'Tive um AVC aos 21 anos na academia após uma forte dor de cabeça'
A psicóloga e neuropsicóloga Leticia Thamara, de 24 anos, ficou dependende de cadeiras de rodas, usava fralda e precisava de ajuda até mesmo para sentar após o acidente vascular cerebral. Três anos após o evento, ela recuperou sua autonomia e dedica a vida a cuidar de outras pessoas com desafios neurológicos
Por Alice Arnoldi, em colaboração para a Marie Claire — de São Paulo (SP)
A psicóloga e neuropsicóloga Leticia Thamara, de 24 anos, convive com as sequelas de um acidente vascular cerebral há três anos. Ela estava na academia quando sentiu uma forte dor de cabeça. Seu personal trainer pensou que era apenas uma desculpa para a aluna não treinar, mas logo identificou o AVC pelo método SAMU. Atualmente, o foco de Thamara é atender pacientes com desafios neurológicos.
O episódio aconteceu em fevereiro de 2022 em Cascavel (PR), onde Thamara mora. A psicóloga relata que estava treinando quando a dor de cabeça começou. O incômodo foi piorando conforme ela fazia uma série de agachamentos. Ao terminar o exercício, sentou para descansar.
“Eu fui beber água e ela caiu toda da minha boca. Minha amiga veio até mim e percebeu que meu rosto estava torto. Ela conta que eu falei que meu corpo não estava respondendo”, relata Thamara.
A última lembrança da psicóloga é a tentativa de tomar água. O restante foi sua amiga que contou, como o teste do SAMU feito pelo seu personal:
- S - Sorrir: para ver se há alguma falha de movimento;
- A - Abraçar: para checar se a pessoa levanta os braços normalmente e se não há fraqueza muscular;
- M - Música: pedir para o indivíduo cantar uma canção para verificar como está sua pronúncia;
- U - Urgência: levar a pessoa para o pronto-atendimento caso haja um dos três indicativos.
“O personal pediu para eu erguer o braço direito, eu consegui. O esquerdo não. Já não andava mais também. Saí carregada para o hospital”, relata. Thamara ficou hospitalizada por dez dias, sendo dois na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e oito no quarto.
As sequelas do AVC e os dias atuais
O período após o acidente vascular cerebral foi bastante desafiador para a psicóloga, pois ela ficou dependente até mesmo para fazer o básico do dia a dia. "Fiquei na cadeira de rodas, usando fralda. Não comia e nem sentava sozinha", lembra.
Na época, ela não sabia o que significava ter um AVC. Ela pensava que, após uma ou duas semanas, sua vida voltaria a ser como era. Quando ela entendeu que o processo não era simples como imaginava, a jornada ficou mais desafiadora.
"Depois de uma lesão neurológica, tudo muda. Hoje, eu sei que nunca vou voltar a ser quem eu era. Mas eu me encontrei nesse processo de reconstruir minha identidade, meus propósitos e de entender que existe vida após o AVC", reflete.
Thamara estava no quarto ano da faculdade de psicologia quando teve o acidente vascular cerebral e pausou os estudos por um semestre. Após concluir a graduação e fazer uma pós em neuropsicologia, a jovem passou a atender pacientes com desafios neurológicos.
"Além da bagagem teórica, tenho a vivência. Uso uma órtese para andar com mais segurança, meu braço e minha mão ainda não têm movimentos funcionais, minha sensibilidade voltou 70% e tenho sequelas cognitivas, como dificuldade de atenção, concentração e um pouco da memória", pontua.
A ideia de trazer sua história para a internet partiu da primeira fisioterapeuta que atendeu Thamara. A especialista incentivou a jovem a desmistificar que o AVC é algo que só acontece com idosos e que é possível ter uma vida após o acidente. O retorno do público é o que faz a psicóloga seguir nas redes sociais.
O que causou o AVC?
Thamara passou um ano em acompanhamento médico para entender o que causou seu acidente vascular cerebral. "Ate que eu fiz um ecocardiograma transesofágico (ETE) e deu que eu tinha forame oval patente", relata.
O forame oval é uma abertura que existe entre os átrios do coração ainda na gestação. "Esse orifício faz parte do desenvolvimento fetal, permitindo que o sangue desvie dos pulmões, que não estão funcionando enquanto o feto ainda está no útero. Após o nascimento, o oxigênio pulmonar faz com o forame se feche completamente até os dois anos de idade. Mas, em algumas pessoas, ele permanece aberto, o que é conhecido como forame oval patente", explica a cardiologista Cristiane Zambolim, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Ainda segundo Zambolim, a FOP é uma condição que costuma ser assintomática. Isso faz com que ela seja comumente descoberta quando outras doenças são investigadas, como um AVC.
"Quem tem FOP pode sofrer AVC porque a presença do forame oval patente permite a passagem de coágulos sanguíneos do lado direito do coração para a circulação arterial sem que eles sejam filtrados pelos pulmões. Esses coágulos podem alcançar o cérebro, bloqueando uma artéria do local e levando ao acidente vascular cerebral isquêmico", detalha a cardiologista.
Quando a condição é assintomática, o tratamento envolve apenas mudanças de estilo de vida. Já quando há sintomas e risco de eventos tromboembólicos, a intervenção é medicamentosa e/ou cirúrgica.









