Por que a dor de cabeça é mais comum em mulheres do que em homens?
A enxaqueca é três vezes mais frequente no sexo feminino do que no masculino e uma das principais causas de incapacidade entre mulheres de 15 a 49 anos
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
A dor de cabeça é um dos distúrbios mais comuns do sistema nervoso central. Quase todo mundo já teve pelo menos um episódio na vida. No entanto, para muitas pessoas, trata-se de um incômodo recorrente e até incapacitante.
Existem vários tipos de dor de cabeça. A mais comum é a cefaleia tensional, que afeta mais de um terço dos homens e mais da metade das mulheres no planeta, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Outro tipo frequente é a enxaqueca, que atinge uma em cada sete pessoas no mundo e é três vezes mais frequente no sexo feminino do que no masculino, também segundo a OMS.
O que é a enxaqueca
A crise clássica de enxaqueca começa com a aura, que se manifesta com alterações visuais como pontos brilhantes ou manchas escuras. Em seguida, a pessoa sente dores latejantes na metade direita ou esquerda da cabeça.
Náusea, vômito e intolerância a som, luz e cheiro fortes podem acompanhar o mal-estar. A dor vai aumentando e chega no auge em 30 minutos a duas horas. “No pico da dor, a pessoa tem que obrigatoriamente interromper o que está fazendo”, aponta Maristela Costa Cespedes, neurologista do Hcor.
Cada episódio costuma durar um dia, mas pode se prolongar por até uma semana. Quando a dor passa, a pessoa fica com uma sensação de peso na cabeça.
A enxaqueca é uma das principais causas de incapacidade entre mulheres de 15 a 49 anos, segundo o estudo Global Burden of Disease de 2019.
Por que a enxaqueca é mais comum em mulheres?
A médica explica que a enxaqueca tem uma base genética e que, embora existam fatores desencadeantes, como certos alimentos, a predisposição à condição é hereditária. Ela destaca a importância de abandonar a antiga ideia de que as mulheres devem sofrer em silêncio, encorajando a busca por ajuda médica e tratamentos adequados para melhorar a qualidade de vida das pacientes.
Segundo a neurologista, ninguém sabe exatamente o que desencadeia a enxaqueca, mas a doença está ligada a alterações dos níveis dos neurotransmissores, como a acetilcolina e a dopamina.
Sabe-se também que o quadro é sensível ao ciclo hormonal. Durante o período perimenstrual, que compreende os dias que antecedem a menstruação e o próprio período de sangramento, as mulheres enfrentam um aumento na ocorrência de dores de cabeça.
Mas o fator hormonal, isoladamente, talvez não explique por que o sexo feminino sofre mais de enxaqueca do que o masculino. Em entrevista ao jornal The New York Times, Colleen M. LaHendro, enfermeira especializada em neurologia no Hospital Northwestern Medicine Lake Forest Hospital, afirmou que uma possível razão para a discrepância é porque as mulheres tendem a relatar ter mais stress, seja por obrigações profissionais, sociais ou familiares, do que os homens.
O perigo da automedicação
Além da enxaqueca, Maristela Costa Cespedes aponta que outra dor de cabeça comum entre as mulheres é a cefaleia crônica diária. Trata-se de um quadro muitas vezes desencadeado pela automedicação. A busca por alívio imediato pode levar a uma dependência química dos remédios, criando um ciclo difícil de ser quebrado.
“O uso crônico de analgésicos, que são vendidos livremente nas farmácias, pode causar dependência, cujo sintoma é a própria dor de cabeça”, esclarece a neurologista.
A médica do Hcor enfatiza a importância de tratamentos preventivos, como o uso de betabloqueadores, antidepressivos e algumas medicações antiepilépticas. Em relação ao anticoncepcional, a neurologista esclarece que, para algumas pacientes, o uso do remédio pode piorar a enxaqueca. “A melhor profilaxia de todas é a atividade física”, diz.









