Especialistas explicam por que é necessário que a obesidade seja classificada como uma doença
A obesidade foi classificada como doença crônica em 2013 pela Associação Médica Americana e, posteriormente, pela OMS e outras entidades internacionais de saúde. Essa determinação é importante para que as pessoas saibam que o excesso de peso não é culpa do paciente e é preciso mais do que "fechar a boca e praticar atividade física" para emagrecer
Por Alice Arnoldi, em colaboração para a Marie Claire — de São Paulo (SP)
A classificação da obesidade como uma doença crônica aconteceu em 2013 pela Associação Médica Americana e, posteriormente, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e demais entidades médicas internacionais. Embora o marco seja recente, ele estabelece uma nova perspectiva em relação à condição: o paciente não é culpado pela enfermidade.
“Reconhecer a obesidade como uma doença crônica, assim como definido pela OMS, é crucial para combater o estigma e preconceitos que cercam a condição. A ideia equivocada de que a perda de peso se resume a ‘comer menos e se exercitar mais’ pode afastar os pacientes do tratamento necessário, dificultando a prevenção das comorbidades associadas à obesidade”, reflete a endocrinologista Mariana Arruda, diretora médica da Novo Nordisk.
A classificação da obesidade como uma doença ajuda tanto o paciente quanto a própria comunidade médica a entenderem as dificuldades biológicas, psicológicas e sociais que envolvem o paciente com obesidade e que tenta perder peso sozinho.
“Estudos sugerem que o cérebro de pessoas com obesidade pode responder de forma diferente a estímulos alimentares. Certas áreas cerebrais, como a do sistema de recompensa, parecem ser mais sensíveis a alimentos ricos em calorias, o que pode levar a desejos mais intensos. Além disso, a obesidade pode afetar a regulação da fome e saciedade, alterando os sinais entre o cérebro e o corpo”, explica a médica clínica Fabrícia Jung, especializada em nutrologia e medicina da obesidade.
Ainda de acordo com a especialista, há estudos que mostram que a inflamação de determinadas áreas cerebrais, em decorrência da obesidade, altera o sistema de motivação do paciente. Isso faz com que seja mais complexa a jornada de mudança de hábitos, um dos pilares de combate a obesidade.
Os sintomas da obesidade e o seu diagnóstico
A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no corpo, o que pode resultar em problemas de saúde secundários. Por exemplo, pessoas com a condição costumam enfrentar dificuldade em realizar atividades físicas, por fadiga e falta de energia.
As dores nas articulações, principalmente joelhos e quadris, também costumam afetar pessoas com algum grau de obesidade. Esses incômodos comprometem a mobilidade do indivíduo e até mesmo as tarefas do dia a dia.
“Pacientes com obesidade podem ainda apresentar dificuldades na regulação do açúcar no sangue, desenvolvendo resistência à insulina, um fator de risco importante para diabetes tipo 2 e outros problemas metabólicos”, detalha Arruda. O indivíduo acima do peso se torna mais suscetível à hipertensão, às doenças cardiovasculares e a alguns tipos de câncer.
Segundo Jung, a obesidade pode acarretar em dificuldade para dormir — como a apneia do sono —, e prejuízos na autoestima da pessoa, fragilizando sua saúde mental e a tornando mais suscetível a transtornos psicológicos, como depressão e ansiedade.
O diagnóstico da obesidade deve ser feito por meio de recursos para além da análise física do paciente, uma vez que esse olhar pode ser gordofóbico, pautado na pressão social e supondo uma situação que não é verdadeira. Sendo assim, aspectos quantitativos como índice de massa corpórea (IMC) e o percentual de gordura são fundamentais nesse processo.
“Só que o IMC tem suas limitações. Ele não leva em conta fatores importantes, como os riscos hereditários associados a doenças relacionadas à obesidade, como a síndrome metabólica, além de fatores ambientais e de estilo de vida que podem influenciar o desenvolvimento de doenças crônicas. Por essa razão, a relação entre as comorbidades associadas se torna um parâmetro para entender quando o excesso de peso se torna uma preocupação, ajudando a orientar as decisões sobre tratamento e manejo”, esclarece Arruda.
Os possíveis tratamentos para a obesidade
A intervenção em relação à obesidade evoluiu positivamente. O caminho a ser trilhado por cada paciente deve ser individualizado, respeitando seus limites e não o deixando ser vítima de mais preconceito por ser uma pessoa com a doença.
O tratamento para a condição é multifatorial, ou seja, combina recursos para que o paciente consiga emagrecer de forma saudável e, mais do que isso: manter os quilos perdidos.
Para isso, a mudança no estilo de vida é inevitável. É preciso que a pessoa tenha acompanhamento nutricional e pratique atividade física. Só que os dois recursos precisam ser colocados em prática aos poucos, sem ser de forma restritiva, para que o organismo se acostume com as mudanças gradativamente.
O acompanhamento psicológico mostra-se fundamental para isso. Segundo Jung, é por meio da terapia que o paciente aprende o que é sentir fome, estar saciado, como manejar as emoções para não descontá-las na alimentação e entre outras lições para manter um vínculo saudável com a comida.
Junto com as mudanças de estilo de vida, o paciente pode precisar de fármacos que controlam o apetite e/ou trabalham na absorção de gorduras e/ou açúcares no organismo.
Vale pontuar que recorrer ao medicamento não significa que a pessoa não está emagrecendo da forma correta ou que, inevitavelmente, ela voltará ao peso de antes ao parar com o remédio. Esses pensamentos refletem, mais uma vez, a ideia de que a pessoa com obesidade engordou porque quis. E, já que foi um descuido, ela tem que sofrer para emagrecer. Esse pensamento beira a crueldade.
Jung cita ainda dispositivos endoscópicos que aumentam a saciedade e diminuem a ingesta alimentar, além da cirurgia bariátrica. “Em casos mais graves, ela pode ser uma opção efetiva para reduzir o estômago e ajudar no controle de peso a longo prazo”, detalha a médica clínica. O acompanhamento do paciente, neste caso, é ainda mais primordial para ajudá-lo a prevenir o reganho dos quilos eliminados.
Por que há mais mulheres com obesidade do que homens?
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, 62,6% das mulheres brasileiras têm obesidade, contrapondo 57,5% dos homens e há uma explicação médica para isso.
“Há uma combinação de fatores biológicos, hormonais e sociais. Durante a menopausa, por exemplo, as variações dos hormônios podem levar a um redirecionamento da distribuição da gordura corporal, resultando em um aumento na parte abdominal. Essa mudança não apenas contribui para o ganho de peso, mas também pode agravar outras disfunções de saúde, destacando a conexão entre múltiplos aspectos da saúde feminina”, explica Arruda.
Jung completa que questões culturais e de gênero influenciam os padrões de comportamento alimentar, o que acarreta em uma maior vulnerabilidade das mulheres. “O stress e a pressão estética também são fatores que afetam mais o público feminino, contribuindo para o quadro”, completa.









