‘Perdi duas trompas, um ovário e, mesmo após não ter 80% do aparelho reprodutor, engravidei naturalmente’
A gerente de vendas Thaise Algarve já era mãe das gêmeas Jade e Pérola, que foram concebidas por meio da fertilização in vitro e têm cinco anos. A caçula Cristal está com um ano e quatro meses
Por Alice Arnoldi, em colaboração para a Marie Claire — de São Paulo (SP)
A gerente de vendas Thaise Algarve, de 31 anos, perdeu uma trompa e um ovário devido à endometriose profunda. Mais tarde, quando engravidou pela primeira vez, sofreu um aborto espontâneo com complicações, o que a fez retirar a outra trompa. O sonho da maternidade se concretizou inicialmente por meio da fertilização in vitro, dando à luz gêmeas. O que a moradora de Mogi das Cruzes, São Paulo, não esperava era que, apesar de não ter 80% do aparelho reprodutor, ela engravidasse naturalmente após quatro anos do nascimento das filhas.
Algarve lembra de ter uma juventude marcada por dores abdominais, o que já era o principal sintoma da endometriose, “doença crônica inflamatória em que um tecido semelhante ao que reveste o interior do útero – o endométrio – cresce fora dele”, como explica a ginecologista Raquel Magalhães, do Hospital Nove de Julho.
Além da cólica menstrual intensa e progressiva, a endometriose causa dores na relação sexual, alterações intestinais, urinárias, cansaço e dificuldade para engravidar.
Segundo a especialista, uma mulher leva de seis a oito anos para ter o diagnóstico da endometriose confirmado. A explicação desse atraso é multifatorial, mas é um reflexo especialmente da normalização que existe da dor feminina. A gerente só descobriu o seu quadro aos 18 anos quando sofreu uma complicação.
“Um dia, eu passei mal na empresa que eu trabalhava. Fui para o hospital e, de início, achavam que era apendicite. Mas, na realidade, eu tinha endometriose em estágio bem avançado. Tive uma hemorragia praticamente generalizada. Fiquei entre a vida e a morte. Na cirurgia [para reverter o quadro], acabei perdendo a trompa e o ovário direito”, conta Algarve.
Na época, a médica já alertou a gerente que ela teria dificuldade para engravidar. ”Era meu sonho ter uma família e ali foi um choque”, lembra.
A perda da segunda trompa
Aos 22 anos, Algarve conheceu Tiago que, mais tarde, viria a ser seu marido e pai das suas filhas. Desde o início, ela explicou para o parceiro que era parcialmente estéril. Após casarem, iniciaram as tentativas de engravidar.
Depois de dois meses tentando, a gerente recebeu o positivo da gestação. “Só que comecei a passar muito mal, com cólicas. Me impressionei com as contrações muito antes do tempo”, lembra. Algarve estava passando por um aborto espontâneo.
O que ela não sabia, até então, era que estava grávida de gêmeos. Um feto ficou no útero e o outro na trompa. A suspeita só aconteceu quando o beta-HCG continuou aumentando mesmo após expelir os resíduos do embrião.
Quando Algarve usou a medicação para a retirada do feto da trompa esquerda, o órgão acabou rompendo. No entanto, omitiu o sangramento e as dores até que um médico foi avaliá-la . “Ali, já comecei um processo de depressão pós-parto e queria morrer. Fiquei em média de dez horas com hemorragia interna alastrada por todos os órgãos”, conta.
Ela foi rapidamente encaminhada para a cirurgia. Sua pressão chegou a 4/6. “Eu estava em óbito praticamente”. Após a lavagem dos órgãos, a gerente sobreviveu, mas acabou perdendo a trompa esquerda e o ovário do mesmo lado ficou bastante fragilizado. Depois do procedimento, o médico explicou que as chances de Algarve engravidar naturalmente eram praticamente inexistentes, mas havia a possibilidade dela fazer a fertilização in vitro.
“A fertilização in vitro (FIV) é uma técnica de reprodução assistida na qual o óvulo é fertilizado por um espermatozóide fora do corpo, em ambiente laboratorial”, explica a ginecologista Natália Paes, especialista em reprodução assistida da Maternidade Brasília, da Rede Américas.
A gravidez das gêmeas
Após a saída do hospital, Algarve passou primeiro por um processo de luto, em que foi preciso muito acolhimento de si própria e de quem a cerca para que ela conseguisse cogitar a fertilização in vitro.
“Então, quando eu entrei nesse processo, foi com muita fé, determinação, pensamento positivo, curada da depressão, mais saudável e tentando fazer tudo o que estava ao meu alcance para ser mãe”, reflete.
Primeiro, Algarve passou pela estimulação do ovário com medicamentos hormonais para o crescimento dos folículos ovarianos. Segundo Paes, essa fase costuma durar cerca de 12 dias. Após esse período, há a aspiração dos folículos e recuperação dos óvulos.
“Quando os folículos atingem um tamanho adequado, são aspirados por meio de um procedimento cirúrgico minimamente invasivo, realizado via vaginal e sob anestesia. O ideal é encontrar um óvulo em cada folículo aspirado. A aspiração geralmente leva entre 10 e 30 minutos”, completa a ginecologista.
O que aconteceu é que, pela fragilidade do organismo da gerente, os seus folículos começaram a estourar e ela percebeu isso ao sentir uma cólica intensa, que queimava. Então, ela precisou rapidamente colhê-los. Após a junção dos óvulos com os espermatozoides do seu marido, o casal ficou com seis embriões.
Algarve também enfrentou desafios para conseguir preparar seu útero para receber os embriões, mas foi possível e, então, dois foram implantados e vingaram. A surpresa foi ainda maior quando descobriu que era uma gestação gemelar.
A gerente entrou em trabalho de parto prematuro, com 28 semanas, ficando internada até as 31 semanas. Ela teve algumas complicações durante a gravidez como eclampsia, diabetes gestacional e trombose.
Mas Jade e Pérola nasceram saudáveis, embora tenham precisado ficar internadas por 40 dias na UTI Neonatal devido a prematuridade. Atualmente, elas têm cinco anos.
A surpresa da segunda gravidez
Quando as gêmeas fizeram dois anos e meio, Algarve decidiu doar os quatro embriões restantes já que os riscos de engravidar novamente, depois de tudo que já havia passado, eram grandes e ela já estava realizada com as filhas.
O que a gerente não esperava era a surpresa que viria um ano e meio depois. Ela estava tentando emagrecer quando começou a passar mal. “Me sentia fraca, com insônia, e sudorese noturna. A dieta parecia que estava me deixando doente”, conta.
O marido perguntou se ela estava grávida e a ideia nunca passou na mente de Algarve. O que ela cogitava era a possibilidade de estar com câncer após um teste de gestação dar positivo, o beta-HCG também estar alto, mas não ter as duas trompas e nem o ovário direito.
Quando ela procurou atendimento médico, explicaram que os exames realmente podiam indicar algo mais grave e dificilmente uma gestação, dado o histórico da gerente.
“Alguns tumores podem produzir beta-HCG em quantidades suficientes para resultar em um teste de gravidez positivo, mesmo na ausência de gestação”, explica Paes.
Só que quando Algarve foi submetida a um transvaginal, veio a confirmação: ela estava grávida, prestes a completar três meses. Cristal nasceu saudável e, atualmente, tem um ano e quatro meses.
“Quando minha filha nasceu, meu médico disse que ela não poderia estar ali. Eu realmente não tinha nenhuma das trompas – e não estavam regeneradas – as duas alças do útero estavam bem costuradas, nunca vão se desfazer ou serem absorvidas, não tem erro médico, ou seja, não tinha como nenhum óvulo ter caído ali. Tirou-se foto para critério médico, comprovar que eu não tinha feito a fertilização e que eu realmente não tinha 80% do aparelho reprodutor”, relata.









