Em busca de cidadania tcheca, bebê de brasileira é obrigado a fazer teste de DNA para comprovar paternidade: ‘Não entendi’
Pais de Logan, Naiane Bonane e seu marido, um cidadão tcheco, não imaginavam que seriam submetidos a um longo e burocrático processo para conseguir a cidadania do pequeno. Ela conta que o menino teve sua consanguinidade testada através de um teste de DNA, feito somente no país europeu. A Marie Claire, a brasileira detalha os desafios que a família tem enfrentado para que o filho seja reconhecido oficialmente como tcheco
Por Lívia Maria, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)
Em 2023, Naiane Bonane realizou o sonho do intercâmbio. A mineira de Belo Horizonte (MG) escolheu Londres, na Inglaterra, para aprimorar seu inglês e conhecer uma nova cultura: “Eu trabalhava de forma remota no marketing de redes sociais, então decidi estender meu intercâmbio de um mês até que eu ficasse fluente”, conta ela, hoje com 33 anos e influenciadora.
Solteira na ocasião, Naiane entrou em um aplicativo de encontros e conheceu Martin, um profissional de tecnologia da República Tcheca e que também era imigrante. No primeiro encontro, nem passava pela cabeça da brasileira que o rapaz seria seu futuro marido.
“A gente não deu muito certo de início pela questão cultural. Brasileiros são acalorados, enquanto europeu são mais fechados. Por isso, segui focada no meu intercâmbio, fazendo outras viagens pela Europa até a hora de voltar para o Brasil. Quando me despedi dele, senti que ele estava diferente, bem mais carinhoso e eu fiquei toda derretida. Passamos meus últimos dias na Inglaterra juntos e voltei. Três meses depois, ele foi me ver e decidimos ter um relacionamento à distância.”
Em 2024, Naiane descobriu que estava grávida e decidiu que teria seu primeiro filho, Logan, no Brasil, para ficar perto da família e ter uma rede de apoio, durante a gestação e no pós-parto. Sem emprego fixo, ela decidiu que voltaria para a Inglaterra assim que conseguisse, pois Martin tinha uma vida mais estável. Depois do nascimento do bebê, os dois se casaram em uma cerimônia à distância, onde o pai da brasileira foi o procurador de Martin.
“Eu me casei por videochamada no cartório. Brinco que eu me casei com o meu pai [risos]. Depois da cerimônia, ficamos mais quatro meses sem nos ver. Martin já tinha o direito de morar aqui por seu europeu, mas eu precisava esperar meu ‘visto de esposa’ ficar pronto”, conta a brasileira.
Quando retornou à Inglaterra, Naiane e Martin começaram a viver na parte sul de Londres, onde hoje criam o filho em diálogo com duas culturas distintas. Ela também deu entrada no processo do reconhecimento de Logan como um cidadão tcheco.
Foi esse processo que viralizou nas redes sociais, já que são muitas etapas. O que mais chamou a atenção foi a necessidade de uma prova da consanguinidade do pai, cidadão tcheco, e o filho, nascido no Brasil.
Bebê de brasileira é obrigado a fazer teste de DNA para comprovar paternidade
“Fomos pegos de surpresa”
Segundo o Consulado Geral da República Tcheca em São Paulo, estrangeiros só podem obter a cidadania tcheca desde que se naturalizem, processo que pode acontecer após cinco anos de residência no país, ou quando o indivíduo consiga provar seu laço de consanguinidade com pai ou avós tchecos. Em outros países europeus, a ascendência pode ser provada por documentos, mas no país de origem de Martin, é preciso apresentar um exame de DNA feito na República Tcheca por um laboratório autorizado pelo governo.
“Fizemos uma entrevista na embaixada tcheca do Reino Unido. Lá, fomos pegos de surpresa quando nos disseram que nosso filho teria que passar por um exame de DNA, na República Tcheca, que comprovasse a paternidade do Martin. Aproveitamos que iríamos no Natal e realizamos o teste.”
A brasileira explica que o motivo do DNA ainda não é muito claro em sua cabeça: “Não entendi a necessidade. O nome do Martin está na certidão do Logan. Por alto, li que a medida é para evitar fraudes e casos de tráfico infantil. Fico pensando como seria se ele fosse adotado, mas como não era o nosso caso, eles não quiseram me responder. Basicamente me disseram: ‘não te interessa’ [risos]”.
Para que o exame fosse feito, através da saliva, Naiane e Martin precisaram desembolsar 500 libras, cerca de R$ 3,5 mil. Outro fato que pegou a brasileira de surpresa foi que ela também foi submetida ao teste de compatibilidade. “Logan é a cara do pai dele, então quando postamos o vídeo, as pessoas brincaram dizendo que a certeza que precisavam ter era de que eu era mãe dele”.
Mesmo com a consanguinidade comprovada, os pais ainda terão que esperar para que a cidadania do filho esteja em mãos. Naiane explica que o processo é bastante burocrático e ainda requer análise de toda a documentação, como a certidão de casamento dela e a de nascimento do filho. “Os documentos que levamos precisam estar em tcheco. Como não existe um tradutor juramentado no Brasil, é preciso que os documentos sejam traduzidos em inglês e depois, em tcheco. O teste de DNA já foi entregue, mas acho que ainda teremos que passar por mais alguns processos.”
Como imigrantes, os pais entendem que o filho precisa de passaportes que o beneficiem, caso decida no futuro sair da Inglaterra, por isso, não mediram esforços para que ele seja reconhecido não somente como cidadão tcheco, mas como cidadão da união europeia. “A gente entende que se quisermos mudar para outro país, por exemplo, tudo fica mais fácil do que sendo só brasileiro.”









