Fisioterapeuta melhora controle da epilepsia após cirurgia no cérebro: 'Mesmo medicada, tive convulsões grávida'
A solução para o caso da fisioterapeuta Rayanne Bandeira foi cirúrgico: ela removeu o hipocampo direito do cérebro que estava associado às crises epilépticas
Por Alice Arnoldi, em colaboração para a Marie Claire — de São Paulo (SP)
No março roxo, mês de conscientização sobre a epilepsia, a fisioterapeuta Rayanne Bandeira, de 30 anos, faz um alerta: os sintomas da doença podem ser bem diferentes do que se imagina.
Hoje, 3 milhões de brasileiros convivem com o distúrbio neurológico.
“Em 2018, comecei a ter câimbras frequentas a noite, de acordar com dor. Acometia principalmente meu pé. Como eu fazia atividade física, achava que era por isso”, relata Bandeira.
Conforme o tempo foi passando, a fisioterapeuta começou a sentir que a câimbra estava subindo. Se no começo era só no pé, depois já estava por toda a extensão da perna.
“Eu já estava até acostumada a sair mancando para ir trabalhar de tanto que as câimbras me deixavam com o quadril e as pernas doendo”, lembra.
A descoberta da epilepsia
Até que em 2022, Bandeira teve sua primeira crise convulsiva generalizada. “Quando acordei, estava no hospital e não reconhecia meu namorado. A mão dele estava toda rasgada”, lembra.
Bandeira explica que a. mão machucada do namorado, na época, foi consequência dele não saber lidar com a crise epilética — como acontece com muitas pessoas.
Embora tenha tentado procurar um neurologista para entender o que estava acontecendo, a fisioterapeuta ficava sendo jogada de um profissional para outro, sem nenhuma resposta.
Foi apenas após a segunda crise convulsiva generalizada, ainda no mesmo ano, que ela começou a investigar o porque das crises epilépticas focais e algumas generalizadas.
“A epilepsia focal é um tipo de epilepsia em que as crises começam em uma área específica do cérebro. Diferente das crises generalizadas, que envolvem o cérebro todo desde o início, aqui a alteração elétrica é localizada. Como cada região do cérebro tem funções diferentes, os sintomas variam bastante e podem incluir alterações de movimento, sensibilidade, percepção ou até do comportamento e da consciência”, explica a neurologista Bruna Proença, do Hospital Nove de Julho.
A especialista também esclarece que a epilepsia parcial pode se tornar generalizada, como aconteceu com Bandeira: “Em algumas situações, a atividade elétrica anormal que começa em uma área localizada pode se espalhar para outras regiões do cérebro. Quando isso acontece, a crise deixa de ser apenas focal e passa a envolver o cérebro de forma mais ampla, podendo levar à perda de consciência e movimentos generalizados. Esse processo é conhecido como generalização secundária e faz parte da evolução de algumas crises epilépticas”.
A piora das crises até a melhora
No meio disso tudo, Bandeira ainda descobriu que estava grávida e tentava se casar.
“Passei a gravidez inteira com dúvidas, com medo… Tive que buscar ajuda com psicólogo porque tinha até vontade de tirar a minha vida. Tive convulsão grávida mesmo com a medicação no limite. Eu não conseguia entender”.
Quando a filha de Bandeira veio ao mundo, as crises epilépticas ficaram ainda pior. “Eu intercalava entre várias crises focais, em sono profundo, e as generalizadas. Cheguei a ter 15 crises por noite”, conta.
Bandeira não sabia mais o que fazer, até dois amigos indicarem para ela um neurologista especialista em epilepsia. Foi ele quem chegou ao diagnóstico da fisioterapeuta: epilepsia associada a esclerose hipocampal.
O tratamento indicado para Bandeira foi cirúrgico. Ela retirou o hipocampo direito do cérebro que estava atrofiado e associado às crises epilépticas.
A cirurgia foi bem sucedida para a fisioterapeuta e, agora, a doença é controlada com uso de dois medicamentos (levetiracetam e lacosamida), em dosagens mais baixas.









