Saúde

Por Alice Arnoldi, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo

A analista de legislação Camila Batista, de 32 anos, faz parte dos 7% de adultos que sofrem de dermatite atópica, segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Embora sua doença esteja controlada atualmente, Camila já passou por momentos bastante desafiadores.

“Nas crises, eu passo sete dias da semana me coçando, fazendo uma ferida em cima da outra. Durante a noite, é o período que mais me coço. Várias vezes eu não percebia e acordava com o lençol cheio de sangue”, conta Camila.

A dermatite atópica é uma doença crônica e hereditária, em que há um processo inflamatório constante da pele. A condição leva ao aparecimento de lesões avermelhadas em diferentes partes do corpo, que causam prurido e podem vir a descamar.

A causa exata da doença ainda é desconhecida, mas sabe-se que pessoas com dermatite atópica têm uma predisposição genética para a condição. Elas também têm mais chances de desenvolver a enfermidade quando há histórico familiar de atopias como rinite, bronquite e asma.

O alergista Evandro Alves do Prado, coordenador do Departamento Científico de Dermatite Atópica da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), explica que a doença pode ser leve, moderada ou grave, dependendo do nível de comprometimento da pele. Essa distinção é importante porque cada tipo exige um tratamento específico.

O que piora a dermatite atópica

Camila começou a apresentar sintomas da dermatite atópica ainda na primeira infância, só que os médicos da época diziam tratar-se de alergia cutânea. Logo, o tratamento prescrito era composto apenas de cremes manipulados para hidratar a derme.

Na adolescência, a doença ficou controlada, voltando à tona quando a analista de legislação tinha 23 anos. “Foi um período de muitas mudanças na minha vida. Meus pais estavam se separando, eu queria desistir da faculdade, mudamos de casa e depois meu pai veio a falecer”, lembra.

O estresse emocional é um dos gatilhos da dermatite atópica, mas não é o único. A dermatologista Cristine Carvalho, professora nas faculdades BWS e especialista em urticária, explica que a doença pode piorar com banhos muito quentes, utilização de produtos antissépticos, calor, suor e uso de roupas sintéticas e de lã.

“Tem muitos pacientes que pensam que a pele é suja e, por isso, ficam tomando banho com produtos secativos, o que só piora o quadro. Deve-se usar sabonetes syndets, que são suaves e não tiram a barreira lipídica da pele, e não utilizar buchas”, esclarece a dermatologista.

Logo após o banho, a recomendação é que a pessoa aplique um hidratante que devolve a barreira lipídica da pele para evitar o ressecamento excessivo.

Camila conta que as lesões características de dermatite atópica doem bastante — Foto: Arquivo pessoal
Camila conta que as lesões características de dermatite atópica doem bastante — Foto: Arquivo pessoal

A dor invisível

Camila conta que as lesões características de dermatite atópica doem bastante, principalmente na hora do banho e quando a roupa gruda na ferida. Mas o que muitos não sabem é que a doença também causa profundas feridas emocionais.

“Lembro de uma vez chegar em casa e, ao tirar minha roupa, me coçar muito, a ponto de rasgar a minha pele, e me jogar no chão, questionando qual era o propósito da minha vida”, rememora.

Nessa época, a dermatite atópica da analista de legislação estava tão atacada que ela precisava varrer o chão do quarto todos os dias para recolher as peles que caíam do seu corpo.

Todo esse sofrimento fazia com que a analista de legislação se isolasse socialmente, tendo dificuldade até mesmo para trabalhar devido ao desgaste emocional e físico causado pela condição. “Só que é muito difícil fazer uma pessoa entender que a minha doença, mesmo sendo de pele, é debilitante”, desabafa.

Isso fez com que Camila ouvisse vários comentários desnecessários. Uma pessoa já disse a ela que pelo menos sua doença não era um câncer: “Isso me coloca em um lugar de que eu não posso sofrer e reclamar, por exemplo, o que não é justo”.

Todo esse processo fez com que ela procurasse por terapia, com a ajuda do irmão. O tratamento psicológico tem feito a analista de legislação aprender a validar as próprias emoções, se acolher e encarar a jornada com mais coragem.

Em 2014, Camila gravou um vídeo sobre a doença durante uma de suas crises e criou o perfil @vcnaoesopele, para lembrar as pessoas que elas não são apenas o seu diagnóstico.

“Eu não conhecia ninguém como eu. Depois desse conteúdo, em que as pessoas comentaram muito, não me senti tão sozinha, criou um lugar de pertencimento”, lembra.

A virada de chave

Camila passou por diversos tratamentos para melhorar sua condição — Foto: Arquivo pessoal
Camila passou por diversos tratamentos para melhorar sua condição — Foto: Arquivo pessoal

Como tantos outros pacientes com dermatite atópica, a analista de legislação passou por diversos tratamentos. Porém, o que a ajudou a controlar a doença foi o uso do dupilumabe, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2020.

“O dupilumabe é um imunobiológico, indicado em casos graves de dermatite atópica, quando as medidas de cuidados anteriores falharam. Sua finalidade é inibir a ação das citocinas, ou seja, das substâncias liberadas pelas células que causam inflamação”, explica Evandro Alves do Prado.

O efeito é a diminuição das lesões características da doença, melhora na coceira e, consequentemente, na qualidade de vida do paciente.

Segundo Cristine Carvalho, esse medicamento é usado por um longo período de tempo, muitas vezes por toda a vida. Só que ele deve vir sempre acompanhado de outros cuidados com a pele, principalmente o uso de hidratantes recomendados para dermatite atópica.

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