Ananda Paixão sobre o diagnóstico de câncer com metástase: ‘Foi muito difícil. Dessa vez, eu sei qual é o tratamento e como ele me machuca’
Em entrevista exclusiva a Marie Claire, a cantora pernambucana conta como está sendo o processo de tratar a doença pela terceira vez, do diagnóstico ao tratamento, passando pela decisão de falar sobre o seu quadro nas redes sociais
Por Alice Arnoldi, em colaboração para a Marie Claire — de São Paulo (SP)
A cantora Ananda Paixão, de 28 anos, conversou com exclusividade com a Marie Claire sobre estar enfrentando o retorno do câncer pela terceira vez. O tratamento da pernambucana contra a doença começou aos 21 anos, com o diagnóstico da doença no reto. Em seguida, ela teve uma recidiva no fígado, que foi tratada com ablação — ou seja, o tumor foi cauterizado. Agora, Paixão enfrenta uma metástase no fígado, além de focos no estômago e na região acima da clavícula.
A terceira descoberta aconteceu em novembro de 2025, após exames de rastreamento realizados a cada três meses. “Foi muito difícil. Talvez mais difícil do que antes porque, na primeira vez, você não sabe o que vem pela frente. Mas, desta vez, eu sabia. Eu sabia qual era o tratamento e como ele me machucou”, desabafa.
A pernambucana relata que, em um primeiro momento, entrou em negação. Ela acreditava que nunca mais teria que lidar com a doença. O apoio de amigos e familiares foi fundamental nesse período, pois foram eles que a acompanharam nas primeiras sessões de quimioterapia.
“Eu só entendi e quis continuar o tratamento com vontade na quarta sessão de quimioterapia, quando fiz os primeiros exames e vimos que o tumor estava diminuindo, respondendo bem ao remédio”, conta.
O tratamento da cantora está sendo feito principalmente com quimioterapia e, embora Paixão esteja esperançosa com os resultados, os efeitos colaterais têm sido desafiadores.
“A quimioterapia mexe muito com a nossa autoestima. A minha tem efeitos colaterais como queda de cabelo — apesar de não ter ficado careca, perdi 40% dos meus fios —, afeta minha pele — que está com feridas —, e minhas unhas, além de eu não poder entrar em contato com o frio. Então, estou trabalhando muito a minha mente”, relata Paixão, que está buscando técnicas como meditação e yoga para cuidar ainda mais da sua saúde mental.
A difícil decisão de falar sobre a doença nas redes sociais
A cantora decidiu revelar o novo diagnóstico aos seus seguidores nas redes sociais cinco meses após a descoberta. Esse intervalo foi importante para que ela entendesse, principalmente, como se sentia em relação a esse novo momento de sua vida.
“Eu tenho uma proximidade muito grande com meus seguidores. Parte me segue porque ama minhas músicas, mas há outra parte que conquistei porque venci um câncer. Então, no momento em que vivi esses seis meses com uma semana na quimioterapia, passando super mal, e na outra tentando postar como se nada tivesse acontecido, isso mexeu muito comigo. Eu estava quase vivendo uma mentira para mim mesma, e sempre fui muito verdadeira. Mas não falei em um primeiro momento tentando entender como eu estava me sentindo. E, sabendo que os exames agora são bons, que estou melhorando e que há pessoas passando pelo mesmo tratamento que o meu, senti que podia abrir isso agora. Senti no meu coração que era o momento”, revela.
Ao trazer à tona tudo o que estava acontecendo — e como as pessoas podem ser cruéis nas redes sociais —, o sentimento de Paixão foi um só: receio do julgamento. Mas, mais uma vez, seus seguidores a surpreenderam.
“Fiquei com medo. Pensei se as pessoas iriam achar que eu estava me aproveitando ou até me julgar por estar falando. Mas logo depois começaram os comentários, e eles foram maravilhosos. Estou muito feliz, porque é um assunto tão importante. O câncer tem crescido, principalmente o de intestino, e precisamos falar sobre ele. Realmente acredito que, se as pessoas soubessem mais sobre os sintomas, poderiam ter o diagnóstico mais cedo e talvez não sofressem como estou sofrendo”, conta.
Câncer de reto: o que é e sintomas
A oncologista Maria Cristina Figueroa Magalhães, professora da Escola de Medicina e Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica o que é o câncer de reto e os tabus que esse diagnóstico ainda envolve.
“Estamos falando de um tumor que se desenvolve na porção final do intestino, muito próximo do ânus — uma região que, inclusive, carrega muitos tabus. Talvez por isso, muitas vezes, esse seja um câncer silencioso não só biologicamente, mas também socialmente. Ele geralmente não surge de forma abrupta. Na maioria das vezes, começa com pequenas lesões benignas, os pólipos, que, ao longo dos anos, podem se transformar. E isso, para mim, sempre traz uma mensagem muito potente: existe forma de prevenir ou detectar precocemente esse tipo de câncer, por meio da realização de exames endoscópicos e da adoção de hábitos de vida saudáveis”, esclarece.
Segundo a especialista, o câncer de reto costuma ser pouco sintomático. No entanto, há sinais que merecem atenção, como:
- Sangue nas fezes;
- Mudanças persistentes no hábito intestinal;
- Sensação de evacuação incompleta;
- Alteração no aspecto das fezes;
- Dor abdominal;
- Cansaço;
- Perda de peso sem explicação.
“Não é sobre viver em alerta, é sobre viver em conexão com o próprio corpo. Nem todo sintoma é câncer, mas todo sintoma merece ser escutado”, reforça.
Quando há diagnóstico de metástase, como no caso de Paixão, Magalhães enfatiza que essa notícia é desafiadora, mas não representa uma sentença.
“Metástase não é sinônimo de fim. Ela é, sim, um divisor de águas, mas não uma sentença. Hoje, a oncologia nos permite algo que, há alguns anos, parecia distante: tratar o câncer metastático como uma condição muitas vezes crônica e controlável. Temos quimioterapia, terapias-alvo, imunoterapia, tratamentos locais e, principalmente, estratégia. Mas, mais do que isso, temos histórias. Histórias de pacientes que seguem vivendo, trabalhando, amando, fazendo planos. Que ressignificam o tempo. Que nos ensinam que vida não é apenas ausência de doença. Então, quando penso em metástase, não penso no fim. Penso em um novo capítulo — mais complexo, mais delicado, mas ainda assim cheio de possibilidades de cuidado, presença e vida”, reflete a especialista.









