, angústia e tristeza. Tenho uma tia que mora nas Lajes e não pode nem atravessar o rio para buscar as coisas dela. Está sem condições. Ela chegou aqui chorando hoje. É um momento muito triste, uma pessoa que não pode ficar na própria casa e não sabe quando vai poder voltar”, lamenta a professora.
A prefeitura ofereceu o suporte e os insumos para que a casa de Deidiane pudesse servir como ponto de apoio. Mas nos afazeres diários, foram as mulheres que se voluntariaram para dar conta do que precisa ser feito: lavar, cozinhar e manter tudo em ordem para que as equipes tenham como seguir trabalhando. Entre elas, estão Selionara Maria e Ângela Maria, ambas auxiliares de serviços básicos, além de Lourdes Antunes, a sogra de Deidiane.
“Se a população ou os bombeiros precisarem de apoio ou suporte, estamos aqui para isso. Somos um pelo outro. O que estiver ao meu alcance, estou disposta a fazer a qualquer momento. Toda ajuda é bem-vinda”, afirma a professora.
Sem solução à vista
A previsão é que a chuva volte a atingir Porteirinha nos próximos dias. Na quarta (4), a prefeitura e a Defesa Civil reforçaram o alerta e orientaram a população que “caso esteja em área considerada de risco, procure imediatamente um local seguro e não se aproxime de margens de rios, barragens ou áreas alagadas”.
Segundo Irani, o desejo da comunidade que vive nas proximidades de Lajes é que a barragem seja drenada e esvaziada. “[A prefeitura] fala que quem é responsável é a Codevasf ou a Copasa e ninguém faz nada”, conta.
A Codevasf é a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, e a Copasa é a Companhia de Saneamento.
Em posicionamento enviado a Marie Claire, a Administração Municipal afirmou que “a barragem é de responsabilidade da Codevasf. A prefeitura está acompanhando todos os trabalhos, medidas, avaliações e análises. No entanto, a decisão do que deve ser feito é unicamente de responsabilidade da Codevasf.”
Por outro lado, em nota, a Codevasf ressaltou que “as ações de gestão, operação e manutenção da Barragem de Lajes são de competência do município de Porteirinha, ente empreendedor com o qual a Codevasf firmou Termo de Compromisso em 1989”.
Além disso, a companhia afirmou que após implantação das infraestruturas da barragem, o município assumiu a responsabilidade pela operação e manutenção do reservatório.
“A Codevasf implantou a Barragem de Lajes a pedido e em favor do município de Porteirinha, que à época não detinha recursos financeiros e técnicos para realizar a obra. [...] Desde então, o município usufrui da barragem sem qualquer ingerência da companhia”, diz a nota.









