Saúde

Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo

A maioria das mulheres passa boa parte da vida tentando evitar a gestação. Em algum momento, boa parte delas vai fazer o movimento contrário e tentar engravidar. No entanto, para 10 a 20% dos casais com desejo de procriação, não será fácil concretizar o sonho de ter bebê.

Quando a gravidez não vem com facilidade, normalmente é a mulher que corre para o consultório do ginecologista em busca de um diagnóstico.

A distribuição da infertilidade, porém, é democrática: 30% para o homem, 30% para a mulher, de 20% a 30% de razões mistas e o restante sem causas aparentes.

De acordo com o ginecologista e obstetra Pedro Augusto Araújo Monteleone, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Humana da Febrasgo, as cinco causas mais comuns de infertilidade em mulheres são:

Ovulatórias

A menstruação vem quando quer. Um mês sim, dois não. Depois desce de novo e passa mais uns meses sem dar a cara. Se esse é o seu caso, procure ajuda médica.

Se a gente falar no fator isolado de infertilidade mais frequente, provavelmente é a síndrome dos ovários policísticos. Essa condição atrapalha a frequência da ovulação, então o ciclo menstrual fica irregular”, explica o ginecologista.

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) afeta o equilíbrio hormonal, causando a formação de pequenos cistos nos ovários. Sem tratamento, essa alteração pode afetar o ciclo menstrual e causar infertilidade, câncer de endométrio, diabetes e doenças cardiovasculares.

Para o diagnóstico da SOP, uma pessoa precisa ter duas de três características:

- Menstruação irregular – Se ela passa mais de 38 dias ou mais sem menstruar, isso significa que os ovários não estão liberando óvulos regularmente;

- Aumento de androgênios – Altos níveis de hormônios masculinos, principalmente a testosterona, podem causar sinais físicos, como acne e excesso de pelos na face ou no corpo. A alteração pode ser captada também em exames de sangue;

- Ovários policísticos – Um ultrassom mostra que o órgão tem tamanho aumentado e muitos folículos.

“O principal tratamento da síndrome dos ovários policísticos é o controle do peso corporal”, afirma a ginecologista Cristina Laguna Benetti Pinto, presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Febrasgo.

A ginecologista afirma que o sobrepeso e a obesidade pioram todas as manifestações da SOP. Por isso, o médico precisa orientar a paciente a ter uma boa alimentação e praticar atividade física, já a partir da adolescência. “No final da puberdade é muito mais fácil a jovem ganhar peso”, diz ela.

Além dos hábitos saudáveis, há algumas frentes de tratamento, a começar pelo uso de hormônios para regularizar o ciclo menstrual.

Uterinas

Fazem parte desse grupo as pessoas com miomas uterinos, pólipos endometriais — verrugas na cavidade endometrial — e adenomiose, uma espécie de endometriose na parede do útero.

Os pólipos endometriais podem ser removidos por meio de uma operação chamada videohisteroscopia, que introduz um cateter equipado com uma câmera na cavidade uterina. “É uma operação bastante tranquila de ser feita”, garante Monteleone.

Cirurgias também são recomendadas para pessoas com miomas grandes. “É melhor remover o mioma enquanto ela não está pensando em uma gestação. Assim, no dia que ela quiser ter um bebê, isso não será um problema”, afirma o médico.

Já quadros leves de adenomiose não costumam impedir a gravidez espontaneamente, na maioria das vezes. Para casos graves, pode ser necessário recorrer à fertilização in vitro (FIV).

Pélvicas

O principal fator pélvico de infertilidade é a endometriose. “A doença desencadeia um processo inflamatório que pode causar aderências na região abdominal, mudando toda a arquitetura pélvica e dificultando a gravidez”, diz o ginecologista.

Os tratamentos para endometriose reúnem:

- Medicamentos para alívio da dor;

- Terapia hormonal para reduzir o crescimento do tecido endometrial;

- Cirurgia para remover implantes de tecido endometrial.

Os processos inflamatórios associados à infertilidade podem ocorrer também por infecções bacterianas, sendo as mais comuns clamídia e gonorreia.

Causada pela bactéria Chlamydia trachomatis, a clamídia é uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais comuns e pode afetar qualquer pessoa. Muitas vezes, ela é assintomática. Quando os sintomas estão presentes, eles incluem dor ao urinar e durante as relações sexuais, corrimento amarelado ou claro, dor abdominal e sangramento espontâneo ou durante o sexo.

Já a gonorreia, desencadeada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, pode afetar a uretra, colo do útero, reto, garganta e olhos. O quadro pode ser assintomático ou provocar incômodos como dor ao urinar, corrimento espesso, inflamação, dor pélvica em mulheres e dor testicular em homens.

As duas infecções são curadas com antibióticos.

Idade

As pessoas estão deixando para ter filhos cada vez mais tarde. Só que todas as mulheres nascem com uma quantidade determinada de óvulos e gastam a poupança ao longo da vida. Com o passar do tempo, tanto o número quanto a qualidade dos óvulos diminui, até acabar completamente.

“Uma mulher de 45 anos com um óvulo de boa qualidade tem o mesmo potencial de produzir uma gravidez do que uma de 35 com um óvulo bom”, aponta Monteleone. “Acontece que a frequência de óvulos de boa qualidade aos 45 anos é muito menor do que aos 35 anos.”

“O exemplo que eu dou para as minhas pacientes é assim: pensa num recipiente como um vaso cheio de bolas pretas e brancas. As bolas brancas são os óvulos capazes de reproduzir uma gravidez saudável. Após os 35 anos, vai diminuindo o número total de bolas e mudando a proporção. As bolas brancas ainda existem, mas são menos numerosas”, explica o ginecologista.

Hábitos de vida

Não existe uma dieta capaz de aumentar a chance de uma pessoa engravidar, exceto em dois casos.

O primeiro é se a pessoa praticamente não tiver gordura no corpo, como uma atleta de alta performance, que chega a parar de menstruar por causa da composição corporal. No outro extremo, mulheres com obesidade e sobrepeso também podem sofrer com irregularidades ovulatórias.

“Esses dois públicos precisam de uma alimentação específica”, diz o médico.

Outros fatores que influenciam a fertilidade, segundo Monteleone, são tabagismo e consumo pesado de álcool.

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