Atacada por usar minissaia, reitora da UFRGS transforma ataques em trabalho: 'Continuo fazendo física, que é o que eu sou'
Em entrevista a Marie Claire, a física Marcia Barbosa fala sobre sua trajetória, o ativismo e como pretende enfrentar a misoginia: ‘Homens se sentem no direito de me explicar a minha própria pesquisa’
Uma mulher de minissaia incomoda muita gente. Uma cientista reconhecida internacionalmente usando minissaia incomoda muito mais. A física Marcia Barbosa, 66 anos, está acostumada a desafiar expectativas sobre como deve se comportar, especialmente na sua área de atuação.
Única mulher entre os homens da sua turma da faculdade, hoje é professora titular do Instituto de Física e reitora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Marcia é também a única brasileira eleita pela ONU (Organização das Nações Unidas) uma das cientistas que mais impactam o mundo, em reconhecimento às suas pesquisas sobre anomalias da água e à sua atuação na defesa das mulheres na ciência. O reconhecimento veio em 2020.
Agora, viralizou na internet após aparecer em um vídeo convidando os alunos a acompanharem os resultados do vestibular. As roupas coloridas – com a minissaia que se tornou sua marca – e o tom animado foram suficientes para desencadear uma avalanche de insultos machistas que desqualificavam sua trajetória profissional.
Depois da repercussão, Marcia iniciou uma pesquisa para investigar o ódio contra mulheres nas redes sociais, especialmente quando direcionado a cientistas. Em entrevista a Marie Claire, ela afirma que não pretende recuar em seu trabalho por mais diversidade e inclusão na ciência.
“Nós, mulheres, especialmente mulheres negras e do Sul Global, vamos construir a saída para esse mundo”, afirma.
“Já passei por tudo. Tenho uma carreira que vai continuar igual, não importa se as pessoas gostam ou não de mim, ou se me xingam nas redes sociais. Eu continuo fazendo a minha física, que é o que eu sou.”
Leia, abaixo, trechos da entrevista.
A senhora sempre teve uma postura independente na sua carreira. Quando percebeu que não seguiria o caminho esperado na academia?
Eu já ia a conferências e publicava artigos internacionais, então, tinha como sobreviver nesse ambiente não tão acolhedor, no sentido de que eu não estava fazendo o que esperavam que eu fizesse. Eu disse: "Vou ser a minha liderança. Vou estudar aquilo que eu quiser estudar. Vou fazer o projeto que eu quiser. Vou ter meus alunos e meu grupo de pesquisa". E consegui crescer, porque eu tinha esse colchão internacional para me sustentar. E dizia para os meus alunos: "Eu não tenho o direito de ser medíocre”.
Em que momento a pauta de mulheres na ciência passou a fazer parte central da sua atuação?
Já como docente, eu sempre me mobilizei por mais dinheiro para a ciência. Em 2000, a União Internacional de Físicos resolveu estudar por que tem pouca mulher na física. E eu acho que, meio que para se ver livre de mim, pois sempre incomodei muito a sociedade de física, o presidente da época me indicou para esse trabalho. E aí, em 2002, organizamos a primeira conferência internacional de mulheres na física, na sede da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), com 75 países representados. Eu nunca fui a uma conferência de física que tivesse essa amplitude. Isso começou movimentos no mundo inteiro. Foi tão mobilizador que a Sociedade Americana de Ciência me deu uma medalha de serviços humanitários por isso. Em paralelo, eu continuava a minha pesquisa em física. As duas frentes tinham que ser muito boas para uma validar a outra.
A senhora é uma física reconhecida internacionalmente, mas passou a ser alvo de críticas após o vídeo que viralizou. Como analisa esse episódio?
É como se ser homem desse a eles o direito de questionar o outro. E não é só sobre a minissaia, não é apenas a objetificação do corpo. É mais profundo.
Em uma palestra que dei, havia comentários sobre a minha roupa, a minha idade, a minha aparência, não sobre o conteúdo. E isso não acontece só comigo, acontece com todas as mulheres. Isso é misoginia: querem tirar a mulher de um lugar de poder.
A senhora decidiu transformar a reação das pessoas em pesquisa. O que pretende investigar agora?
Eu também sou física computacional [área que combina física, matemática aplicada e ciência da computação]. Com uma aluna estou coletando material, e vamos analisar os comentários dirigidos a mim. Além disso, pretendemos entrevistar mulheres divulgadoras científicas para entender o que acontece com elas e como lidam com isso. Precisamos entender duas coisas: o mecanismo das falas de ódio e como são construídas – e temos a hipótese de que vêm de grandes comunicadores de direita que repetem frases e as espalham. Palavras como “ridícula”, “esquisita” e “velha” são chaves. Mas também precisamos entender a resistência, falando com pessoas que continuaram na rede. Como é que elas sobrevivem? Porque aí a gente pode construir uma metodologia. É um trabalho longo, é pesquisa científica, leva tempo.
Como foi conciliar, ao longo da carreira, pesquisa em física, ativismo e gestão acadêmica?
Não é que eu entrei na gestão e parei. Era gestão, física, questões de mulheres na ciência, tudo ao mesmo tempo, que é o que eu gosto. E, obviamente, a minha vida foi focada e dedicada à academia.
As pessoas achavam engraçado: eu sou uma física teórica e ando sempre de minissaia. Mas acabaram absorvendo isso. O fato de gesticular e conseguir me comunicar, apesar de algumas pessoas acharem ruim, faz parte de quem eu sou desde sempre.
A senhora fala muito sobre comunicação. De que forma o seu estilo impactou sua trajetória?
Algumas pessoas acharam que, ao me tornar reitora, eu mudaria completamente. Primeiro foi a grande mídia, os jornais, com uma expectativa fantasiosa, porque não me conheciam. Então, quando aparece essa reitora, eles ficam confusos. E eu gosto de me comunicar pelas redes sociais, porque é onde os estudantes estão, é onde a sociedade está. Na minha posse, eu quis responder a um fato horrível que aconteceu anos atrás. Na ocasião, uma escola de samba quis alugar o salão de atos para um evento, e a gestão da época não deixou, dizendo que escola de samba não era algo sério. Então, na minha posse, o show foi um coral e uma escola de samba, para promover diversidade. O jornal local nem falou do coral, mas ficou escandalizado com a escola de samba.
Que tipo de mensagem a senhora pretende deixar como legado para as mulheres na ciência?
MNão sofra sozinha, vamos nos unir. Vamos lutar juntas, porque mesmo no mercado de trabalho, mesmo no começo da carreira, se todas se posicionarem, a gente muda essa lógica. Tem que ser coletivo, não pode ser uma luta isolada. E eu vejo que as mulheres, especialmente, estão sensíveis a isso, dispostas a se unir.









