‘Cheguei a largar a faculdade e o trabalho por causa da queda de cabelo’
A maquiadora Ana Moreira foi diagnosticada com alopecia areata, uma doença inflamatória que causa a perda parcial ou total dos fios
Por Dóris Marinho, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Enquanto a maioria das crianças ainda estava começando a se descobrir, a maquiadora Ana Moreira já enfrentava um desafio de gente grande: aos 11 anos de idade, ela foi diagnosticada com alopecia areata — uma doença inflamatória que causa a queda parcial ou total dos cabelos.
“Desde o diagnóstico, eu lido com o fato de não me encaixar em um padrão, que é bem simples: ter cabelos”, conta Ana, que hoje tem 33 anos. “Eu estava na fase da escola, quando tudo que a gente quer é ser aceito, e eu me sentia diferente, excluída. Isso me moldou uma pessoa cheia de inseguranças e medos”, recorda.
De fato, a doença pode impactar consideravelmente a autoestima e a qualidade de vida dos pacientes, principalmente, durante a infância. Existem diferentes tipos de alopecia; a areata, condição que afeta a maquiadora, é um dos mais comuns entre crianças e adolescentes.
“Esse tipo de alopecia é caracterizado por áreas de perda de cabelo não cicatricial, que variam de manchas ovais únicas a manchas múltiplas, que podem se tornar confluentes”, explica a clínica geral Monica Batista, especializada em dermatologia.
“Homens e mulheres são igualmente afetados e a doença pode ocorrer em qualquer fase da vida. Contudo, estima-se que 30% a 48% dos pacientes sejam afetados antes dos 20 anos de idade”, destaca a profissional.
Ana relata que, cerca de 5 anos após o início da doença, os fios pararam de cair e voltaram a crescer. Ela experimentou momentos de alívio e esperança, passando a se sentir mais confiante. Porém, próximo aos seus 21 anos, a condição deu as caras mais uma vez.
“Percebi que meus cabelos estavam começando a cair novamente. Decidi não me tratar e, com isso, fui me isolando. Chegou ao ponto de eu largar a faculdade e o trabalho e me mudar de estado em uma tentativa de não ter que lidar com os olhares de julgamento”, relata.
Importância de buscar um tratamento adequado
Rejeitar o tratamento é um erro relativamente comum entre as pessoas com alopecia. Por acreditarem que os sintomas da doença podem desaparecer sozinhos, muitos pacientes acabam atrasando — ou ignorando totalmente — a busca por ajuda médica.
Monica afirma que o tratamento da alopecia varia de acordo com a causa da doença, por isso, é fundamental ter a avaliação de um especialista: “Podemos indicar vários tratamentos, como o uso tópico e/ou oral de minoxidil, alguns lasers, microagulhamentos, por onde são injetadas substâncias capazes de estimular fatores de crescimento e, por último, o tratamento cirúrgico, que seria o implante capilar”.
No caso da alopecia areata, que é uma doença de origem autoimune, selecionar as terapias apropriadas pode ser um desafio. “Infelizmente, o tratamento pode induzir o crescimento dos fios de cabelo, mas não costuma alterar o curso da doença. São necessários estudos constantes para a melhoria do quadro”, ressalta a médica.
Muitas vezes, é preciso seguir uma lógica de tentativa e erro para encontrar o melhor caminho para o paciente. Para Ana, além do uso de medicamentos orais e procedimentos realizados em consultório, o acompanhamento psicológico e psiquiátrico fez diferença.
“Essa doença nos traz muitas questões de identidade, autoestima, ansiedade e depressão. É essencial aprender a lidar com isso para que o quadro não piore. Conviver com uma doença que não tem cura exige muita compreensão de quem somos para que a gente não se resuma à condição. Ela faz parte da nossa vida, mas não é nossa vida inteira”, aconselha.
Fazendo as pazes com a doença
Essa intensa batalha contra a queda de cabelo contribuiu para a formação de uma personalidade forte e resiliente. Ana logo percebeu que a doença seria uma companheira constante: “Eu aprendi a lidar com a alopecia dando a ela o tamanho que ela merece, já que não tem cura definitiva e é algo que vai me acompanhar para sempre”.
“Quando sinto que alguém está curioso sobre meu cabelo, já explico o que tenho e que uso peruca. Ainda brinco que posso ser loira em um dia e ruiva no outro, como em um passe de mágica. Percebi que a parte mais difícil é quebrar a primeira barreira. Geralmente, depois disso, eu volto a ser uma pessoa comum, que apenas tem um cabelo diferente”, desabafa a maquiadora.
Hoje, ela compartilha na internet a sua jornada com a doença, conectando e inspirando pessoas que enfrentam desafios semelhantes: “Resolvi expor meus sentimentos sobre ser uma portadora de alopecia porque sempre me senti muito sozinha nessa luta”.
“O mais difícil é tomar consciência de que o quadro de queda de cabelo pode se repetir durante toda a vida e que, mesmo que nos dediquemos aos tratamentos, podemos nunca mais ter nossos cabelos de volta. Por isso, precisamos entender que não podemos controlar tudo e que cada um sabe o tamanho da dor que sente”, acrescenta.









