Saúde

Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo

Cada mulher é diferente e essas diferenças incluem o ciclo menstrual. Algumas sangram com o intervalo de um relógio suíço. Outras têm períodos imprevisíveis. Embora alguma variação entre os meses seja considerada normal, a menstruação irregular pode ser sinal de um problema e merece ser investigada.

De acordo com diretrizes da Federação Internacional de Ginecologia Obstetrícia, revisadas em 2018, o ciclo menstrual é considerado normal se variar entre 24 e 38 dias. O intervalo entre os sangramentos pode se alterar em até nove dias de um mês para o outro, ainda dentro do padrão fisiológico.

A menstruação dura, em média, de três a sete dias. Em geral, começa e termina com um pequeno sangramento conhecido como borra de café, pela tonalidade marrom, e no meio tem cor vermelho vivo.

O fluxo é considerado intenso quando dura mais de sete dias. Esse padrão é conhecido no jargão médico como hipermenorreia e afeta uma em cada cinco mulheres, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos.

“A menstruação irregular afeta a qualidade de vida porque pode estar associada a dor, a infertilidade e a um sangramento excessivo que atrapalhava as atividades cotidianas da pessoa”, diz o ginecologista Thiers Soares, do setor de endoscopia ginecológica do Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ.

Causas e fatores de risco

Diversas causas interferem no ritmo e na intensidade do sangramento. A ginecologista e obstetra Marise Samama, fundadora e presidente da Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil (AMCR) cita algumas:

- Imaturidade do eixo hormonal, característico da adolescência;
- Disfunções da tireoide;
- Obesidade;
- Anorexia e bulimia;
- Alteração dos níveis de prolactina;
- Resistência à insulina;
- Stress;
- Excesso de atividade física (por exemplo, em atletas);
- Síndrome dos ovários policísticos;
- Tumores de adrenal, hipotálamo, hipófise ou ovário;
- Perimenopausa;
- Miomas uterinos;
- Adenomiose;
- Pólipos;
- Distúrbios de coagulação.

Sintomas associados a irregularidade menstrual

A depender da causa, os sintomas vão além da irregularidade menstrual em si. No hipotireoidismo, por exemplo, a pessoa pode ter cansaço, sonolência, queda de cabelo, unhas fracas, ganho de peso.

De acordo com Marise Samama, tumores da hipófise podem desencadear vazamento de leite pelos mamilos, dor de cabeça e alteração da visão, enquanto os da adrenal levam a aumento de pelos, alteração de pressão arterial e inchaço.

A síndrome dos ovários policísticos pode estar associada à obesidade, colesterol alto e alterações do metabolismo do açúcar. A condição favorece o diabetes, doenças cardiovasculares, trombose e câncer de endométrio.

Diagnóstico do sangramento anormal

Quando a paciente chega no consultório médico com uma queixa de menstruação irregular, o profissional vai levar em conta o intervalo do sangramento — para mais ou para menos —, o biotipo, o estilo de vida e o histórico de saúde da pessoa.

Além da anamnese, o médico pode pedir exames complementares para fechar o diagnóstico.

Segundo Thiers Soares, os testes laboratoriais são importantes para avaliar alterações nos hormônios tireoidianos e sexuais, como TSH, T3, T4, prolactina, estrogênio, progesterona, LH e FSH.

Ele afirma que, para pacientes com síndrome dos ovários policísticos, a lista pode incluir um exame chamado globulina ligadora de hormônios sexuais, além de glicose e resistência à insulina.

Entre os eventuais exames de imagem estão a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética da pelve.

Tratamento da menstruação irregular

“O tratamento será específico para cada problema”, diz Marise Samama.

Ela cita alguns exemplos: “Se for na tireoide, corrige-se a alteração hormonal. Se for na prolactina, corrige-se a prolactina. Dependendo do tumor, indica-se cirurgia. Para síndrome dos ovários policísticos sem desejo de gravidez, pode-se usar um anticoncepcional. Caso a pessoa queira engravidar, a ovulação pode ser estimulada pelo especialista em reprodução humana”.

Quando não há causa específica, o anticoncepcional ajuda a regular o ciclo. O DIU hormonal também pode cessar a menstruação em 70% dos casos, aponta a médica.

Segundo Thiers Soares, em muitos casos as mudanças de comportamento são suficientes para amenizar a queixa.

“Alimentação boa, prática de exercício sem exagero e peso adequado melhoram os sintomas de muitas pacientes”, aponta ele. “O ideal mesmo é a pessoa se antecipar ao problema. Ter hábitos saudáveis, evitar fumar e consumir álcool com moderação diminui o risco de sangramento irregular.”

O médico avisa que, caso a menstruação se desregule pontualmente, não há motivo para pânico. “Mas se isso se repete por dois ou três ciclos, ou seja, a recomendação é procurar um médico e investigar a causa da alteração”.

“Qualquer paciente que fique mais de 90 dias sem menstruar e não esteja grávida deve buscar assistência, porque não é normal passar tanto tempo sem o sangramento.”

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