Pesquisa brasileira pode explicar por que mulheres têm mais Alzheimer do que homens
Cientistas descobriram que os níveis de cartinina, uma molécula essencial para o metabolismo celular, sofrem uma queda em mulheres com comprometimento cognitivo
As mulheres têm duas vezes mais probabilidade de desenvolver Alzheimer do que os homens. Mesmo assim, só faz pouco tempo que a ciência decidiu investigar o porquê. Um estudo recente conduzido por pesquisadores brasileiros e estrangeiros aponta para a carnitina, uma molécula essencial para o metabolismo celular, como uma possível explicação para a diferença entre os sexos.
Sob a liderança de cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com colaborações internacionais, o estudo analisou amostras de sangue de pacientes com Alzheimer no Brasil e nos Estados Unidos. O trabalho foi apoiado financeiramente pelo Instituto Serrapilheira e publicado no periódico Molecular Psychiatry.
Os resultados foram surpreendentes: enquanto os níveis de carnitina permanecem estáveis em homens, eles sofrem uma queda significativa em mulheres com comprometimento cognitivo.
A carnitina é crucial para o funcionamento das mitocôndrias, que atuam como uma espécie de usinas de energia das células. A molécula transporta ácidos graxos para serem convertidos em energia, desempenhando um papel vital no metabolismo celular e na saúde cerebral.
“A relação entre a queda da carnitina e o declínio cognitivo em mulheres é algo que precisamos explorar mais, mas os resultados iniciais indicam que isso pode ser um fator importante na maior vulnerabilidade feminina ao Alzheimer”, afirma Mychael Lourenço, neurocientista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Maior risco nas mulheres
Algumas hipóteses já foram aventadas sobre a maior prevalência feminina ante o tipo mais comum de demência. Entre elas estão as flutuações hormonais que ocorrem na menopausa.
Um dos principais sintomas associados ao fim da vida reprodutiva é o brain fog, ou névoa cerebral. Trata-se de uma sensação de confusão mental, falha de memória e falta de concentração. Embora esse quadro temporário não seja indicativo de demência, mudanças metabólicas durante o climatério podem criar condições que, anos depois, aumentam o risco de comprometimento cognitivo progressivo.
“É claro que nem todas as mulheres terão declínio cognitivo após a menopausa, mas há uma vulnerabilidade específica que precisamos compreender melhor”, ressalta o pesquisador.
Outras possíveis explicações sobre o predomínio do Alzheimer no sexo feminino são as desigualdades socioculturais, a sobrecarga de trabalho e a o fato de que as queixas das mulheres não são tão valorizadas pela medicina. “Mas essas explicações não são muito conclusivas”, afirma Lourenço.
Os níveis reduzidos de carnitina no sangue podem oferecer uma explicação biológica mais concreta para essa disparidade.
Diagnóstico e tratamento personalizados
Além de apontar novas direções para entender o Alzheimer, a pesquisa sugere que medir os níveis de carnitina pode melhorar a precisão do diagnóstico. Hoje, o laudo da doença depende de critérios clínicos, associados à identificação de biomarcadores como as proteínas beta-amiloides.
Outro ponto de destaque é a possibilidade de tratamentos diferenciados entre os sexos. “As descobertas podem levar a medidas e intervenções específicas para mulheres. Talvez a gente não precise tratar a mulher com Alzheimer da mesma forma como a gente trata o homem”, diz Lourenço.
Apesar dos avanços, o estudo é apenas o início de uma investigação mais ampla. “Não sabemos exatamente por que a carnitina cai em mulheres ou quando isso ocorre. Precisamos estudar mais casos e populações diferentes para confirmar os achados e entender as relações causais”, aponta o pesquisador.
A pesquisa também reflete um movimento crescente na ciência: estudar as diferenças entre os sexos de forma mais aprofundada e valorizar as particularidades biológicas das mulheres. Por muito tempo, modelos masculinos foram o padrão em estudos, mas uma nova geração de cientistas está começando a se debruçar sobre esse tema.









