‘Desenvolvi ansiedade e gastrite por cuidar sozinha da minha avó com Alzheimer’
Desde 2020, Monique Guilherme Mourão, de 29 anos, cuida de sua avó, Maria, de 88. Sem a ajuda de parentes para dividir as tarefas, ela adoeceu
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
A vida da criadora de conteúdo Monique Guilherme Mourão, de 29 anos, mudou radicalmente em 2020, quando sua avó, Maria, teve um acidente vascular cerebral (AVC). Na saída do hospital, os sintomas de Alzheimer, que já apareciam antes do AVC, se agravaram, e a idosa passou a precisar de cuidado em tempo integral. Todos os parentes sumiram e deixaram os cuidados de Maria, atualmente com 88 anos, sob a responsabilidade da neta.
Monique faz parte do contingente de cuidadores informais de idosos. Estima-se que mais de 1 milhão de brasileiros tenham Alzheimer. "Os últimos estudos mostram que quase 90% desses pacientes são cuidados por familiares, especialmente mulheres", diz a assistente social especialista em gerontologia Naira Dutra Lemos, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.
Mudança radical
Antes do AVC, Monique já percebia pequenos lapsos de memória na avó. O acidente agravou os sintomas e Maria saiu do hospital sem reconhecer ninguém e agressiva.
“A minha avó era divertida, gostava de sair e ia muito à igreja. Tinha respostas inteligentes, apesar de não ser uma pessoa letrada. Acho que uma experiência que todo cuidador de uma pessoa com Alzheimer passa no início é não reconhecer o seu parente. Eu me perguntava: Cadê a minha avó?", relembra Monique.
Depois da alta hospitalar, o cuidado de Maria recaiu sobre as costas de Monique. “O ideal seria ter um revezamento entre os parentes, mas sobrou para mim”, diz.
Sem saída, Monique abdicou do emprego como instrutora de informática e trancou a faculdade de sistemas. No início, Maria corria atrás da neta com objetos cortantes e fugia de casa. Monique passou a dormir na sala para evitar fugas e enfrentou momentos de pânico quando a avó escapou, chegando a cair de um barranco de 3 metros de altura.
A aposentadoria da idosa era destinada a remédios e contas básicas, enquanto a estudante se virava para cobrir suas despesas pessoais, fazendo trabalhos acadêmicos para outras pessoas. A conta, porém, não fechava. “Fome, graças a Deus, eu não passei, mas não sobrava dinheiro nem para comprar um esmalte”, diz.
Em meio a essa jornada intensiva, a neta também enfrentou o desafio de sua própria saúde, desenvolvendo ansiedade e gastrite. “A médica disse que, se eu não cuidasse de mim, não poderia cuidar da minha avó”, conta.
Virada financeira no TikTok
Em janeiro deste ano, Monique criou um perfil no TikTok mostrando a sua rotina de cuidados com Maria. Em um mês, conquistou seguidores suficientes para monetizar a conta. A virada financeira permitiu que a neta melhorasse a qualidade de vida da avó, oferecendo uma alimentação mais saudável e passeios. Com as mudanças, Maria foi ficando mais calma.
Monique, que atualmente conta com mais de 300 mil seguidores na rede social, usa a plataforma para compartilhar sua jornada como cuidadora. "Muitas pessoas que também cuidam de idosos com Alzheimer relatam ansiedade. Elas se sentem frustradas e sozinhas. Quero reforçar a importância do cuidador se cuidar também," diz.
A criadora de conteúdo enfatiza que é comum ver mulheres que, assim como ela, negligenciam sua saúde física e mental. "O que eu mais vejo são relatos de mulheres na faixa dos 40 anos que se perderam nos próprios cuidados. Elas já não se enxergam do mesmo jeito e se deprimem", afirma.
Desafios dos cuidadores
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a demência é causada por muitas doenças ou lesões diferentes que danificam direta e indiretamente o cérebro. O Alzheimer é sua forma mais comum, responsável por 60 a 70% dos casos.
“O Alzheimer, mais do que qualquer outra demência, adoece toda a família. Além do desgaste físico e emocional, tem o financeiro, porque nem todos os medicamentos estão disponíveis na rede pública e às vezes é preciso fazer adaptações na casa”, diz Naira Dutra Lemos, que também é professora afiliada da disciplina de geriatria e gerontologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
De acordo com a professora, a trajetória de Monique é comum a muitos cuidadores informais: “O cotidiano dessa pessoa muda completamente, sem possibilidade de escolha. Ela não tem tempo para si mesma, férias, remuneração ou suporte dos familiares”.
Nesse cenário, é comum que o indivíduo adoeça. “Estudos internacionais mostram que, em média, o cuidador vive seis anos menos do que o paciente de quem ele cuida. Nós, profissionais de saúde e assistência social, temos que ter um olhar voltado para essa pessoa, porque senão muito rapidamente teremos dois doentes”, afirma Naira Dutra Lemos.
A especialista recomenda que o cuidador busque ajuda para si mesmo. Na Unifesp, há 17 anos, os cuidadores frequentam um ambulatório no qual eles são pacientes. Atualmente, são 105 pessoas atendidas por médicos, psicólogos e assistentes sociais, numa abordagem interdisciplinar.









