Compulsão sexual afeta quase 5% das pessoas; saiba quando é considerada doença
Quantidade de vezes que um indivíduo faz sexo não é critério para o diagnóstico do transtorno
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Um estudo realizado em 42 países, entre eles o Brasil, revelou que 4,8% da população mundial tem transtorno do comportamento sexual compulsivo. No entanto, de acordo com a pesquisa, somente 14% dos indivíduos procuraram tratamento para o distúrbio, mostrou a pesquisa publicada recentemente no periódico Journal of Behavioral Addictions.
O que é compulsão sexual?
Segundo a psiquiatra e psicoterapeuta Thaís Muriel Marin, vinculada ao Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, a compulsão sexual é caracterizada pela incapacidade de controlar impulsos relacionados ao sexo.
É importante ressaltar que não há uma quantidade considerada normal de sexo que defina a compulsão. Em vez disso, trata-se de uma questão subjetiva que se torna um problema quando começa a atrapalhar a vida do indivíduo.
“Uma das formas de identificar o transtorno é quando a pessoa começa a se incomodar com seu próprio comportamento. Ela perde o interesse em outras atividades e fica constantemente focada em questões sexuais, desde fantasias até planejamentos. Em vez de desfrutar de um filme ou de sair para atividades sociais, a mente está restrita a pensamentos sexuais, tornando-se um ciclo vicioso”, explica a médica, que não participou do estudo.
A compulsão sexual também pode se manifestar por meio de comportamentos de risco, como relações sexuais no local de trabalho e sexo desprotegido, que expõem o indivíduo a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e gravidez indesejada.
Compulsão sexual vs. comportamento normal
O principal critério para diferenciar a compulsão e o comportamento sexual considerado normal é a interferência negativa na vida do indivíduo.
Embora seja normal ter variações na frequência e intensidade das atividades sexuais, a compulsão se torna um problema quando a pessoa não consegue controlar seus impulsos e isso afeta a sua qualidade de vida.
A compulsão sexual pode se manifestar de diversas maneiras, sendo que todas são variações de comportamentos normais levados ao extremo. Isso pode incluir masturbação, consumo de pornografia, fantasias sexuais, planejamento de encontros e o pagamento por serviços profissionais.
Segundo a médica, o elemento chave é a incapacidade de interromper esses comportamentos, que muitas vezes são impulsionados pela necessidade de preencher um vazio emocional, em vez de prazer genuíno.
Causas da compulsão sexual
De acordo com Thaís Muriel Marin, a compulsão sexual pode ser classificada em duas categorias: secundária e primária:
- Compulsão sexual secundária: Essa forma tem causas mais específicas, como desregulação hormonal, uso de medicamentos que aumentam a libido (como a testosterona), distúrbios de bipolaridade ou mudanças cerebrais que afetam o controle dos impulsos, como a demência.
- Compulsão sexual primária: Nessa categoria, não há uma causa específica identificável. Acredita-se que seja algo multifatorial, envolvendo fatores genéticos e alterações nos neurotransmissores.
De acordo com a médica, a compulsão sexual frequentemente está associada ao uso de drogas, o que aumenta os riscos à saúde, sobretudo a exposição a ISTs como o HIV.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico do distúrbio é clínico e depende da avaliação do comportamento do indivíduo ao longo do tempo, com a condição presente por pelo menos seis meses.
Já o tratamento é geralmente baseado na psicoterapia. “A terapia ajuda o indivíduo a compreender os gatilhos por trás de seu comportamento e desenvolver habilidades para lidar com seus pensamentos e impulsos sexuais”, diz a psiquiatra. O uso de fármacos que diminuem a libido, como alguns antidepressivos, também podem ser necessários.
Em casos de compulsão sexual secundária, a abordagem também envolve as causas subjacentes, como eliminar o uso do remédio que eleva a libido ou tratar o transtorno mental associado ao distúrbio.
Os riscos de não procurar ajuda para a compulsão sexual são significativos. “A condição tende a ser progressiva, piorando com o tempo e causando prejuízos financeiros, físicos e sociais”, afirma Thaís Muriel Marin.









