Retratos
Por
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

"Cresci com raiva de Deus porque fui abusada aos 8 anos.” “Tentaram me convencer que a culpa era minha.” “Minha filha chamou a polícia e a igreja me expulsou para evitar escândalo." Esses são só alguns dos testemunhos que mulheres evangélicas postaram nas redes sociais após a viralização do vídeo da pastora Helena Raquel, em que critica veementemente a omissão de líderes religiosos diante de casos de violência sexual e doméstica e pedofilia. “Pare de orar por ele hoje e comece a orar por você”, é uma das frases mais emblemáticas do sermão que fez no último Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora, em Camboriú (SC). O evento de 10 dias reuniu 200 mil pessoas — entre elas, lideranças evangélicas influentes do país.

No momento de sua pregação, além do auditório cheio, 50 mil pessoas assistiam em tempo real pela internet. Só o trecho publicado no perfil soma 17 milhões de visualizações, mais de 41 mil comentários e 247 mil compartilhamentos. "Sabia que teriam líderes me assistindo. Quis dizer a eles: 'Pelo amor de Deus, não repitam esses erros’. Outras pessoas poderiam ter dito também, mas Deus me oportunizou a falar com franqueza. Não tive medo”, conta em entrevista por vídeo para Marie Claire.

“Foi uma palavra de despertamento e encorajamento a pessoas que estão no poder, que têm comportamentos negativos e ruins. Posso não citar os nomes, mas tenho certeza de que acontece a partir dos depoimentos que já ouvi. Temos pessoas no governo que jamais poderiam estar ocupando o lugar que ocupam."

O resultado disso ultrapassou a internet. Raquel conseguiu alcançar mulheres de diversas bolhas nas redes sociais e fez estourar um movimento de mulheres evangélicas que se sentiram encorajadas a compartilhar suas histórias, algumas pela primeira vez. Um estudo de 2025 conduzido pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e pelo Instituto Datafolha aponta que 42,7% das mulheres que se identificam como evangélicas sofreram violência ao longo da vida. Isabella Matosinhos, pesquisadora do FBSP, apontou que mulheres são desestimuladas a fazer denúncias e a romper a relação para não comprometer a "sacralidade do matrimônio". Também, diz, tendem a ser encorajadas a resignar e orar pela mudança de comportamento do agressor.

Helena Raquel sabe disso tudo. Por mais que suas palavras sejam vistas como corajosas, para ela foram um direcionamento de Deus. “Mais que coragem, foi um ato de obediência”, diz. “Quis falar com todos os pingos nos is, de forma veemente e sem rodeios. A violência contra a mulher e a pedofilia são questões gravíssimas que me incomodam, me angustiam e me fazem chorar. Não dava para falar disso com uma voz tranquilinha”, conta.

O perfil da pastora tornou-se um espaço seguro para quebrar o silêncio, com muitas mulheres afirmando terem “esperado uma vida inteira” por alguém como ela. “Foram 50 anos de espera. Pensei em todas as minhas amigas e conhecidas que sofreram abusos e foram silenciadas dentro das igrejas”, diz uma mulher. “Você é resultado das minhas orações”, diz outra. De uma semana para outra, se viu em meio a vários pedidos de entrevista e recebeu enxurradas de mensagens diretas de pessoas contando seus testemunhos; sem desmarcar compromissos como conferencista em vários cantos do país. “Além disso tudo, sou mãe, esposa e líder”, diz. “Se eu soubesse que Deus me convocaria para isso dessa forma, teria deixado minha agenda [desta semana] fechada”, ri.

“Não é fácil romper com anos de opressão, mas há vida após a denúncia”

Nascida no Rio de Janeiro, Helena Raquel cresceu dentro da igreja evangélica. Ela é casada com o pastor Eleomar Dionel há mais de 20 anos e, com ele, lidera a Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP) em seu estado. Tem 13 livros publicados, é cantora gospel e fundou o projeto Pastoras do Brasil, que incentiva a formação e ascensão de mulheres pregadoras em igrejas evangélicas. Um de seus livros, Mulheres da Bíblia e Eleitas: a legitimidade e o valor do ministério feminino, em que desmistifica interpretações restritivas e valoriza o papel da mulher, partindo do comissionamento de Maria Madalena. No Instagram, soma 1,8 milhão de seguidores.

Enquanto construía uma relação próxima a Deus foi, aos poucos, percebendo a forma como se usa a Bíblia e o chamado divino para cometer violências. Lembra-se, por exemplo, do primeiro caso de violência sexual que viu acontecer. Uma menina jovem tinha passado por uma reunião privada com seu líder em um ambiente fechado (algo que não é aceito hoje, Raquel explica). Ele, por sua vez, tocou em assuntos de intimidade sexual como se buscasse ensiná-la. Isso ultrapassou limites e trouxe a ela exposições e trauma. A partir daí, vi que a menina seguiu a vida sem que nunca mais as pessoas ou ela dissessem qualquer coisa sobre o acontecido. Nós todos estamos suportando esse prejuízo."

Também se emocionou ao narrar as histórias que as vítimas confiaram nela ao longo dos anos. Como um homem que levou uma surra do pai, que servia num campo missionário, por ter sido abusado. "Era como se o filho tivesse pecado em relação à sua própria sexualidade. Quem disse para esse pai fazer isso? Certamente não há orientação alguma sobre isso na Bíblia. Em momento nenhum se diz para expor o sofredor para proteger o agressor.” Às vezes o fardo é pesado demais, mas ela se ancora em duas frentes: em Deus — "para não sucumbir" — e com terapia, que faz há 12 anos e a tornou "mais sensível" ao longo dos anos a compreender os impactos do silêncio.

Faz mais de oito anos que Helena Raquel passou a marcar presença nas redes sociais, e quem a segue há mais tempo sabe que o mote “Denuncie” não é novo. “Não vamos resolver este problema se não trouxermos à luz as histórias de abuso com medo dos escândalos que isso poderia gerar.”

"Por que não queremos criar escândalos se essa situação é real? As pessoas se sentem na obrigação de proteger a própria comunidade e, por isso, não falam. Quando, na verdade, a comunidade não pode ser acusada pelo erro de uma pessoa. Ao abordar esse erro, existe uma correção e adota-se uma postura de não concordar com o que aconteceu. Em vez de escandalizar, estaríamos dando um bom testemunho público daquilo que nós acreditamos."

Poucos dias antes de conceder esta entrevista, Helena Raquel postou em seu Instagram que “a igreja sempre foi lugar de socorro, não de silêncio”, e pauta sua trajetória sobre a ótica da responsabilidade social. Mas enxerga que, nos últimos anos, as religiões vêm sendo sequestradas por “infiltrados” — por mais que eles sejam minoria, na visão dela. “Alguns chegam com um comportamento inclinado à iniquidade, mas são transformados. Outros, psicopatas, se mostram interessados pela doutrina e em aprender as lições, mas podem causar danos."

Raquel vê ainda uma terceira classe de infiltrados: “São pessoas escondidas no seio da igreja que acreditam que, a partir dos seus desejos pessoais, podem manipular decisões a seu próprio favor em detrimento do rebanho. Esses não aceitam o confronto.”

Quanto mais silêncio os líderes fazem, mais sufocadas as vítimas ficam — inclusive podendo afastá-las da religião. Além do mais, pode corroborar para o entendimento de que um homem pode ser curado à base de muita oração, ou mesmo fazê-las continuar buscando amor num lugar que, na realidade, já oferece perigo.

“Lembro de uma senhora que tinha sido agredida a pauladas pelo marido e disse às mulheres para orarem por ele porque ela não queria perdê-lo”, lamenta. “Por isso é que eu digo: ore por você. Não é fácil romper com anos de opressão com alguém que te domina e te humilha. Mas é preciso se levantar e acreditar que há vida após a denúncia.”

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