O que a idade da primeira menstruação diz sobre a sua saúde
Estudo inédito feito no Brasil mostra que menstruar muito cedo ou muito tarde tem impacto na saúde ao longo da vida
A idade da primeira menstruação, chamada de menarca na linguagem médica, pode trazer pistas importantes sobre a saúde futura da mulher. Dados de 7.623 brasileiras de 35 a 74 anos, analisados a partir do estudo ELSA Brasil, revelaram que tanto menstruar cedo demais quanto tarde demais está associado a riscos importantes.
A endocrinologista Flávia Rezende Tinano, doutora em endocrinologia pela USP e primeira autora da pesquisa, explica que a informação, em geral pouco valorizada nas consultas médicas, deveria ser lembrada. Se a menarca ocorreu muito cedo ou muito tarde, esse dado precisa ser levado ao médico, porque pode indicar maior risco de doenças metabólicas, cardíacas e reprodutivas.
O estudo foi apresentado no encontro anual da Sociedade de Endocrinologia, em junho, nos Estados Unidos. Os dados ainda não foram publicados.
Quando cedo é cedo ou tarde demais
Existem diferentes pontos de corte na literatura científica para definir a menarca precoce ou tardia. No estudo da USP, a precoce foi definida como aos 9 anos ou menos, e esteve relacionada à obesidade, hipertensão arterial, diabetes tipo 2, síndrome metabólica, pré-eclâmpsia e doenças cardiovasculares. Além disso, ela antecipou em cerca de dois anos a chegada da menopausa.
“Vimos que a chance de infarto é 2,5 vezes maior para quem menstruou muito cedo”, diz Tinano. Entre as causas, estão fatores genéticos, obesidade infantil, puberdade precoce não tratada e exposição a disruptores endócrinos.
Já a menarca tardia, que os pesquisadores classificaram como 16 anos ou mais, mostrou-se protetora contra a obesidade, mas aumentou a frequência de irregularidades menstruais e de doenças cardiovasculares na vida adulta.
Nessas mulheres, a chance de precisar de uma revascularização cardíaca, procedimento realizado em pessoas que sofreram infarto, foi 2,4 vezes maior. Distúrbios alimentares e desnutrição estão entre as causas possíveis da demora.
Uma tendência mundial
A idade média da menarca no Brasil foi de 12,7 anos, considerada normal. Mas a tendência global é de antecipação. “Em vários países, observamos que a menarca tem ocorrido cada vez mais cedo. A obesidade infantil, o consumo de alimentos ultraprocessados, a exposição a telas e até o estresse podem influenciar esse processo”, explica a endocrinologista.
Durante a pandemia, houve aumento de puberdade precoce, fenômeno que alguns estudos relacionam ao excesso de peso e ao tempo diante das telas.
O que cada mulher deve observar
Para Tinano, saber a idade da primeira menstruação pode mudar condutas médicas, sobretudo em termos de vigilância.
Além disso, esse histórico deve servir de alerta para as próximas gerações. “Mães que menstruaram cedo ou tarde devem observar as filhas e procurar atendimento se perceberem alterações”, recomenda a médica.









