Esqueci de tomar o anticoncepcional. O que fazer e como evitar riscos?
Ingerir a pílula todos os dias, no mesmo horário, ajuda a prevenir gravidez indesejada e sangramento por escape
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Duas em cada três brasileiras que tomam anticoncepcional para prevenir a gravidez utilizam o método de forma errada. O dado é de uma pesquisa feita pela farmacêutica Bayer com apoio do Departamento de Ginecologia da Universidade de São Paulo (Unifesp). O estudo, realizado em nove países, mostrou que 58% das brasileiras disseram ter esquecido de ingerir a pílula pelo menos uma vez no mês anterior, ante 39% da média mundial.
“Tomar o anticoncepcional todos os dias, de preferência no mesmo horário, é essencial para garantir um bloqueio hormonal eficaz e reduzir o risco de gravidez indesejada”, diz a ginecologista Carla Maruxo Youssef, ginecologista do Hospital São Camilo.
O consumo da pílula diária deve começar entre o primeiro e o terceiro dia do ciclo menstrual. A recomendação é que a pessoa tome o comprimido sempre no mesmo horário, pois a meia-vida da maioria dos contraceptivos orais é de aproximadamente 24 horas.
A pílula é um método eficaz — se consumida corretamente
A eficácia de uma estratégia contraceptiva pode ser medida pelo Índice de Pearl. Essa metodologia calcula o número de pessoas que, dentro de um grupo de 100 indivíduos, engravidaram usando uma ferramenta preventiva durante um ano. A metodologia compara ainda o uso correto, aquele que segue a prescrição de bula, e o uso habitual.
Se a pessoa fizer o uso correto da pílula combinada, terá 0,3% de risco de engravidar em 12 meses. Porém, no uso habitual — que leva em conta de esquecimentos a uso concomitante de antibiótico — a probabilidade de gravidez é de 8%.
De acordo com os parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS), as pílulas são consideradas um método efetivo. As estratégias classificadas como muito efetivas são aquelas que não dependem do comportamento da pessoa, como o implante (0,05% de risco de gravidez), o DIU hormonal (0,2%).
O que fazer em caso de esquecimento?
Carla Maruxo Youssef explica que, em episódios de esquecimento, as ações a serem tomadas dependem de dois fatores. Um deles é o tipo da pílula — o remédio pode combinar estrogênio e progesterona ou ter somente progesterona, uma versão conhecida como minipílula. O outro é quanto tempo a pessoa demorou para se lembrar do remédio.
Caso a mulher tenha pulado um comprimido da cartela, a recomendação é ingerir a pílula imediatamente, independentemente do tipo de anticoncepcional que ela consome. O método continuará sendo eficaz para evitar uma gravidez.
A recomendação muda se a pessoa passou mais de dois dias sem tomar o hormônio e faz uso do método combinado. “Nesse cenário, tome um comprimido assim que se lembrar e verifique quantos dias faltam para a cartela terminar. Se faltar menos de sete dias, continue tomando uma pílula por dia até a cartela se esgotar e já emende com a próxima, sem fazer a pausa para o sangramento. Se faltar mais de sete dias, termine a cartela e siga a pausa normalmente”, ensina a médica.
Além disso, é necessário usar outro método contraceptivo, como o preservativo, até a menstruação seguinte.
No caso da pílula de progesterona, a orientação é também tomar um comprimido assim que se recordar dele. Esse método não tem pausa para o sangramento, de modo que o usuário já vai emendar uma cartela na outra.
“A partir daí, use mais um método de contracepção, como a camisinha, por 30 dias. Como as pílulas de progesterona atuam em somente um eixo hormonal, elas têm um risco maior de gravidez e de sangramento de escape se forem tomadas de forma incorreta”, explica Carla Maruxo Youssef.
A médica orienta a, em qualquer cenário, tomar no máximo dois comprimidos de uma vez e não usar a pílula do dia seguinte como método auxiliar: “É muito hormônio de uma vez só”.
Como evitar o esquecimento
É importante estabelecer um padrão para se recordar de ingerir o remédio sempre no mesmo horário. Tomar o comprimido um dia às 10h, no outro às 13h e no outro às 16h compromete a eficácia como método para evitar a gravidez e aumenta o risco de sangramento de escape, um efeito colateral desagradável.
Existem diversos aplicativos de celular — como o Flo, o Clue e o Hora da Pílula — que ajudam a monitorar o ciclo menstrual. Eles enviam alarmes sobre o horário certo de tomar a pílula e apontam também os dias de pausa. Além disso, os próprios smartphones têm dispositivos de saúde que auxiliam a manter a regularidade hormonal.
A médica do São Camilo sugere consumir o fármaco na hora da refeição, para criar regularidade: “Eu oriento minhas pacientes a tomar a pílula depois do almoço, não no café da manhã. No fim de semana as pessoas acabam dormindo até mais tarde e não acordam cedo só para tomar um remédio”.
Mesmo com a facilidade dos aplicativos e alarmes, a maioria das usuárias de pílula se esquece de engolir o contraceptivo todo santo dia, na mesma santa hora. Para quem não consegue criar esse hábito, os anticoncepcionais que não dependem da memória podem ser uma boa saída.
“A procura por métodos de longa duração tem aumentado exatamente por causa do esquecimento das pacientes”, afirma a ginecologista. Entre as opções disponíveis, estão o DIU, o implante, o injetável, o anel vaginal e o adesivo.
A importância do aconselhamento médico
Procurar um médico é crucial para escolher o método contraceptivo adequado. “É comum as pacientes chegarem no consultório dizendo que tomam uma pílula por recomendação da amiga”, relata Carla Maruxo Youssef.
A escolha do anticoncepcional leva em conta diversos fatores, que incluem a saúde geral da pessoa, seu estilo de vida, seus objetivos e seu histórico familiar. “Muitas vezes, a gente associa a contracepção a alguma outra queixa que a pessoa tem. Além disso, na consulta, a gente coleta Papanicolau e pede exames de sangue e de imagem”, diz a médica.
O acompanhamento com o profissional também ajuda a gerenciar efeitos colaterais, se eles ocorrerem. “É muito importante fazer o aconselhamento na consulta ginecológica, para poder indicar o melhor anticoncepcional e desmistificar os seus riscos. Vale lembrar também que a pílula não previne doenças sexualmente transmissíveis”, afirma a ginecologista.









