Mounjaro: como funciona o medicamento que promete ser mais efetivo que Ozempic
O remédio é indicado para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2 e, off label, para perda de peso em quadros de obesidade
Por Alice Arnoldi, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o medicamento Mounjaro, cujo principal ativo é a tirzepatida, como um novo tratamento para o diabetes mellitus tipo 2, no dia 25 de setembro. O remédio surge com a premissa de ser mais efetivo que o Ozempic, que tem a semaglutida como principal composto no controle da glicemia e da perda de peso.
A médica clínica Fabrícia Jung, especializada em nutrologia e medicina da obesidade, explica que o Mounjaro vem sendo usado nos Estados Unidos e na Europa de forma off label, isto é, sem indicação na bula, para emagrecimento, quando o excesso de gordura corporal prejudica a saúde.
“Há uma grande expectativa de liberação do FDA (Food and Drug Administration) para o uso do medicamento no manejo da obesidade, ainda esse ano”, diz.
O estudo mais robusto que comparou os efeitos do Mounjaro com o Ozempic foi o chamado SURPASS-II. Ele teve a participação de 1.900 pacientes com diabetes tipo 2. Os resultados do levantamento foram apresentados no Congresso da Associação Americana de Diabetes, nos Estados Unidos, em 2022.
Os dados da pesquisa mostraram que 51% dos voluntários que tomaram a versão de 15 mg do tirzepatida, ao final de 40 semanas, conseguiram atingir uma hemoglobina glicada (HbA1c) inferior a 5,7%, como quem não tem a doença. Essa mesma meta foi alcançada por apenas 20% dos participantes que usaram a semaglutida de 1 mg no mesmo intervalo de tempo.
“Em relação ao percentual de perda de peso, 40% dos pacientes tiveram uma perda igual ou superior a 15% do peso inicial. Enquanto que, com a semaglutida de 1 mg, esse mesmo resultado foi atingido por aproximadamente 8% das pessoas”, revela Fabrícia Jung.
Por que o Mounjaro é mais efetivo do que o Ozempic?
Kátia Seidenberger, endocrinologista pela Universidade de São Paulo (USP), explica que o Mounjaro contém duas incretinas: o GIP e o GLP-1. Trata-se de hormônios produzidos pelo trato gastrointestinal e liberados quando há entrada de nutrientes, especialmente de glicose, no intestino.
As duas incretinas estimulam a secreção de insulina. Logo, quando a medicação é aplicada, ela facilita a entrada do açúcar para dentro das células, reduzindo sua quantidade no sangue após a refeição. Isso explica a melhora dos quadros de diabetes tipo 2 com o uso do remédio.
O Mounjaro também atua diretamente no cérebro, em relação ao apetite da pessoa. O GIP e GLP-1 emitem sinais de saciedade para o sistema nervoso central, o que reduz a ingestão de alimentos e pode levar à redução do peso, sendo uma alternativa para casos de sobrepeso e obesidade.
Embora o Ozempic tenha uma ação parecida com a do Mounjaro, a semaglutida age apenas no GLP-1.
“O mecanismo duplo da tirzepatida produz maiores reduções glicêmicas (melhor controle do diabetes), maior perda de peso e reduz mais os fatores de riscos cardiovasculares. Além disso, ele diminui mais a gordura no abdômen, no fígado e na região intramuscular”, detalha Kátia Seidenberger.
Como é a administração do Mounjaro
Segundo a endocrinologista Maria Fernanda Barca, membro da Associação Brasileira para o Estudo de Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a estimativa é que o Mounjaro chegue ao Brasil nas doses de 2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg, 10 mg, 12,5 mg e 15 mg.
A dose escolhida varia de acordo com o quadro do paciente, sendo fundamental o acompanhamento médico para determinar qual é a mais indicada para ele.
“O Mounjaro vem como uma caneta com uma agulha pequena, de injeção subcutânea, que pode ser aplicada no abdômen, na coxa ou na parte superior do braço e tem o seu uso semanal”, esclarece Fabrícia Jung.
Ainda não se sabe quando o medicamento chegará ao Brasil, pois ele ainda está passando pelo processo de precificação pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) para, posteriormente, ser comercializado.
Contraindicações do novo medicamento
Segundo Maria Fernanda Barca, o Mounjaro é contraindicado para pacientes com histórico de pancreatite e para quem tem na família casos de carcinoma medular de tireóide, um tipo de câncer da glândula.
“Pacientes com problemas oculares podem vir a ter uma piora com o uso do medicamento e depois uma melhora futura, com o controle do índice glicêmico e do diabetes. Vai ser importante conversar com o oftalmologista e avaliar se podemos usar o remédio”, esclarece a especialista.
Uma alternativa para a bariátrica
Kátia Seidenberger pontua que o uso da tirzepatida, associado a dieta e atividade física, pode fazer o paciente perder de 30 a 35% do peso necessário, trazendo um resultado semelhante ao de uma cirurgia bariátrica bem sucedida.
Maria Fernanda Barca enfatiza que a bariátrica deve ser a última alternativa para o emagrecimento, uma vez que é um processo cirúrgico invasivo com consequências perigosas.
“Pouco se fala sobre a bariátrica, a longo prazo, poder causar osteoporose de fraturas espontâneas em jovens, por falta de absorção de cálcio e vitamina D. Além da anemia, porque diminui a absorção de ferro, precisando fazer infusões do nutriente”, detalha a endocrinologista.
Para Fabrícia Jung, se o Mounjaro não for o suficiente para que o paciente não precise da bariátrica, o medicamento pode ser fundamental para a pessoa se preparar para a cirurgia e, mais tarde, para não ocorrer o reganho do peso.
O Mounjaro não é para todos
A médica clínica enfatiza que um dos problemas que pode vir a rondar o Mounjaro, como já acontece com o Ozempic, é o seu uso para fins estéticos. Em outras palavras, a pessoa recorre a ele para perder um peso que ela não precisa eliminar apenas em busca de um padrão corporal socialmente desejado.
“Um medicamento com potencial inibição de apetite, vendido sem receita, junto com a pressão das redes sociais, dos filtros, da comparação, pode ser mais uma forma de manutenção dos transtornos alimentares”, reflete Fabrícia Jung.
Entende-se, então, que o Mounjaro só deve ser usado quando houver recomendação médica e com o paciente sendo acompanhado por uma equipe multidisciplinar.
“É importante lembrar que ele é um auxiliar para o diabetes e perda de peso e não substitui as medidas comportamentais. Muitas vezes, profissionais e pacientes criam expectativas irreais em relação a esses novos medicamentos”, pondera a especialista.









