Saúde

Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo

Durante a gravidez, a editora de vídeo Luana Simões, de 26 anos, assistiu a vídeos no Youtube sobre como amamentar. Ciente dos benefícios do leite materno, ela queria que a filha, Loren Chaos, fosse alimentada exclusivamente no peito. Os desafios, no entanto, começaram já na maternidade e, no terceiro mês de vida da bebê, Luana desistiu do aleitamento.

A ciência já provou que o melhor alimento para um nenê é o leite materno. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o peito deve ser a única fonte alimentar até o sexto mês da criança.

O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) do Ministério da Saúde, revelou que 45,7% dos bebês brasileiros com menos de seis meses são alimentados somente com leite materno. O índice sobe para 60% entre os menores de quatro meses.

Expectativa x realidade

Para mães como Luana, a realidade pode ser diferente da expectativa da OMS. O perrengue começou na maternidade. “A neném não conseguia pegar no peito e o bico rachou. Eu fiquei com várias feridas. Toda vez que ela ia mamar, eu chorava de dor”, relembra ela, seis meses depois de dar à luz.

Com o bico do seio plano, Luana começou a usar um acessório de silicone para facilitar a pega da sucção. Mesmo assim, sentia dor.

O terceiro problema foi a necessidade de voltar ao trabalho cinco dias depois do parto. Por ser autônoma, a editora de vídeo não teve licença-maternidade. “Eu tinha feito uma cesárea e estava trabalhando sentada em cima dos pontos. Era uma mão no teclado do computador e a outra segurando a neném, torcendo para ela não soltar aquele bico de silicone”, conta.

O stress da mãe, somado à dificuldade de sucção da filha, fez com que a produção de leite de Luana caísse. Dois meses após dar à luz, o volume de leite da editora já era insuficiente para atender as necessidades da criança.

“Eu me senti muito culpada. Eu já estava me doando 100% para a maternidade e não tinha forças pra ir além”, lamenta Luana. "Os meus problemas são bem parecidos com os que a Viih Tube tem relatado, mas a minha condição não é a dela."

Além da pressão interna, Luana sofreu com o julgamento alheio. “Ouvi que eu não era mãe o suficiente e que estava de frescura. A amamentação é muito mais delicada do que a gente pensa. Acho que as pessoas precisam julgar menos, porque nem toda realidade é a das redes sociais”, diz.

Benefícios do aleitamento materno

Os benefícios do aleitamento materno estão bem documentados pela ciência. De acordo com o Ministério da Saúde, crianças amamentadas têm menos alergias, infecções, diarreia, otites e doenças respiratórias, além de menor probabilidade de desenvolver obesidade e diabetes tipo 2. Elas têm melhor desempenho em testes de inteligência e se transformam em adultos mais saudáveis e produtivos.

“O leite materno é a primeira vacina do bebê”, afirma a pediatra Rosangela Gomes dos Santos, presidente do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), referindo-se às imunoglobulinas que passam da mãe para filho e fortalecem a imunidade do descendente.

A pediatra destaca que as vantagens estendem-se à pessoa que dá o peito: redução no risco de cânceres de mama, ovário e útero.

Desafios para a amamentação

Alguns entraves dificultam a jornada da amamentação. Entre os principais, segundo a médica da Sociedade de Pediatria, estão:

- Falta de informação no pré-natal: Muitas mulheres não são adequadamente informadas sobre a importância do aleitamento ainda da gravidez, o que pode dificultar o início bem-sucedido da experiência.

- Práticas inadequadas no nascimento: A iniciativa Hospital Amigo da Criança é um selo de qualidade conferido pelo Ministério da Saúde aos hospitais que cumprem os 10 passos para o sucesso do aleitamento materno, instituídos pela Unicef.

Quando um bebê nasce numa instituição com esse certificado, ele tem contato com a pele com a mãe logo após o nascimento e é amamentado na primeira hora de vida, ainda na sala de parto, entre outras práticas. Acontece que nem todas as pessoas têm a oportunidade de parir nesses hospitais.

- Pega incorreta: A pega inadequada do bebê ao seio é uma das principais causas de dor e fissuras mamárias. “É fundamental que os hospitais tenham profissionais de saúde qualificados para orientar as mães”, aponta Rosangela Gomes dos Santos.

Segundo a médica, com as diretrizes corretas, bico plano ou invertido não deve ser um empecilho para a amamentação, bem como bebês com freio lingual, popularmente conhecido como língua presa: “A pessoa pode ter um pouco mais de dificuldade para amamentar, mas com orientação apropriada ela deve conseguir”.

Em caso de rachaduras no seio, a pediatra recomenda fazer aplicações a laser, passar o próprio leite no machucado e deixar a ferida secar antes de fechar a blusa. “Mas nenhuma dessas medidas vai funcionar se não corrigir a pega do bebê”, avisa.

O ideal é que a pessoa vá para casa com todas as questões esclarecidas e com a pega correta. Em caso de dúvidas, a pediatra recomenda buscar ajuda no banco de leite humano. O serviço é gratuito.

Volta ao trabalho: A falta de infraestrutura e de apoio nas empresas para as mães tirarem o leite e amamentarem seus bebês durante a jornada de trabalho pode levar ao desmame precoce. Isso para não falar das autônomas que, como Luana, nem sequer podem desfrutar da licença-maternidade.

A Semana Mundial de Aleitamento Materno, lançada pelo Ministério da Saúde na segunda-feira, destaca a importância de as empresas oferecerem espaços apropriados para que as mães possam ordenhar e armazenar o leite materno durante o período de trabalho.

“O aleitamento materno deve ser um compromisso de toda a sociedade”, afirma a médica.

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