Olivia Rodrigo e a sinestesia: por que a cantora sempre usa o roxo e o que é a condição?
A música pode tocar nossas emoções, despertar memórias e nos transportar para universos sensoriais únicos. Para alguns artistas, como Olivia Rodrigo, a experiência musical é ainda mais intensa devido a uma condição neurológica conhecida como sinestesia. Em entrevista a Marie Claire, especialistas e sinestésicos explicam o que é o fenômeno
Por Juliana Picanço, Redação Marie Claire — São Paulo
Olivia Rodrigo esteve entre os assuntos mais comentados das redes sociais após o lançamento do single Vampire, terceira faixa do segundo álbum de estúdio da cantora, GUTS. Não só pelo fato da música trazer detalhes do seu último relacionamento e falar de angústias enfrentadas pela artista, a capa do novo projeto revelou que a jovem vai continuar com os tons de roxo, sua marca registrada.
A informação, no entanto, dividiu a opinião dos fãs, que afirmaram que Olivia não inovou na nova era. No entanto, a escolha da cor tem uma explicação: recentemente, a cantora revelou que tem sinestesia, um fenômeno perceptivo em que diferentes sentidos se cruzam, resultando em uma sobreposição incomum e espontânea das percepções sensoriais. Para aqueles que têm sinestesia, estímulos visuais, auditivos, táteis e até mesmo gustativos podem provocar uma resposta sensorial em mais de um sentido ao mesmo tempo.
Olivia já falou em algumas entrevistas sobre como a música está intrinsecamente ligada a cores vibrantes para ela, além de como essa associação sinestésica influencia sua criação artística. Por esse motivo, o roxo é muito presente em seus videoclipes, figurinos e identidade visual. Segundo a própria artista, esse tom é associado fortemente às emoções expressas em suas músicas, representando sentimentos de melancolia, paixão intensa e vulnerabilidade emocional.
"Quando ouço músicas, vejo cores. Muitas das músicas do Sour são roxas. 'Good 4 U' é um roxo azulado, 'Jealousy, Jealousy' é um vermelho brilhante e 'Deja Vu' é uma mistura de laranja, rosa e roxo claro”, disse a artista em um vídeo para a Vogue Americana.
“A sinestesia é um fenômeno neurológico no qual a estimulação de um sentido desencadeia uma experiência em outro sentido nas pessoas. Por exemplo, uma pessoa com sinestesia pode associar cores a números ou experimentar o gosto de palavras. É uma característica rara e que instiga a curiosidade de muitos cientistas”, explica a psicóloga especialista em neurociência do comportamento, Sabrina Amaral.
A especialista explica que apesar de várias teorias e pesquisas investigarem a base neural da sinestesia, ainda não existe um consenso sobre as áreas cerebrais envolvidas. “De maneira mais generalizada, estudos recentes sugerem que as pessoas com sinestesia possuem a capacidade de conectar áreas do cérebro, ao contrário de indivíduos sem essa condição”, complementa.
“Sabe quando você fecha os olhos e imagina a cor azul? Você consegue visualizar a cor, certo? Mesmo sem conseguir enxergá-la com os próprios olhos. É a mesma coisa que acontece quando ouço, por exemplo, um tom azul. Posso fechar os olhos quando estou ouvindo uma música, e simplesmente, tudo começa a se desenhar”, explica Ana Eulália, de 21 anos. Diagnosticada com sinestesia aos 14, a jovem chamou a atenção nas redes sociais ao falar sobre as suas percepções diferentes, especialmente quando escuta músicas.
“Quando estou desenhando músicas, tento exprimir o que estou enxergando. Não é tão simples, porque não existe só a questão da visão. Também tem a textura, um movimento tridimensional. Uma vez estava tão imersa em uma canção que comecei a sentir na pele. Não foi só uma sensação psicológica, foi física também. Cada instrumento tinha uma forma que batia em um determinado lugar”, complementa.
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Ana conta que descobriu que tinha uma percepção diferente dos outros ao comentar sobre como se sentia com um amigo. “Estava em uma festa e começou a tocar uma música da banda Twenty One Pilots. Sempre enxerguei uma certa parte dessa música como se fosse um algodão rosa, macio e muito quente. Comentei isso com o meu amigo, que não entendeu nada. Foi aí que pensei que talvez minha percepção não fosse universal.”
“Nunca tinha levado isso para a terapia, achava que era normal. É como se eu falasse: ‘Nossa, doutora, respiro todos os dias, será que é normal?’. Achava que era completamente comum”
Sabrina Amaral explica que a condição é considerada uma característica inata do cérebro e não é adquirida ao longo da vida. “A pessoa já nasce com essa percepção sensorial diferenciada. Existem raros relatos de pessoas que sofreram lesões cerebrais, como derrames, e desenvolveram alguns traços.” Além disso, mesmo que não exista nada conclusivo, a especialista conta que alguns estudos indicam a possibilidade da condição ser hereditária.
“Pesquisas já evidenciam a possibilidade de uma base genética, influenciada por múltiplos genes e sua interação com fatores ambientais. Além disso, a prevalência da sinestesia é significativamente maior em parentes de primeiro grau de indivíduos sinestésicos comparada a população em geral”, complementa.
A neurologista do Hospital Nove de Julho, Carolina Perniqueli, reforça, no entanto, que alguns cuidados precisam ser tomados. “É uma condição rara. Por isso, quando uma pessoa chega com uma queixa de misturas de sentidos, vou pensar em excluir alguma crise epiléptica ou algo desse tipo. É importante fazer o exame de imagem, eletroencefalogramas, etc. Não é comum que esses sintomas se iniciem em uma fase da vida. As pessoas já nascem com eles”, esclarece.
A psicóloga especialista em emoções, Luana Ganzert, conta que apesar da sinestesia não ser considerada uma condição em que o tratamento é necessário, uma vez que não é patológica e não traz prejuízos à qualidade de vida, uma parcela pequena de pessoas sinestésicas desenvolve distúrbios psicológicos e prejuízos nas atividades de vida diária.
“Não há como controlar ou evitar uma reação sinestésica, justamente por se tratar de uma reação imediata do cérebro. A sinestesia é apenas algo raro, e não anormal, então não há prejuízos significativos. Se estimular a condição favorecendo as atividades diárias, ela não será um problema na vida do sinestésico”, explica.
Sabrina Amaral acrescenta: “Se, porventura, surgir algum desconforto ou interferência em atividades diárias, é possível buscar apoio psicológico em abordagens como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), no sentido de ajudar a pessoa a compreender e lidar com suas experiências sinestésicas e possíveis desafios emocionais, mas nunca para ‘curar’ a sinestesia."
“Imagina que você trabalha em um lugar onde passa caminhão o tempo todo, mas que depois de um tempo, você conseguiu ignorar o barulho e não escuta mais, só quando presta atenção. É a mesma coisa. Aprendi a ignorar certas coisas, só que, às vezes, não dá”, conta Ana Eulália.
“Uma vez estava de mau humor, não consegui ignorar, e uma colega da minha sala não parava de falar. Ela tinha uma voz muito leitosa, doce e comecei a ficar enjoada. Tive que sair da sala, jogar uma água no rosto e parar de ouvir a voz por um tempinho”, complementa ela, que conta que após falar do assunto nas redes sociais, encontrou várias pessoas que também tinham percepções diferentes.
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“Existem mais de 61 tipos de sinestesia, de vários sentidos diferentes. Quando falei sobre isso nas redes sociais, muitas pessoas disseram: ‘Então isso que sinto tem nome, achei que fosse doida’, ou ‘pensei que todo mundo fosse assim'. Foi incrível, porque muitas pessoas interagiram e falaram de todos os tipos de percepções, gostos, cheiros, texturas", diz.
“Algumas pessoas passam a vida sem saber o que de fato tem. Outras, conseguiram descobrir a sinestesia. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais fácil será para usar a sinestesia ao seu favor. Importante também lembrar que a sinestesia não é uma doença e sim uma característica. Focar nas reações que podem trazer algum prejuízo ajudaria a minimizá-los”, finaliza Luana Ganzert.









