Diabetes: 6 frases para tirar do vocabulário ao falar com quem tem a doença
No Dia Mundial do Diabetes, três mulheres que convivem com a condição relatam falas que são preconceituosas e não deveriam mais ser ditas, como “nem parece que você tem diabetes!” ou “tão nova e com diabetes!”
Por Alice Arnoldi, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Se conviver com uma doença crônica já não é fácil, a jornada torna-se ainda desafiadora devido ao preconceito que as pessoas sofrem ao receberem o diagnóstico de uma enfermidade. É o que acontece, por exemplo, com quem tem diabetes. Embora a condição afete mais de 16 milhões de brasileiros, ela ainda é cercada de estigmas e desinformações.
No Dia Mundial do Diabetes, celebrado em 14 de novembro, três mulheres relatam as principais frases que ainda escutam por causa da condição, mas que não deveriam mais fazer parte do vocabulário das pessoas. Mesmo quando faladas sem intenção de ofender, são frases que soam invasivas e desrespeitosas para quem convive com a doença.
1. “Diabetes não é doença de velho?”
A advogada Maria Eloisa Martinho Cais Malieri, especializada em direito à saúde, 49, tinha apenas 11 anos quando descobriu o diabetes tipo 1. A suspeita da condição surgiu quando seus pais perceberam que ela estava sentindo muita sede, a perdendo peso e com um cansaço fora do normal.
O diagnóstico há 38 anos fez com que Maria Eloisa lidasse com comentários negativos sobre a doença desde a infância, como “diabetes não é doença de velho?” ou “nossa, tão nova e com diabetes!”.
Essas duas frases refletem a desinformação que ocorre em relação ao diabetes tipo 1. Embora a enfermidade possa se manifestar em qualquer idade, o diagnóstico é mais comum na infância ou adolescência, como aconteceu com a advogada.
Além disso, são falas que colocam a velhice como uma fase da vida em que o desenvolvimento de doenças é inevitável, o que não é verdade. É possível envelhecer com saúde ao ter bons hábitos ao longo dos anos — como ter uma alimentação equilibrada, praticar exercícios físicos, dormir bem e manejar o stress.
“A medicina e a tecnologia avançaram para nos proporcionar uma vida melhor com o diabetes. Mas, em contrapartida, a desinformação não avançou. Continuamos a viver, dia após dia, nessa luta constante e intensa de desmistificar mitos que se tornaram verdades”, reflete Maria Eloisa.
2. “Tão magra e tem diabetes!”
Outra frase que a advogada ouviu ao longo dos anos, após o diagnóstico, é que não fazia sentido ela ser uma mulher magra e ter diabetes. Esse tipo de comentário mostra como a sociedade ainda enxerga a magreza como sinônimo de saúde e, consequentemente, associa o corpo gordo à doença.
Essa visão tende a ser problemática porque pessoas magras podem deixar de se cuidar por não estarem com sobrepeso ou obesidade, acreditando que ser saudável envolve apenas estar dentro do peso esperado.
Há casos ainda de quem enxerga a perda de peso repentina, como pode acontecer nos casos de diabetes, como algo bom, por causa do culto à magreza. Consequentemente, a pessoa deixa de investigar possíveis problemas de saúde que estão associados ao emagrecimento abrupto.
3. “Nem parece que tem diabetes!”
A jornalista Beatriz Libonati, especializada na cobertura de saúde, 32, convive com o diabetes tipo 2 há oito anos. Ao longo desse período, ela já ouviu algumas frases inconvenientes relacionadas à condição, como quem disse que ela não aparentava ter a doença por estar bem.
“Há um estigma muito grande em relação a quem tem diabetes. Logo, quando veem pessoas com a doença, que estão bem e saudáveis, ficam surpresas, porque infelizmente ainda há uma forte disseminação de informações incorretas sobre a condição”, explica.
Uma delas é que o diagnóstico do diabetes é uma sentença de morte, o que não é verdade. Com o tratamento adequado, seguido com atenção, é possível ter uma vida boa e longa, sem grandes complicações.
“Lidar com uma condição crônica é um trabalho integral, 24 horas por dia, sem direito a férias ou descanso. Temos momentos que estamos mais cansados e outros que lidar com o diabetes flui como apenas mais uma tarefa da nossa rotina. Mas, como já são quase 10 anos de diagnóstico, aprendi muito ao longo desse período, o que me permite ter um entendimento do que preciso fazer para ficar bem”, reflete Beatriz.
4. “Dá para curar o diabetes tomando esse chá/remédio natural”
Ao mesmo tempo que a internet intensificou a disseminação de informações verdadeiras sobre o diabetes, as fake news também ganharam força. Uma que a jornalista ouve com frequência é sobre receitas naturais serem a solução para a condição.
“Até o momento, não existe cura para o diabetes. O que temos é a remissão da doença. Apesar disso, vemos cada vez mais anúncios picaretas de produtos naturais que prometem curar ou tratar o diabetes sem qualquer comprovação científica ou regulação pela Anvisa, o que coloca em risco a vida de milhares de pessoas”, alerta Beatriz.
Uma das consequências perigosas desse tipo de informação enganosa é a pessoa acabar abandonando o tratamento medicamentoso, acreditando na possibilidade do remédio natural curar o diabetes. Com isso, ela pode ter um descontrole da doença e sofrer graves complicações.
5. “Você vai comer isso? Mas você não é diabética?”
A jornalista Luciana Oncken, 49, foi quem criou o primeiro blog sobre diabetes no Brasil, o “Viver com Diabetes”, onde conseguiu formar um fórum com outras pessoas que conviviam com a doença para trocar experiências.
“Era uma sensação muito boa de pertencimento que se manifestava ali. Acho que consegui transformar a minha condição em combustível para viver da melhor forma possível, compartilhando minhas experiências nas redes sociais, ouvindo e apoiando outras pessoas com diabetes”, reflete.
Luciana convive com o tipo MODY há 20 anos. Conhecido como diabetes monogênico, a jornalista sempre esteve alerta a possibilidade de desenvolvê-lo por ter pais com a doença e um irmão que descobriu a condição aos 25 anos.
Embora ela tenha aprendido a lidar com muitos dos comentários que surgem devido ao quadro, um ainda a incomoda bastante, que é quando a jornalista vai comer algum doce e perguntam se ela pode, pois tem diabetes.
“Hoje, os tratamentos avançaram e você pode ter uma alimentação mais ampla. Eu sempre procuro o controle de alimentos com açúcar, mas por opção minha. Tem dia que eu me permito sair um pouco do tratamento e quero fazer isso sem culpa. Essas intromissões acabam gerando mal-estar, uma sensação de vigília, que atrapalha mais do que ajuda”, enfatiza.
6. “Você tem diabetes porque comia muito doce”
Outra frase que Luciana também já ouviu, assim como Beatriz, é sobre ter desenvolvido diabetes por ter consumido muito doce ao longo dos anos. Essa relação entre a aparição da doença e o consumo de açúcar não passa de um mito.
A endocrinologista Dhiãnah Santini, coordenadora do departamento de educação em diabetes e campanhas da Sociedade Brasileira de Diabetes, explica que o tipo 1 é uma doença autoimune em que acontece a produção de anticorpos que destroem as células beta, responsáveis pela produção de insulina no pâncreas. Consequentemente, isso compromete o controle da glicose no organismo.
“É uma doença que tem uma manifestação clínica aguda, bastante sintomática porque, de uma hora para outra, a pessoa perde a capacidade de produção de insulina e funcionamento do pâncreas. Os principais sintomas desse tipo de diabetes são: cansaço, emagrecimento importante, muita sede e a pessoa passa a fazer muito xixi”, pontua a especialista.
O diabetes tipo 1 acomete principalmente crianças e adolescentes, mas ainda há casos sendo relatados em adultos e idosos. O tratamento se dá com o uso de dois tipos de insulina para imitar o funcionamento do pâncreas.
Já o diabetes tipo 2, que é o mais comum, tende a ser desenvolvido por pessoas que, além de terem histórico familiar da doença, levam um estilo de vida insalubre. Sendo assim, é uma condição associada ao sedentarismo, obesidade, pressão alta e colesterol alto.
“Em geral, o diabetes tipo 2 é assintomático, porque a glicose vai se elevando progressivamente na corrente sanguínea e a pessoa vai se adaptando. Os sintomas acontecem quando está em um estágio muito avançado ou quando se tem uma complicação”, explica Dhiãnah Santini.
É por isso que as campanhas de prevenção da doença são tão importantes.
“Estima-se 50% da população com diabetes não sabe que tem a doença. Normalmente, quando a pessoa descobre a condição, ela já tem o quadro há mais de seis, sete anos. Isso é um problema porque ela pode ter um grau de complicação que poderia ser prevenido se ela fosse diagnosticada desde o início”, esclarece a endocrinologista.
O tratamento do diabetes tipo 2 pode ser feito com medicamentos orais até insulina. Além da intervenção medicamentosa, a mudança no estilo de vida também contribui para o controle da condição, como manter uma alimentação equilibrada e praticar exercício físico.









