Testosterona: queda do hormônio pode ser confundida com depressão em mulheres?
Diretrizes de sociedades médicas preconizam que só faz sentido dosar a testosterona nas pacientes com suspeita de excesso do hormônio, não da falta dele
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
A depressão é uma condição que afeta 17,38% dos brasileiros ao longo da vida, segundo uma revisão de estudos publicada recentemente no periódico The Lancet. Ela atinge duas vezes mais mulheres do que homens, e uma das hipóteses para explicar essa discrepância é o fator hormonal. Será que, por trás dos sintomas da doença, está uma queda na testosterona?
Segundo a endocrinologista Ruth Clapauch, membro do Departamento de Endocrinologia Feminina da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), a resposta categórica é não.
O papel da testosterona na saúde feminina
As mulheres têm menos de 100 picogramas de testosterona no organismo. É naturalmente pouco. Nos homens, para efeito de comparação, o nível é dez vezes maior. Os exames de laboratório, conta a médica, foram criados com base nos valores masculinos e são imprecisos nos testes femininos.
“As pacientes pedem para dosar o hormônio ou chegam com o resultado de um teste que alguém solicitou. O laudo sempre mostra que a testosterona está baixa, porque é normal estar baixo. Além do mais, o resultado não tem validade”, diz Ruth Clapauch.
Diretrizes de sociedades médicas preconizam que só faz sentido dosar a testosterona nas pacientes com suspeita de excesso do hormônio, não da falta dele. É o caso das pessoas com tumores adrenais ou síndrome dos ovários policísticos.
O papel fisiológico do hormônio masculino na mulher ainda não foi esclarecido pela ciência. Cientistas estudaram a aplicação de doses farmacológicas de testosterona para tratar transtorno de desejo sexual hipoativo em mulheres, uma condição que afeta a libido.
Foi observado um discreto aumento do desejo das participantes. Se elas tinham, em média, 2,6 relações sexuais por mês, passaram a ter 4,6. Porém, no grupo de placebo, os episódios sexuais também subiram para 3,7. O remédio foi aprovado na Europa, mas saiu de circulação por falta de consumidores.
“O desejo sexual é influenciado por diversos fatores, incluindo o relacionamento com o parceiro, a autoestima e a presença de outras condições de saúde. Tem trabalhos mostrando que os níveis normais de testosterona na mulher não tem nada a ver com libido dela”, informa a médica.
A curva natural do hormônio na mulher
Um dos mitos que Ruth Clapauch desmistifica é o de que a testosterona cai na menopausa. Na realidade, tanto em homens quanto em mulheres, o pico do hormônio ocorre por volta dos 18 anos e diminui gradualmente ao longo do tempo.
Estudos mostram que a maior queda ocorre dos 18 aos 24 anos e dos 25 aos 35 anos. Já entre os 45 e 55 anos, os níveis de testosterona nas mulheres não apresentam mudanças significativas, estejam elas na menopausa ou não.
Todos os hormônios produzem efeitos no cérebro. A testosterona, por exemplo, causa agitação. No climatério, período de transição da fase reprodutiva para a pós-menopausa, começa a queda de progesterona, um hormônio relaxante e ligado ao sono — como consequência, a pessoa pode começar a ter dificuldade para dormir.
Depois da última menstruação, o estrogênio cai abruptamente e traz consigo ondas de calor e ressecamento vaginal. Tudo isso junto atrapalha o humor e a libido. Para piorar, o estrogênio tem um efeito estimulante e, quando está baixo, pode cursar com uma depressão leve e afeta a memória da pessoa, principalmente a verbal.
Efeitos colaterais perigosos
O uso da testosterona em mulheres está associado a uma série de efeitos adversos, que reúnem aumento de pelos, acne, virilização (aumento do clitóris, voz mais grave), acúmulo de gordura abdominal, interferência na ovulação e riscos para a fertilidade. Além disso, durante a gravidez pode resultar em virilização do feto.
Ruth Clapauch também enfatiza os efeitos metabólicos, incluindo alterações no músculo cardíaco, pressão arterial elevada, risco de trombose e alterações psicológicas, como irritabilidade, agressividade e agitação: “O uso inadequado da testosterona pode até levar a comportamentos antissociais e causar dependência, criando uma síndrome de abstinência quando o consumo da substância é interrompido”.
A prescrição do hormônio para fins estéticos é proibida no Brasil.









