Burnout: por que a síndrome é mais comum em mulheres do que em homens?
Fenômeno ligado ao stress crônico no local de trabalho se caracteriza por sensação de exaustão, negativismo e perda da eficácia
O burnout é definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma síndrome “resultante do stress crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso”. O fenômeno atinge, principalmente, mulheres.
Segundo a pesquisa Women in the Workplace 2021, feita pela consultoria McKinsey & Company e pela organização LeanIn, 42% delas relataram sintomas do fenômeno, em comparação a 35% dos homens.
No Brasil, um levantamento da Folha de S.Paulo com dados do Ministério da Saúde mostrou que, de 2022 para 2023, os atendimentos relacionados a transtornos mentais associados ao trabalho cresceram 54% entre as mulheres, enquanto para os homens o aumento foi de 12%.
Sintomas da síndrome
O burnout se caracteriza por três pilares. O primeiro é o sensação de exaustão ou esgotamento de energia. A pessoa tira férias, viaja no feriado e, mesmo assim, não consegue melhorar. O segundo é o negativismo. O indivíduo sente que nunca vai conseguir sair daquele cenário em que se encontra e perde a empatia. Esse sintoma pode ser confundido com a depressão.
Por fim, a pessoa tem a eficácia profissional comprometida. Por perceber que não está rendendo tanto, ela se cobra e trabalha mais horas para compensar a queda de desempenho.
Motivos do burnout em mulheres
A multiplicidade de papéis é um dos principais fatores que tornam o sexo feminino mais vulnerável ao burnout.
“Hoje, é raro encontrar uma mulher que desempenhe apenas um papel. Ela é mãe, esposa, profissional, filha. Muitas vezes está cuidando de pais idosos, filhos e da casa, além do trabalho", explica Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association (ISMA-BR) e psicóloga da Clínica de Stress e Biofeedback, em Porto Alegre (RS).
Essa realidade é intensificada pela cobrança social de perfeição. “Algumas mulheres querem fazer tudo 100%. Esse perfeccionismo é irracional, mas muitas acabam se cobrando por isso, especialmente aquelas com baixa autoestima”, acrescenta a especialista. A busca incessante por atender expectativas irreais alimenta o stress crônico e a sensação de incapacidade, pilares da síndrome.
A pressão do ambiente de trabalho
Outra questão destacada é a percepção de que, para obter o mesmo reconhecimento dos homens, as mulheres precisam trabalhar mais. Esse cenário de desigualdade é agravado pela dificuldade em delegar tarefas, seja no trabalho ou na vida pessoal.
“Quanto mais características como perfeccionismo, multiplicidade de papéis, dificuldade de delegar e necessidade de provar competência a mulher tiver, maior a chance de desenvolver burnout. Com os quatro fatores juntos, a probabilidade ultrapassa 90%”, aponta Rossi.
A dinâmica é corroborada pelos dados de 2023, de acordo com o levantamento da Folha de S.Paulo. Houve 393 atendimentos ambulatoriais relacionados ao burnout, sendo 282 em mulheres e 111 em homens.
O fato de que o sexo feminino costuma buscar mais ajuda profissional do que o masculino também reflete uma maior conscientização sobre o problema, mas não elimina as desigualdades que perpetuam o fenômeno.
Tratamento do burnout
Embora o afastamento do trabalho seja uma das estratégias para lidar com o burnout, ele não é suficiente por si só. “A pessoa precisa de um plano de ação que pode incluir medicamentos, terapia e, sobretudo, apoio. Se a família ou o ambiente de trabalho for hostil, é possível que ela quebre de novo ao retornar [à atividade profissional]”, alerta Rossi.
O diagnóstico correto também é essencial. Segundo a psicóloga, muitas pessoas se autodiagnosticam erroneamente com a síndrome, confundindo o esgotamento passageiro com o stress crônico que caracteriza o quadro.









