Saúde

Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo

A maioria das mulheres sente algum grau de cólica durante a menstruação. Trata-se de um dos sintomas mais comuns associados a essa época do mês. No entanto, quando a dor afeta a qualidade de vida e atrapalha os afazeres cotidianos da pessoa, é sinal de alerta para algumas doenças.

Para compreender a causa da cólica (dismenorreia, no nome médico), é preciso saber um pouco sobre o ciclo menstrual. O útero é um músculo chamado miométrio e tem uma cavidade endometrial, que é ocupada pelo feto em uma gestação. Como qualquer músculo (pense no seu bíceps), ele tem capacidade de se contrair e relaxar.

Todo mês, um dos ovários da mulher libera um óvulo para ser fecundado — isso se chama ovulação. O organismo causa mudanças no endométrio, a camada que reveste o útero internamente, para receber um embrião. Se o óvulo não for fertilizado, o endométrio se desprende pela vagina. Este é um período menstrual.

A cólica é causada pela contração involuntária do útero para expelir o sangue e o endométrio. A força pode ser mais ou menos intensa a depender da ação da prostaglandina, substância química que atua em vasodilatação e vasoconstrição.

Quais sintomas estão associados à cólica menstrual?

A dismenorreia causa incômodo no baixo ventre, mas não só isso. Como os músculos e os órgãos do corpo são interligados, uma dor pélvica pode ocasionar um desconforto na cabeça, nas costas e na cervical.

Para algumas pessoas, a cólica aparece um ou dois dias antes da menstruação. Porém, a maioria sente o incômodo no primeiro e segundo dia de sangramento.

Outros sintomas associados à dismenorreia são distensão abdominal e alteração do padrão evacuatório — o intestino tende a ficar mais solto. A dor causa também alterações emocionais e no sono.

Quais são suas causas mais frequentes?

Existem dois tipos de dismenorreia: a primária, causada pela contração normal do útero, e a secundária, associada a doenças. A maior diferença entre as duas é a intensidade da dor.

Algum grau de cólica menstrual toda mulher sente, nem que seja discreto incômodo. No entanto, se a dor afeta a qualidade de vida e impacta a produtividade da pessoa, é preciso investigar patologistas que causam cólicas exuberantes
— Patrick Bellelis, ginecologista colaborador do setor de endometriose do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo

A maior causadora de dores incapacitantes é a endometriose, doença que atinge de 10 a 15% das mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que 7 a 8 milhões de brasileiras tenham a enfermidade, muitas sem diagnóstico.

Bellelis atenta ao fato de que a prevalência da endometriose se compara à do diabetes. No entanto, a moléstia feminina é muito menos conhecida do que a síndrome metabólica. Algumas ações visam conscientizar a população leiga sobre a existência dessa doença que, apesar de tão prevalente e impactante, é pouco falada. Entre elas estão o evento VivEndo, que neste ano foi realizado online em março, e documentários internacionais, como o Endo What is Below the Belt, produzido por Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos Estados Unidos.

Outra patologia que causa cólicas é a adenomiose, com poucos estudos sobre sua prevalência. Uma terceira causa são tumores benignos como os miomas uterinos, que atingem de 70 a 90% das mulheres, de acordo com o ginecologista.

Como tratar a cólica menstrual?

Analgésicos e anti-inflamatórios — sob prescrição médica —, além de bolsas de água quente costumam ser suficientes para os casos de dismenorreia primária.

Bellelis ressalta ainda a importância da atividade física como um analgésico natural, graças às endorfinas liberadas durante o exercício.

“Um corpo equilibrado responde melhor a tudo. Com alimentação, sono e controle de estresse adequados, o risco de cólicas exuberantes é menor”, afirma.

Se a dor for causada por miomas e adenomiose, o tratamento envolve uso de contraceptivos hormonais ou cirurgias. A operação pode remover desde o tumor benigno e o pedaço da adenomiose até mesmo o útero inteiro. O médico vai levar em consideração a extensão da doença e o fato de a paciente desejar ter filhos, antes de sugerir a opção radical.

Já a endometriose, uma enfermidade que se instala fora do útero, nunca deve ser tratada com a retirada do órgão, informa Bellelis. Seu tratamento é clínico, por meio de contraceptivos hormonais, ou cirúrgico, se estiver comprometendo a função de algum órgão.

Existem alimentos que aliviam ou pioram a dor?

De acordo com Bellelis, algumas pesquisas mostram que o consumo de fontes ricas em gorduras ômega 3 e 6, como peixes e castanhas, amenizam dores. Na contramão, produtos com glúten, derivados de lactose e carne vermelha podem piorar o sintoma.

O médico, porém, é contra riscar esses alimentos da dieta. “A gente não deve pensar em ‘sempre’ ou ‘nunca’, mas sim no equilíbrio. Se você consumir eventualmente glúten, lactose e carne vermelha, não tem problema”, afirma.

Estudos preliminares da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam ainda que tratamentos com óleo de copaíba e unha-de-gato (Uncaria tomentosa) ajudam a controlar a dor. Trata-se de evidências iniciais que aguardam a confirmação de testes duplo-cegos e randomizados.

É verdade que adolescentes sentem mais cólica menstrual?

O ciclo menstrual depende da comunicação entre três glândulas: ovário, hipotálamo e hipófise, os dois últimos localizados no cérebro.

Durante a adolescência, esse eixo ainda está imaturo, assim como outras partes do corpo, e por isso o ciclo menstrual costuma ser irregular nessa faixa etária. Episódios de dor pélvica podem ser mais comuns, porque a menina sangra com maior frequência.

“Existe muito preconceito em relação às adolescentes, como se elas faltassem na escola porque são preguiçosas”, critica o ginecologista. “É preciso prestar atenção ao comportamento da menina. Se ela está deixando de ir às aulas, mas não perde um evento com as amigas, pode ser um sinal de imaturidade.”

“No entanto, se ela abre mão de atividades que gosta de fazer, como o balé, a natação, a aula de música e as festas, tem que levantar a antena. Não é normal uma adolescente não render adequadamente na vida acadêmica e emocional por causa de um desconforto. A dor é um sinal do organismo de que algo está alterado. A gente não pode jamais relativizar e menosprezar esse sintoma.”

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