‘Minha mãe teve menopausa aos 40. Eu, aos 36. E isso encerrou minhas chances de engravidar novamente’
Aos 36 anos, a advogada Andressa Bonaldo descobriu que estava em menopausa precoce, mesma condição que marcou a vida da mãe aos 40. Entre calores, insônia, perda de memória e o luto pela fertilidade, ela fala sobre a importância da informação
Quando recebeu o resultado dos exames hormonais, a advogada Andressa Bonaldo, 37 anos, de São Paulo, ouviu do ginecologista que algo não estava certo. Ela tinha parado a pílula para tentar o segundo filho e, em vez de um positivo no teste de gravidez, veio um diagnóstico inesperado: menopausa precoce aos 36 anos. “Na hora eu congelei. Pensei na minha filha de quatro anos, no sonho de ter outro filho e, principalmente, na sensação de que o meu corpo estava decidindo por mim”, conta.
A palavra “menopausa” não era exatamente desconhecida. A mãe, Maria, entrou nessa fase por volta dos 40 anos. “Eu era criança, mas lembro dela reclamando muito de calor e de não dormir direito. Ela trabalhava, parava tudo, tirava casaco no meio do dia, a gente abanava. Só que ninguém falava em menopausa precoce, não teve diagnóstico, não teve reposição hormonal. Simplesmente foi passando.”
Sintomas que voltaram mais fortes
No caso de Andressa, os sinais vieram em capítulos. Desde os 21 anos, ela usava anticoncepcional. Aos 25, quando a pílula falhou, sentiu fogachos pela primeira vez. “Senti um calor diferente, mas voltei com a pílula e passou. Ninguém levantou a hipótese de menopausa.”
Anos depois, aos 32, ao investigar a possibilidade de engravidar, um exame apontou alteração hormonal. “Foi comentado, mas como eu engravidei da minha filha dois meses depois, aquilo ficou em segundo plano”, lembra.
A virada aconteceu aos 36 anos, quando decidiu parar o anticoncepcional para tentar uma nova gestação. Os sintomas voltaram e se multiplicaram. “Veio tudo junto: calores intensos, insônia, dor muscular, cansaço, irritação e crises de ansiedade. Eu acordava no meio da madrugada e não conseguia mais dormir. No dia seguinte, estava esgotada”, conta.
A isso se somou algo difícil de explicar. “Comecei a ter uma névoa mental. Esquecia coisas simples, precisava anotar tudo. Para alguém que sempre teve boa memória, isso mexe demais com a autoestima e com a confiança no trabalho.”
Preocupada, Andressa procurou um clínico geral, que pediu uma bateria de exames, inclusive hormonais. Com os resultados, ela foi ao ginecologista, que pediu nova coleta e, então, confirmou: menopausa precoce.
Hereditariedade entra em cena
Ao contar a história da mãe, Andressa ouviu do médico que poderia, sim, haver influência familiar. “Ele disse que não dá para afirmar que é genético, mas que o fato de a minha mãe ter passado por isso cedo aumenta a suspeita. Ao mesmo tempo, reforçou que a ciência ainda não sabe por que algumas mulheres entram tão cedo na menopausa e outras não.”
A médica Débora Maranhão, ginecologista e cirurgiã minimamente invasiva do Hospital Santa Catarina – Paulista, explica que menopausa precoce é aquela que acontece antes dos 40 anos e atinge cerca de 1% das mulheres. “Em 90% dos casos, a causa é desconhecida. Nos outros 10%, pode ter origem genética ou estar associada a doenças autoimunes, tratamentos como quimio e radioterapia ou à retirada dos ovários”, diz.
Ter mãe com menopausa precoce aumenta o risco, mas não é sentença. “Histórico familiar é um fator de risco, mas a maioria das mulheres com menopausa precoce não apresenta predisposição genética. Se a mãe teve, a filha merece acompanhamento mais atento, o que não significa que necessariamente terá o mesmo desfecho”, explica a especialista.
Depois do próprio diagnóstico, Andressa percebeu o impacto disso dentro de casa. “Tenho duas irmãs, mais novas. Nenhuma tem sintomas, mas, depois da minha história, elas ficaram mais apreensivas.”
O luto pela fertilidade e a perda da escolha
Entre todos os medos, um se destacou: a fertilidade. “Eu sempre quis ser mãe, só fui adiando por questões profissionais e de vida. Quando surgiram as primeiras alterações hormonais, ainda consegui engravidar da minha filha. Mas, agora, a perspectiva de uma nova gestação praticamente desapareceu”, diz.
Para a advogada, o que mais dói é perder o poder de escolha. “Não é só ‘não vou ter outro filho’, é saber que a decisão já não é minha. Eu não posso mais pensar ‘vou esperar mais um pouco’. É isso que me choca.”
Segundo Débora Maranhão, esse é um impacto frequente. “A menopausa precoce indica uma reserva ovariana extremamente baixa. Entre 5% e 10% das mulheres ainda conseguem engravidar espontaneamente, mas o luto pela fertilidade é real, especialmente quando a maternidade era um desejo em aberto”, explica.
Leia também
Reposição hormonal e rotina em ajuste
Depois do diagnóstico, Andressa iniciou reposição hormonal bioidêntica. O processo exige paciência. “Essa escolha tenta reproduzir o mais próximo possível os hormônios que o nosso corpo produz. A gente ainda está ajustando as doses, faço exames a cada dois meses. Mas a mudança positiva já é visível.”
Ela lista as diferenças: melhora das dores musculares, sono reparador, diminuição dos fogachos e humor mais estável. “Não vou romantizar: ainda tenho sintomas, estou me adaptando. Mas hoje eu sinto que tenho ferramentas para lidar com isso”.
A ginecologista reforça que a reposição hormonal é o tratamento de primeira linha para aliviar sintomas e prevenir complicações, como osteoporose e doenças cardiovasculares. “O manejo deve ser sempre individualizado, com acompanhamento médico. Além disso, atividade física regular, alimentação balanceada e anti-inflamatória e, em alguns casos, suplementos naturais, como maca peruana e isoflavonas, podem ajudar como coadjuvantes.”
No caso de Andressa, esses pilares já estão presentes. “Faço terapia desde o ano passado, por causa das crises de ansiedade, e levo esse tema para as sessões. Também treino há alguns anos e isso ajuda muito, tanto na saúde em geral quanto na cabeça. Não é só hormônio, é sobre como a gente atravessa esse período.”
Informação para ajudar
Ao olhar para a mãe, que viveu a menopausa sem diagnóstico e sem reposição, Andressa vê avanços. Mas a sensação de falta continua.
“Hoje tem mais gente falando de menopausa, principalmente mulheres famosas e médicos nas redes sociais. Mas sobre menopausa precoce quase não se fala. Procurei histórias parecidas com a minha, perfis de outras mulheres, estudos… e encontrei muito pouco. Sinto falta de ter alguém para trocar.”
Para quem desconfia que possa estar passando pela mesma situação, ela deixa um recado direto. “Se você está com calores, insônia, cansaço extremo, tristeza, ansiedade… não aceite como ‘coisa da idade’ ou ‘é assim mesmo’. Procure um médico, peça exames, conte sua história inteira, inclusive se há casos na família.”
Pode ser um período difícil, que mexe com o corpo e com a cabeça, mas não precisa ser vivido no escuro. “Com acompanhamento médico, apoio emocional e informação, a gente consegue se reencontrar como mulher. Vai passar. E não precisa se sentir sozinha.”









