Depressão de alto funcionamento: você pode estar deprimida e ainda trabalhar e sair normalmente
O transtorno psicológico é mais comum entre mulheres do que homens. Fatores sociais evidenciam bastante o porquê: figuras femininas são vistas como quem tem que dar conta de tudo e, caso demonstrem não estarem bem, são tachadas de fracas
Por Alice Arnoldi, em colaboração para a Marie Claire — de São Paulo (SP)
O desânimo diante de atividades básicas e necessárias do dia a dia costuma ser um dos sintomas mais comuns de quem está deprimido. No entanto, o cenário é completamente o oposto quando se fala da depressão de alto funcionamento.
“Na depressão de alto funcionamento, diferentemente da comum, não se vê o paciente incapacitado para atividades rotineiras. É um indivíduo que consegue trabalhar e ter inclusive atividades de lazer, sem que se note que ele está deprimido”, explica a psiquiatra Vanessa Fávaro, do IPq - Instituto de Psiquiatria do HC.
Entende-se, então, que a pessoa não apresenta os sintomas associados à funcionalidade perante a sociedade. Ainda assim, isso não anula o fato de que ela sente internamente as dores causadas pela depressão.
A pessoa com depressão de alto funcionamento costuma ser cansada/sem energia, pessimista em relação ao futuro e arrependida sobre o passado, com a sensação de ter feito tudo errado, além de se sentir profundamente triste e sem prazer na vida. Logo, seu agir social nada mais é do que estar no automático.
Segundo a psiquiatra Giovanna Braga Quinet de Andrade, da Clínica Revitalis, o paciente com depressão de alto funcionamento ainda pode apresentar irritabilidade, baixa autoestima, sentimento de inutilidade, dificuldade de concentração, e alterações no apetite e sono.
Depressão de alto rendimento e a pressão social enfrentada por mulheres
“Estudos mostram que a depressão, incluindo a de alto funcionamento, é mais prevalente entre mulheres. Fatores hormonais, biológicos e sociais desempenham um papel significativo nessa diferença”, pontua Andrade. Segundo o relatório Esgotada, do Lab Think Olga 2023, 45% das mulheres brasileiras têm ansiedade, depressão ou algum tipo de transtorno psicológico.
Isso significa que, por exemplo, as flutuações hormonais que a mulher enfrenta ao longo da vida — como no período menstrual, gravidez, pós-parto e menopausa — contribui para o desenvolvimento do transtorno psicológico.
Do ponto de vista biológico, o histórico familiar de depressão é um fator importante para o desenvolvimento da doença, uma vez que a disposição genética está diretamente ligada à efetividade do gatilho em desencadear o quadro.
Para além disso, há mutações genéticas associadas à depressão grave que ocorrem apenas em mulheres.
Já os fatores sociais explicam ainda mais a prevalência da depressão de alto funcionamento entre figuras femininas.
De acordo com o Censo Demográfico Brasileiro 2022, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, o que corresponde a 72.522.372 unidades domésticas. Em 2010, a taxa era de 38,7%.
Tratamento para depressão de alto funcionamento
Fávaro explica que a intervenção de um paciente com depressão de alto funcionamento é semelhante, do ponto de vista medicamentoso, a quem tem a versão comum da doença.
Já em relação à psicoterapia, é importante que o psicólogo dê atenção redobrada ao porquê do paciente ter dificuldade de buscar ajuda, evitando demonstrar que não está bem, e investigue questões relacionadas com auto cobrança e perfeccionismo.
Prática de exercícios físicos e alimentação equilibrada também fazem parte da recuperação de alguém diagnosticado com depressão de alto funcionamento.









