Saúde
Por
Marcella Centofanti
, em colaboração com Marie Claire — de São Paulo

O fim do ano e a chegada do verão combinam agenda cheia, temperaturas altas, férias, festas e mudança de rotina, um terreno fértil para crises de enxaqueca. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a doença atinge uma em cada sete pessoas no mundo e é três vezes mais frequente no sexo feminino, sobretudo naquelas em idade reprodutiva.

A predominância entre as mulheres possivelmente tem explicação hormonal. O estrogênio atua diretamente nas vias de dor no cérebro, tornando as mulheres mais vulneráveis a crises. Mas, no período das festas, outros fatores se somam.

A neurologista Renata Londero, membro da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Cefaleia e coordenadora do Ambulatório de Cefaleia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, afirma que o aumento das crises no fim do ano é plausível. “Não conheço nenhum trabalho que mostre o aumento de incidência nessa época, mas faz muito sentido por diversos motivos”, diz.

Calor, luminosidade e exposição ao sol

O primeiro deles é a elevação da temperatura na maior parte do país. O calor favorece a dilatação dos vasos sanguíneos, fenômeno que pode desencadear crises. “Essa relação não é completamente compreendida. Antigamente se falava que o vaso se dilata porque a pessoa tem enxaqueca. Hoje, a gente sabe que não é a causa, mas um fenômeno que acontece na crise. No calor a gente fica com os vasos mais dilatados, então isso poderia contribuir para uma cefaleia que piora com o tempo”, explica a médica.

Medidas simples ajudam a reduzir o impacto, como usar roupas leves e manter-se em ambientes ventilados ou com ar-condicionado quando possível. Na praia ou na piscina, a recomendação é evitar o sol direto, preferir sombra e usar óculos escuros para fugir de outro gatilho: a luminosidade intensa. Se praticar exercícios ao ar livre, os médicos orientam preferir os horários no início da manhã ou no final do dia, quando a temperatura está mais baixa e a luz solar, menos intensa.

Desidratação e álcool

Com o calor, o corpo perde mais líquido e favorece a desidratação, outro gatilho da doença. O consumo de álcool, mais frequente nesta época, intensifica o problema. Por isso, a recomendação é equilibrar. “A gente não proíbe o paciente de beber, mas orienta a alternar álcool com água e restringir o volume quando possível”, diz Londero.

Alguns tipos de bebida podem incomodar mais pessoas sensíveis, como vinhos tintos e rosés, que são fermentados com a casca da fruta. Mas a resposta é individual: é a repetição do gatilho que deve guiar a decisão de evitar ou não.

Sono bagunçado, rotina alterada e excesso de tarefas

Dormir menos ou mais do que o habitual também desencadeia crises. Viagens, festas, crianças em casa, compromissos acumulados e mudanças de fuso horário só aumentam a chance de desequilíbrio.

“Pacientes com enxaqueca se beneficiam de ter uma vida estável”, explica a neurologista. Tentar manter o horário habitual de acordar e deitar, mesmo nos fins de semana, reduz oscilações e previne crises.

Além disso, o estresse emocional fecha a lista como o gatilho mais citado pelos pacientes dos estudos, segundo a médica. Técnicas como mindfulness, psicoterapia e práticas de relaxamento podem ajudar a modular a resposta do organismo.

E a alimentação das festas?

O papel dos alimentos na enxaqueca é menos relevante do que se pensava antigamente. Chocolate, por exemplo, deixou de ser considerado vilão: pesquisas recentes mostram que a vontade de comer a guloseima pode surgir horas antes da crise, mas não como causa da dor.

Para a maioria das pessoas, apenas as sensibilidades individuais importam. Se um alimento dispara crises de forma consistente, vale evitar. Caso contrário, não há recomendação geral de restrição.

Como prevenir as crises

- Hidrate-se o dia todo;
- Se beber, intercale água e álcool;
- Evite sol intenso e calor excessivo. Prefira ficar à sombra e fazer exercícios em horários mais amenos;
- Use óculos escuros, roupas leves e mantenha um ambiente arejado.
- Tente manter a rotina de sono e de alimentação mesmo em períodos de descanso;
- Fique atenta a gatilhos pessoais e, se possível, reduza-os;

A neurologista reforça ainda um alerta da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Cefaleia: quem tem dor de cabeça mais de três vezes ao mês deve buscar avaliação médica. Crises frequentes, além de debilitantes, tendem a piorar quando a paciente recorre apenas a analgésicos de alívio.

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