'Fiz uma aula de acroyoga e fiquei paraplégica’
A fotógrafa Lindalva Firme Guedes sofreu uma queda de cerca de 1 metro em uma das posturas da atividade e fraturou duas vértebras do pescoço. Com muita fisioterapia, já recuperou alguns movimentos dos braços e das pernas
A fotógrafa Lindalva Firme Guedes era praticante de yoga há oito anos e pretendia se tornar professora da modalidade quando se inscreveu em uma oficina de acroyoga, uma versão acrobática da atividade de origem indiana. Durante a aula experimental, em janeiro de 2024, no entanto, Guedes sofreu uma queda de cerca de 1 metro em uma das posturas e ficou paraplégica.
Ela, que tem 33 anos, conta que confiou na professora que já conhecia e não se preocupou em pesquisar mais sobre os riscos dessa modalidade. Durante a atividade, foi orientada a fazer uma postura avançada sem que houvesse um "anjo" — pessoa que garante a segurança do praticante em caso de desequilíbrio. Além disso, o local não possuía tatames para absorver impactos.
Quando sua colega, também inexperiente, não conseguiu sustentá-la corretamente, a fotógrafa caiu de forma brusca, batendo o pescoço no chão. Na queda, ela sentiu um formigamento intenso no corpo todo e percebeu que não conseguia mais se mexer do pescoço para baixo.
Diagnóstico de paraplegia
Levada de ambulância para um hospital de referência, Guedes foi diagnosticada com fraturas nas vértebras C5 e C6. Sua lesão medular resultou, segundo ela, em tetraparesia, condição que causa fraqueza nos membros, e paraplegia, que afeta o movimento dos membros inferiores. Ela foi operada, ficou 12 dias internada e saiu do hospital sem conseguir mexer as pernas nem controlar os braços, e com dificuldade para respirar.
Desde então, a fotógrafa se dedica intensamente à reabilitação, numa rotina que inclui três horas diárias de fisioterapia com Fran Romanini, uma profissional especializada em lesão medular. “Se não fosse ela, eu não estaria conseguindo fazer os avanços que eu estou”, elogia a fotógrafa, moradora de Domingo Martins (ES).
Os desafios da recuperação
A transformação abrupta de uma vida ativa para a dependência total foi um choque emocional.
“Não mexer nada, nem um membro, é desesperador. Eu tive que ter acompanhamento de psiquiatra e psicólogo, porque entrei quase em parafuso. Eu tinha uma vida completamente ativa; praticava esporte, fazia yoga e cuidava da minha casa e da minha mãe. Tive que me expor em rede social para pedir ajuda financeira, porque as responsáveis pela oficina não se colocaram à disposição para pagar nada”, desabafa Guedes, que levou o caso à Justiça.
Alerta para quem pratica atividades de risco
Apesar de todas as dificuldades, a fotógrafa segue lutando. Ela compartilha sua história nas redes sociais (@Lindalva.firme no TikTok e @Todosporlindalva no Instagram) para conscientizar outras pessoas sobre a importância de verificar a segurança em qualquer prática esportiva.
"Pesquisem sobre os profissionais, verifiquem se têm certificação, perguntem sobre os equipamentos de segurança. Se não se sentirem seguras, falem", alerta.
Gerar conteúdo sobre a sua recuperação também é uma forma de ajudar a custear as despesas do tratamento. Seu PIX é lindalvafirme@gmail.com.
A fotógrafa ainda não sabe se conseguirá voltar a andar plenamente, mas se agarra às pequenas conquistas diárias. "Eu não estou me rendendo. Tem dias muito difíceis, mas sigo na luta", diz.
O impacto das lesões medulares
A medula espinhal, uma estrutura localizada dentro das vértebras da coluna, pode ser considerada uma continuação do cérebro. “Quando a gente fala em sistema nervoso central, está falando de cérebro e medula; é uma continuidade”, diz Ana Rita Cortelli Donati, fisiatra da AACD e presidente da Sociedade Paulista de Medicina Física e Reabilitação.
Donati compara a medula a uma estrutura cortada por várias rodovias. Cada caminho conduz uma informação: movimento, força, sensibilidade tátil, sensibilidade dolorosa, pressão arterial, temperatura, vibração e controle de fezes e urina, entre outras funções. Por isso, um machucado na região pode afetar o corpo de várias maneiras.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde de 2021, os mais recentes disponíveis, existem cerca de 15 milhões de pessoas com lesão medular no mundo. O número, de acordo com a médica, é certamente maior, porque muitos casos ocorrem em áreas de conflito e não são notificados.
Tipos de lesões na medula
As lesões medulares são classificadas de acordo com as causas: traumáticas e não-traumáticas. Fazem parte do segundo grupo aquelas decorrentes de enfermidades, como tumores, artrose, bico de papagaio e hérnia de disco. “Por isso, se a pessoa tem dor na coluna ou na cervical, tem que investigar”, aponta Donati. Doenças infecciosas, a exemplo da tuberculose, e autoimunes também podem desencadear a condição.
Mas o motivo mais frequente, presente em 80 a 90% dos casos, é o trauma, como acidentes de trânsito, mergulho em águas rasas e quedas de telhados ou de andaimes. Na população idosa, são comuns acidentes domésticos, como tropeçar em um tapete.
As vítimas em geral são homens adultos com menos de 30 anos, ou seja, em idade produtiva.
Donati explica que as lesões medulares dividem-se em cinco níveis, de A até E, sendo A as mais graves e E as menos. Os casos são classificados a partir de uma avaliação neurológica que checa a força e a sensibilidade da pessoa nos braços, pernas e tronco, além da região genital e anal. Exames de imagem por tomografia e ressonância magnética avaliam a estrutura óssea e a medula, respectivamente.
“Aí você consegue ter uma noção se o paciente tem uma lesão de base completa ou incompleta. Se é incompleta, ele tem um prognóstico melhor, porque nem tudo está perdido. Se for completa, o desafio é maior”, explica.
Falta de acesso a tratamento
A médica da AACD aponta que o Brasil tem hoje 500 mil médicos, mas só cerca de mil fisiatras, profissionais responsáveis por reabilitar pacientes, sendo que 62% deles atuam na região sudeste do país.









