Mulheres têm o dobro de risco de Alzheimer. E a menopausa ajuda a explicar por quê
Pesquisas mostram que não é apenas a longevidade que coloca o sexo feminino em maior risco de Alzheimer. Mudanças hormonais, fatores socioculturais e condições de saúde ao longo da vida estão entre os motivos
Estima-se que o Alzheimer afete cerca de 1,2 milhão de brasileiros, e quase dois terços deles são mulheres. Por muito tempo, acreditava-se que isso se devia apenas à maior expectativa de vida feminina. Mas novas pesquisas mostram que o risco dobrado vai além da idade. A queda do estrogênio na menopausa, apontam cientistas, provoca uma reconfiguração no metabolismo cerebral.
“Embora a idade seja, sem dúvida, um fator de risco importante, ela não explica sozinha a maior prevalência da doença em mulheres”, afirma Naiara Demnitz, pesquisadora no Centro Dinamarquês de Pesquisa em Ressonância Magnética, em Copenhagen, na Dinamarca.
Fatores socioculturais também pesam, como a escolaridade historicamente mais baixa das mulheres, que reduz a chamada reserva cognitiva. Há ainda elementos exclusivamente femininos que influenciam esse risco.
“A menopausa precoce, natural ou cirúrgica, está associada a um risco maior de comprometimento cognitivo e demência. Da mesma forma, estudos mostram que ter histórico de pré-eclâmpsia aumenta a chance de declínio cognitivo leve e de Alzheimer”, explica a pesquisadora.
A influência da menopausa
Mas qual é a relação entre menopausa e demência? O psiquiatra Lucas Mella, diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) e coordenador do Serviço de Psiquiatria Geriátrica e Neuropsiquiatria da Unicamp, esclarece que o estrogênio exerce um papel essencial no processamento de glicose, que é a principal fonte de energia do cérebro.
Com a queda desse hormônio no fim da vida reprodutiva, “o metabolismo se torna menos eficiente e o cérebro passa a usar corpos cetônicos como alternativa, o que favorece inflamação e acúmulo de beta-amiloide, marcador do Alzheimer”, segundo o médico.
Traduzindo, corpos cetônicos são moléculas produzidas quando o organismo precisa buscar energia em outras fontes além da glicose, como acontece durante o jejum prolongado. No caso do cérebro feminino após a queda do estrogênio, para gerar energia, o corpo passa a recorrer à quebra da bainha de mielina, camada que protege os neurônios, o que pode comprometer sua integridade.
Já o beta-amiloide é uma proteína naturalmente produzida pelo organismo. O problema surge quando ela se acumula de forma anormal no cérebro, formando placas que atrapalham a comunicação entre os neurônios. Esse depósito é considerado um dos principais marcadores da doença de Alzheimer, associado à inflamação e à morte celular.
Saúde mental e sono como gatilhos
A depressão, mais comum em mulheres, é outro fator de risco relevante. Ela pode ser tanto uma manifestação precoce do Alzheimer quanto uma condição independente que fragiliza o cérebro. “Episódios repetidos e prolongados de depressão, sobretudo se não tratados adequadamente, podem provocar danos cerebrais cumulativos”, aponta Mella.
Alterações do sono também merecem atenção. A insônia e outros distúrbios, frequentes no climatério, estão associados ao risco de declínio cognitivo. Dormir bem é essencial porque, durante o repouso, o cérebro elimina toxinas, incluindo as ligadas à demência.
Como prevenir o Alzheimer
Ainda não existe uma estratégia única de prevenção, mas há caminhos comprovados para reduzir riscos. A literatura científica lista fatores modificáveis como atividade física regular, controle de pressão alta e diabetes, combate ao isolamento social, redução do tabagismo e do consumo de álcool, além da correção da perda auditiva e visual.
No Brasil, um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul mostrou que lidar com dez fatores preveníveis poderia evitar ou atrasar até metade dos casos de demência no país. “Tudo o que é bom para o coração também é bom para o cérebro”, resume Demnitz.
Já a reposição hormonal pode ajudar em casos específicos, mas não deve ser considerada estratégia geral, já que não está indicada para todas as mulheres.
Estudos sugerem que o benefício da estratégia está ligado ao momento em que ela é iniciada. “Em casos selecionados, especialmente naquelas sem contraindicações, como histórico de doenças vasculares ou risco elevado de câncer de mama, a reposição pode contribuir para uma melhor trajetória cognitiva, desde que iniciada no começo da queda do estrogênio”, explica o médico.
Ciência mais inclusiva e novos caminhos
Apesar dos avanços recentes em biomarcadores e novos tratamentos para fases iniciais, ainda há muitas perguntas sem resposta. “Estamos só começando a entender, por exemplo, os efeitos da gravidez no cérebro da mãe e como isso pode influenciar o risco de demência décadas depois”, diz Demnitz.
Historicamente, pesquisas em neurociência priorizaram sujeitos masculinos. “Mulheres representam metade da população, mas menos de um sexto dos modelos animais usados em estudos são fêmeas”, aponta a pesquisadora.
Isso limita o conhecimento sobre como sexo e gênero afetam doenças. Mas essa realidade pode estar mudando. “Nos últimos dez anos, agências de financiamento de pesquisa e revistas científicas passaram a criar políticas que exigem a justificativa, e às vezes a inclusão, de ambos os sexos nas pesquisas. Esse tipo de iniciativa tem sido fundamental para tornar a ciência mais inclusiva e representativa”, celebra ela.









