Acromegalia: ‘Meus pés e mãos cresceram, meu corpo inchou e eu sentia dores de cabeça intensas’
A cuidadora de idosos Beatriz Reis, de 45 anos, descobriu ter uma doença rara causada por um tumor na hipófise. Com remédio e cirurgia, seu quadro se estabilizou
Após um divórcio, a cuidadora de idosos Beatriz Reis, de 45 anos, descobriu que tinha diabetes. Na consulta com o médico, relatou que não estava conseguindo calçar os sapatos, porque os pés estavam inchados, e que as pulseiras não passavam mais pelas mãos.
Essas informações foram a deixa para o profissional de saúde suspeitar de uma condição rara: acromegalia. A doença atinge de 2,8 a 13,7 casos para cada 100.000 e acomete mulheres e homens igualmente.
Trata-se de uma condição causada por excesso de hormônio do crescimento, conhecido por sua sigla em inglês, GH (growth hormone). Em 99% das vezes, o quadro está associado a um tumor dentro da hipófise, uma glândula localizada na base do cérebro.
“São tumores esporádicos que algumas vezes aparecem por causa de uma síndrome genética, mas nem sempre”, afirma a endocrinologista Ana Beatriz Winter, professora associada de endocrinologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
Um exame de ressonância magnética da sela túrcica comprovou que Reis, de fato, tinha um tumor naquela região cerebral. No caso de Reis, ninguém da família manifestou a condição, só ela. O diagnóstico, ocorrido há cerca de 14 anos, ajudou a esclarecer porque Reis tinha fortes dores de cabeça e também diabetes, pois o hormônio do crescimento tem efeito contrário ao da insulina e aumenta a glicose no sangue.
A cuidadora de idosos, que mora em São Gonçalo (RJ), não sabe dizer desde quando sente sintomas relacionados à acromegalia. Ela já havia percebido que o número de seu sapato, que na adolescência era 39 anos, havia pulado para 42. No entanto, por ser uma mulher grande, de 1,80 metro, achava aquele crescimento normal.
Com injeções de octreotida, pés e mãos pararam de aumentar, o corpo desinchou e as dores de cabeça diminuíram. Uma cirurgia retirou a maior parte do tumor e, hoje, Reis controla a doença com injeções de acetato de lanreotida, sem manifestar sintomas. “Hoje não sinto mais nada, mas eu sou muito pontual com o meu tratamento”, diz.
Acromegalia: sintomas e tratamento
Na maioria dos casos, a acromegalia é diagnosticada por meio das alterações da fisionomia, como aumento do tamanho de mãos, pés, língua, nariz, orelha e testa. Algumas pessoas descobrem o quadro por acaso, a partir de um exame de imagem na cabeça que mostra o tumor na hipófise.
“A doença costuma ser diagnosticada em adultos. Quando aparece mais cedo, em uma criança ou adolescente, o que é raro, chama gigantismo. São aquelas pessoas com 2,40 metros que aparecem no Guinness Book”, diz Winter. “O adulto não cresce em estatura, mas aumenta nas extremidades.”
Além das alterações fisionômicas, as pessoas com acromegalia podem ter doenças cardiovasculares, hipertensão, hipertrofia ventricular, arritmia, dores articulares, problemas bucomaxilofaciais como o prognatismo (queixo projetado para a frente), síndrome do túnel do carpo e câncer, principalmente no intestino.
É comum que os pacientes tratem as consequências da enfermidade no dentista ou no ortopedista, por exemplo, antes de descobrir a causa dos sinais e sintomas. Segundo projeções do Ministério da Saúde, o quadro leva de 7 a 10 anos para ser diagnosticado.
As opções de tratamento reúnem cirurgia na hipófise para retirada do tumor e terapias medicamentosas com os chamados análogos da somatostatina. Em alguns casos usa-se radioterapia.
Segundo Winter, a falta de tratamento está associada a um aumento da mortalidade de 1,7 vezes em relação à população normal.









