PGAD: ‘Já tive 18 orgasmos em um dia. A vontade é de sair correndo e chorando’
A bancária C.B., de 52 anos, tem transtorno da excitação genital persistente (PGAD), um distúrbio no qual a mulher pode ter orgasmos frequentes, espontâneos e inesperados, associados a muita dor e constrangimento
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Em 2017, a bancária C.B foi submetida a uma cirurgia de remoção do útero para tratar um mioma que comprimia seu abdômen. Ela estava sentada no sofá de casa, se recuperando do procedimento, quando experimentou uma sensação desconcertante. “Senti o meu abdômen torcer dentro de mim”, diz ela, atualmente com 52 anos.
O que se seguiu foi um fenômeno angustiante: uma movimentação intensa na região pélvica, semelhante a um orgasmo, mas sem prazer associado ao clímax. “É como se você percebesse o início de uma cãimbra que vai se intensificando. A musculatura começa a se contorcer, pega toda a região vaginal e causa uma sensação que parece um orgasmo que não acaba. Eu já fiquei nessa condição por meia hora”, descreve.
Orgasmo sem prazer
Segundo a bancária, a experiência não tem nada de agradável. “Primeiro, porque você não está num envolvimento emocional. Segundo, porque a dor não te deixa sentir prazer. Terceiro, porque você não tem domínio da situação. Pode vir a qualquer hora do dia e você não sabe quanto tempo vai durar. É extremamente constrangedor”, afirma.
Um dia, C.B. teve uma forte crise no metrô, a caminho do trabalho. Ela marcou num papel quantas vezes o incômodo se repetiu ao longo de sua jornada de 6 horas no banco: 18. Um dos piores episódios ocorreram durante uma reunião presencial. “Eu estava escrevendo no quadro e, de repente, senti a dor. Joguei a caneta e saí correndo para o banheiro”. Sem saber a causa de seu sofrimento, a bancária teve de dar explicações ao chefe.
Negligência médica
Ao buscar ajuda, C.B sofreu gaslighting médico. O termo ganhou destaque na mídia e nas redes sociais em 2022 e 2023, revelando uma prática que ocorre quando médicos atribuem a problemas psíquicos os sintomas relatados por seus pacientes, negligenciando a investigação de possíveis causas subjacentes. Mulheres são as principais vítimas da falta de escuta.
"Uma mulher dentro do nosso país não tem por características ser ouvida, se ela não estiver descrevendo algo esperado", relata. Profissionais de saúde, inicialmente, não conseguiram entender a complexidade e a gravidade do transtorno.
Algumas respostas chegaram a ser desdenhosas, como a sugestão de que "você está ficando louca, isso não existe". Outro médico gargalhou da queixa e disse: “Você não devia se preocupar com isso. Na sua idade, as minhas pacientes reclamam de libido baixa”. A dor de C.B., no entanto, não tem nenhuma relação com desejo sexual.
A bancária passou por cerca de dez médicos, entre neurologistas, ginecologistas e endocrinologistas, ao longo de dois anos, até uma acupunturista apresentá-la ao termo transtorno da excitação genital persistente, também conhecido por PGAD, na sigla em inglês.
O diagnóstico foi confirmado em uma consulta com a ginecologista e sexóloga Renata Ribeiro, de Brasília. “Quando a pessoa que não tem um diagnóstico, não sabe o que acontece com ela. Eu achava que realmente estava ficando louca”, conta C.B.
Desde então, C.B tem experimentado melhorias, tanto emocionais quanto físicas. O diagnóstico permitiu a calibração adequada da medicação e a prática de atividades físicas que aliviam as dores.
O que é PGAD?
O transtorno da excitação genital persistente (PGAD) é uma condição pouco compreendida que afeta principalmente as mulheres, causando excitação genital de forma intensa, inesperada e desconfortável, sem estímulo sexual. A angústia desencadeada pela doença é fundamental para o seu diagnóstico, porque algumas pessoas não relatam desconforto com o distúrbio.
“Infelizmente, o grau de sofrimento associado a essa condição pode ser tão intenso que há relatos de suicídio relacionados ao PGAD”, afirma a ginecologista e sexóloga Renata Ribeiro. Embora existam raros casos em homens, o transtorno é muito mais comum em mulheres.
Causas e sintomas
O PGAD pode ter origem em diferentes áreas do corpo, desde o cérebro até a região genital. Segundo a médica, o distúrbio tem várias causas, muitas neurológicas:
- Início ou parada abrupta de alguns antidepressivos;
- Doenças que acometem o clitóris, vulva e vagina;
- Cistos nas raízes nervosas;
- Alterações na coluna lombo-sacra, como hérnias;
- Aneurismas;
- Epilepsia;
- Alterações do nervo pudendo (por compressão);
- Malformações arteriovenosas.
O distúrbio pode aparecer em qualquer momento da vida. “Já tive uma paciente cujos sintomas iniciaram aos 6 anos. A criança se toca frequentemente em busca de alívio e é punida pelos pais que não entendem seu comportamento”, relata Ribeiro.
Os sintomas do PGAD incluem sensações incômodas no clitóris e na região gênito-pélvica, manifestando-se como formigamento, queimação, dor ou uma iminência de orgasmo. Algumas mulheres enfrentam períodos de alívio mínimo, enquanto outras vivenciam a persistência constante dos sintomas.
O PGAD não apenas causa desconforto físico, mas também tem um impacto profundo na saúde mental e emocional das mulheres afetadas. Ansiedade, depressão, ideação suicida, isolamento social, abandono de estudos e trabalho são alguns dos desafios enfrentados por essas pacientes.
Muitas pessoas que buscam o serviço de saúde para o PGAD, como C.B., são mal compreendidas por profissionais da área.
Segundo Ribeiro, o tratamento do PGAD depende da causa específica da condição, podendo envolver medicamentos ou intervenções cirúrgicas. A identificação precisa da origem do transtorno é crucial para determinar a abordagem mais eficaz.
Para quem passa por esse problema, C.B. recomenda não ter medo de pedir ajuda: “Se um profissional não for sério ou não for competente o suficiente para te ouvir, saia dali e busque outro profissional, até encontrar alguém que te respeite e possa te ajudar”.









