Uso de testosterona é perigoso para mulheres e quase nunca deve ser feito. Entenda o motivo
Alguns médicos receitam o hormônio para tratar diversas queixas das pacientes, da queda na libido a sintomas do climatério. Os riscos associados à substância, no entanto, costumam ser maiores do que os benefícios
Uma rápida busca na internet e nas redes sociais aponta uma série de benefícios associados ao uso de testosterona em mulheres. Médicos, clínicas e influenciadores propagam que a reposição do hormônio auxilia na perda de peso, melhora o humor, aumenta a libido e ganho de massa muscular, entre outras promessas.
O que esses profissionais e estabelecimentos não contam é o que o uso da testosterona (ou “testo”, como alguns se referem à substância) não é aprovado com essas finalidades no Brasil. Além disso, os medicamentos à base do hormônio não são fiscalizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Uma das formas comuns de comercialização do hormônio é por meio de implantes, ou “chips”. “Apesar de popular, o implante é proibido por todas as entidades médicas nacionais e internacionais por falta de evidências científicas e por causa do risco de efeitos adversos”, diz a ginecologista Fabiene Vale, presidente da Comissão Nacional Especializada de Sexologia da Febrasgo e professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG.
Outras formas de utilização da substância, como a oral e a tópica, também oferecem perigos à saúde. Vale enumera que o uso de testosterona em mulheres pode causar efeitos a curto e a longo prazo como espinhas, crescimento de pelos, queda de cabelo, aumento do clitóris e alteração na voz, até mesmo de maneira irreversível. Ademais, aumenta o risco de doenças hepáticas, metabólicas e cardiovasculares — como a trombose.
Queda natural da testosterona
A testosterona é um hormônio presente em homens e, em menor quantidade, também nas mulheres. Uma parcela dos médicos divulga que a substância começa a cair com a aproximação da menopausa e, por isso, precisa ser reposta.
“Isso é mentira. A mulher tem uma diminuição fisiológica de testosterona que não gera doença. Mulher não precisa repor esse hormônio”, garante o endocrinologista Alexandre Hohl, professor de endocrinologia e metabologia da Universidade Federal de Santa Catarina.
Na última semana, durante uma apresentação no Congresso Internacional de Obesidade, realizado em São Paulo, Hohl criticou as prescrições de testosterona para o público feminino. Em uma sala lotada de endocrinologistas, nutricionistas e outros profissionais de saúde, sua fala foi aplaudida. “É um problema de saúde pública”, diz ele.
Quando a testosterona deve ser reposta em mulheres
A única indicação de reposição do hormônio para mulheres aprovada por entidades médicas nacionais e internacionais é naquelas na pós-menopausa com uma condição chamada transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH).
Diversos fatores influenciam a libido feminina. Entre eles, estão condições psiquiátricas, como depressão e ansiedade, stress, baixa autoestima, consumo de alguns remédios, traumas, doenças, conflitos no relacionamento e fase da vida (tipo o puerpério), só para citar alguns exemplos.
O hormônio, segundo Hohl, representa a menor parte dessa equação. “Os profissionais de saúde mental e os sexólogos são mais importantes para tratar a queda na libido na mulher. As pessoas querem isso? Não, querem gel de testosterona”, critica o endocrinologista.
O diagnóstico de TDSH é considerado quando todas as outras causas foram descartadas. Se o distúrbio for confirmado, segundo Hohl, a recomendação é manipular uma dose baixa de testosterona por três a seis meses. Se houver benefício à paciente, pode-se usar o hormônio por até um ano.
O perigo da gestrinona
A gestrinona é um hormônio esteróide derivado da 19-nortestosterona. Ela começou a ser utilizada nos anos 1970 por via oral para tratamento de endometriose e, nos anos 1990, foi aprovada pela Anvisa para esse fim.
Nos últimos 15 anos, porém, a substância passou a ser comercializada na forma de implante e alardeada como uma ferramenta para emagrecer e ganhar massa magra. Ela ganhou o apelido de “chip da beleza”,
Em 2021, Hohl, então presidente do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), encaminhou à Anvisa um comunicado sobre o perigo do uso indiscriminado da gestrinona.
A agência proibiu propagandas médicas relacionadas ao hormônio e incluiu a substância em sua lista de anabolizantes. “Tecnicamente, a gestrinona é um anabolizante e não deveria ser usada para nenhuma situação. Se fosse, só pela boca, como comprimido, para endometriose, como ela tinha sido aprovada no passado”, afirma o endocrinologista.
Dosagem de testosterona em mulheres
Os profissionais que prescrevem testosterona para as pacientes costumam pedir a dosagem do hormônio e justificar o uso da substância diante do resultado baixo. Trata-se, de acordo com Hohl, de mais uma falácia.
“Não se deve dosar testosterona em mulheres. A única exceção é quando se suspeita de uma síndrome hiperandrogênica, ou seja, alguma doença que aumente os androgênios na mulher”, diz o médico.
Sinais dessa condição são excesso de pelos e de acne, assim como aumento do clitóris. Nesse cenário, a pessoa pode ter desde síndrome dos ovários policísticos, uma condição comum, até tumor de ovário.
“Dosar testosterona para ver função sexual em mulher é uma má prática médica. Infelizmente, isso é muito feito, mas está errado. Não existe um número mínimo que aponte uma relação com a função sexual da mulher”, afirma Hohl.
Autor de um livro sobre testosterona, o médico afirma que não é contra o hormônio: “Eu adoro a testosterona. O problema é o uso incorreto que se faz dela”.









