Por que as mulheres têm cólicas menstruais?
Praticamente todas as pessoas que menstruam sentem algum grau de desconforto durante o sangramento mensal. No entanto, quando a dor atrapalha as atividades cotidianas e não respondem a um tratamento simples, é necessário investigar
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Quase todas as pessoas que menstruam ou já menstruaram concordam que esse período do mês vem acompanhado de algum tipo de desconforto. Algum nível de cólica é esperado e considerado normal pela medicina.
No entanto, quando a cólica atrapalha a qualidade de vida e impede a mulher de desempenhar suas atividades cotidianas, como o trabalho e o estudo, é sinal de que algo está errado.
O que é a cólica menstrual?
Para compreender a causa da cólica — dismenorreia, no jargão médico —, é preciso saber um pouco sobre o ciclo menstrual. O útero é formado por um músculo chamado miométrio. Sua cavidade, que é ocupada pelo feto em uma gestação, é revestida por uma camada conhecida como endométrio. Como qualquer músculo (pense no seu bíceps), o útero tem capacidade de se contrair e relaxar.
Todo mês, um dos ovários da mulher libera um óvulo para ser fecundado — isso se chama ovulação. O organismo causa mudanças no endométrio para receber um embrião. Se o óvulo não for fertilizado, o endométrio se desprende pela vagina. Este é um período menstrual.
A menstruação causa uma reação inflamatória natural no organismo. O corpo inflama como um todo, mas o útero é o principal órgão afetado nesse processo. A cólica é causada pela contração involuntária do útero para expelir o sangue e o endométrio, assim ela é como um resultado da inflamação.
A força da contração pode ser mais ou menos intensa a depender da ação da prostaglandina, substância química que atua em vasodilatação e vasoconstrição.
“A cólica pode ser fisiológica, ou seja, inerente ao processo da menstruação. Porém, quando ela começa a ficar muito intensa e incapacitante, pode estar associada a alguma doença”, aponta a ginecologista Gabriela Pravatta Rezende, membro da Comissão de Ginecologia Endócrina da Febrasgo.
Sintomas estão associados à cólica menstrual
A dismenorreia causa incômodo no baixo ventre, mas não só isso. Como os músculos e os órgãos do corpo são interligados, uma dor pélvica pode ocasionar um desconforto na cabeça, nas costas e na cervical.
Para algumas pessoas, a cólica aparece um ou dois dias antes da menstruação. Porém, a maioria sente o incômodo no primeiro e segundo dia de sangramento.
Outros sintomas associados à dismenorreia são distensão abdominal e alteração do padrão evacuatório — o intestino tende a ficar mais solto. A dor causa também alterações emocionais e no sono.
Quando a cólica se torna preocupante
A cólica se torna um problema quando afeta significativamente a qualidade de vida da mulher. Alguns exemplos são dificuldade de frequentar o trabalho ou a escola, necessidade de buscar atendimento médico repetidas vezes e falta de alívio com medicamentos como antiinflamatórios e analgésicos.
Contrariando a crença popular, a adolescência não é um período em que a cólica é considerada normal. “Embora seja comum que as adolescentes experimentem ciclos menstruais irregulares devido ao amadurecimento do eixo hormonal, a presença de cólica incapacitante deve ser investigada”, diz a médica.
Causas da cólica menstrual
As cólicas incapacitantes têm as seguintes causas mais comuns:
- Endometriose. Trata-se de uma doença ginecológica crônica benigna, que se manifesta quando o endométrio se implanta fora do órgão. Estima-se que a condição esteja presente em 10 a 15% das mulheres em idade reprodutiva.
A explicação mais aceita pela ciência para a causa da endometriose é a da menstruação retrógrada, ligada a imperfeições do sistema imunológico. Durante o período menstrual, uma parte do sangue sai pelo canal de refluxo da tuba uterina e viaja até a cavidade pélvica. As células do endométrio vão junto com o líquido e se implantam onde não deveriam.
O organismo da maioria das mulheres tem um mecanismo de absorção dessas células em locais impróprios. Porém, nas pessoas com endometriose, a faxina falha. A cólica é um sintoma típico dessa doença;
- Adenomiose. Nessa condição, o endométrio invade o músculo uterino, o miométrio, o que pode causar bastante cólica e aumento do volume uterino e do sangramento.
- Aderências após procedimentos cirúrgicos. Pessoas que se submeteram a uma cesárea ou a alguma curetagem por aborto podem formar aderências dentro do útero, que causam dor.
- Dismenorreia primária. Frequente na adolescência, essa condição se caracteriza por contrações uterinas e por uma resposta inflamatória exagerada à menstruação. “É a cólica que não tem nenhuma doença estrutural do útero propriamente dita, mas está ligada a uma alteração de prostaglandina, a uma reação inflamatória aumentada”, explica Rezende.
Por algum motivo desconhecido, o útero se contrai mais do que o normal. “Às vezes a gente revira a paciente do avesso, pede um monte de exames e não encontra nada, mas ainda assim ela tem cólica. É um diagnóstico clínico que as pessoas não valorizam porque não tem nenhum achado no exame”, diz a médica.
+ Saúde: Menstruação marrom: o que pode ser?
Segundo a ginecologista, o quadro é típico de mulheres que começam a ter cólica desde a primeira menstruação, não encontraram nada em exames e respondem bem ao tratamento com anticoncepcional e com anti-inflamatório.
Como é feito o tratamento
O tratamento da cólica menstrual depende da causa subjacente. Para determinar isso, são realizados exames como ultrassom pélvico ou transvaginal, seguidos de tratamento direcionado com base no diagnóstico. Analgésico, anti-inflamatório e anticoncepcional são medicamentos utilizados. Em alguns casos, pode-se recomendar cirurgia.
Adotar um estilo de vida saudável, incluindo atividade física regular, alimentação equilibrada, sem tabagismo e sem consumo excessivo de álcool são medidas que ajudam a reduzir a resposta inflamatória do corpo e, consequentemente, aliviar a cólica menstrual.









