Saúde
Por
Marcella Centofanti
, em colaboração para Marie Claire — de São Paulo (SP)

O congelamento de óvulos está na moda. De 2020 para cá, foram feitos 13.519 ciclos do procedimento em mulheres com menos de 35 anos e 32.832 naquelas acima dessa idade. O dado é do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), ferramenta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para monitorar a reprodução assistida no país.

A tecnologia surgiu como uma aliada para mulheres que vão fazer tratamento de câncer ou têm alguma condição que compromete a fertilidade. Nos últimos anos, no entanto, foi abraçada por pessoas que pretendem adiar a maternidade.

Enquanto o número de filhos por mulher cai no Brasil, ele cresce entre as mães de 40 e 49 anos. Entre 2018 e 2022, o número de bebês paridos por pessoas nessa faixa etária saltou de 90,9 mil para 106,1 mil. O dado é da terceira edição do estudo Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O problema é que, quanto mais avançada a idade da mãe, mais difícil engravidar e maior o risco de abortos e de síndromes fetais. Aos 18 anos, a probabilidade de ter um filho com síndrome de Down, por exemplo, é de 1 para 1.700. Aos 40, sobe para 1 em 100. Enquanto a média de abortamentos até 20 semanas de gestação para todas as faixas etárias é de 10 a 15%, no recorte acima de 40 anos sobe para 25%.

O congelamento de óvulos seria uma saída para driblar esse cenário e, assim, aumentar a chance de uma gravidez. O procedimento é feito em algumas etapas. A primeira consiste na aplicação subcutânea de hormônios em doses altas para estimular os ovários a produzirem mais óvulos.

A partir do segundo ou terceiro dia da menstruação, a mulher se aplica uma injeção diariamente por nove ou dez dias. Nesse período, ela faz exames de ultrassom transvaginal a cada dois ou três dias para o médico acompanhar o desenvolvimento dos folículos que darão origem aos gametas femininos. Catorze ou quinze dias após a menstruação, é feita a coleta dos óvulos por via vaginal, sem a necessidade de cortes, com sedação.

Confira os prós e contras desse procedimento.

Motivos para congelar

Preserva óvulos com mais qualidade

A mulher nasce com todos os óvulos que terá ao longo de sua vida. Com o passar dos anos, a quantidade e a qualidade dos gametas femininos diminui. O congelamento poderia ajudar uma pessoa com, digamos, 40 anos, tentar engravidar com os óvulos preservados anos antes, aumentando a chance de concepção e a probabilidade de um bebê com saúde.

Aumenta a flexibilidade no planejamento familiar

Muitas pessoas que querem ter filhos se sentem com a faca no pescoço conforme o tempo passa e o relógio biológico corre. Congelar os óvulos seria uma forma de paralisar o tempo e aumentar a chance de concepção no futuro. Assim, a mulher ganharia alguns anos para se dedicar à carreira, encontrar uma parceria ou amadurecer a ideia, caso ela não tenha opinião formada sobre a maternidade.

Diminui o risco de arrependimentos no futuro

Algumas mulheres sabem desde cedo que ter filhos é o seu maior sonho. Mas nem todas são assim. Para aquelas que estão em dúvida, o congelamento de óvulos aumenta o prazo para fazer essa escolha com calma, sem se preocupar com a queda da fertilidade com o passar dos anos.

“A principal vantagem é manter a perspectiva de uma gravidez no futuro, mesmo que algumas mulheres não usem os óvulos e outras engravidem naturalmente no meio do caminho. O que eu mais escuto das pacientes é que elas se sentem tranquilas [depois do congelamento]”, afirma a ginecologista e obstetra Cláudia Gomes Padilla, especialista em reprodução assistida e co-diretora médica do Grupo Huntington.

Independência e liberdade

O controle e a independência sobre a própria capacidade reprodutiva permitem que uma pessoa escolha tanto o momento ideal para gestar quanto a modalidade mais adequada ao seu estilo de vida. Algumas mulheres podem decidir gerar um embrião com os gametas de um parceiro ou recorrer à produção independente com o apoio de bancos de sêmen. Mesmo que essa possibilidade não seja um desejo imediato, ela pode se tornar relevante no futuro, oferecendo maior liberdade de escolha.

Motivos para não congelar

Não há garantia de gravidez no futuro

No processo de congelamento é possível saber a quantidade de óvulos, mas não a qualidade deles. Somente quando esses óvulos forem inseminados com espermatozoides e transformados em embriões será possível determinar se eles são viáveis ou não.

“Não existe garantia de 100% [de gravidez]. Obviamente, quanto mais óvulos e mais jovem a mulher, maior a probabilidade de sucesso”, diz Padilla. “Existem as questões genéticas. Conforme a gente envelhece, os óvulos adquirem erros genéticos que só podem ser detectados em um estudo do embrião.”

A médica calcula que, se uma mulher de até 35 anos congelar 15 óvulos, ela pode ter de 85 a 90% de chance de uma gravidez no futuro. Já uma de 40 anos precisaria de um estoque de pelo menos 30 gametas para obter a mesma chance — para conseguir tudo isso, porém, essa mulher provavelmente precisaria de vários ciclos de congelamento.

É caro e inviável para a maioria das brasileiras

O procedimento custa, em média, 20 mil reais, incluindo consultas médicas, exames, remédios e a coleta em si. Essas são as despesas por ciclo. Quanto mais avançada a idade da pessoa, provavelmente maior será o número de rodadas necessárias para aumentar o estoque de óvulos e, assim, a chance de gravidez no futuro.

Além disso, a pessoa terá de pagar uma taxa de manutenção para guardar os óvulos, que gira em torno de 1,3 mil reais por ano. Depois de tudo, virão os gastos com os ciclos de fertilização in vitro, ao redor de 15 mil reais cada um.

Ou seja, a conta final chega a 40 mil, 60 mil, 80 mil reais ou mais. O montante é fora da realidade para a maioria das brasileiras.

Tem efeitos colaterais e riscos

Os hormônios aplicados no corpo para estimular os ovários a produzirem óvulos podem desencadear uma condição chamada síndrome de hiperestimulação ovariana, caracterizada por uma resposta exagerada do órgão aos remédios. A pessoa pode ter sinais e sintomas como inchaço, acúmulo de líquido no abdômen e dor.

Outra complicação é a torção do ovário. O órgão aumenta de tamanho em razão do maior número de óvulos e pode torcer sobre o próprio eixo, causando dor. Para reverter o quadro muitas vezes é necessário uma cirurgia.

Além disso, na punção feita nos ovários para coletar os óvulos causa um coágulo de sangue dentro do folículo. “Em alguns casos, esses coágulos podem se romper e causar sangramento dentro do abdômen, que precisa ser cauterizado”, aponta Padilla.

A médica afirma, porém, que o risco de intercorrências é baixo: “Essas complicações são raras e acontecem em menos de 1% dos casos”.

Pode ser desgastante psicológica e emocionalmente

Mesmo que a pessoa não tenha efeitos colaterais físicos, ela pode encarar desafios psicológicos e emocionais. Algumas mulheres se culpam por adiar a maternidade, enquanto outras temem não encontrar uma parceria para realizar esse sonho.

“Nem sempre é tranquilo tomar uma decisão dessas. Às vezes tem um conflito interno nesse processo, não só para as mulheres que têm certeza de querem ser mães, como para as que não sabem se desejam filhos”, diz Padilla. “O mais importante é buscar informação de qualidade sobre o procedimento.”

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