Hidrocefalia de pressão normal, confundida com Alzheimer, pode ser tratada e revertida: 'Voltei ao normal', diz paciente
Neuropsicóloga Stella Maria Malta descobriu hidrocefalia de pressão normal após evolução de desequilíbrio ao caminhar e perda urinária
O primeiro sinal foi discreto, um leve desequilíbrio ao andar, mas suficiente para Stella Maria Malta, então com 69 anos, percebesse que algo não estava bem. Neuropsicóloga, ela estava acostumada a observar mudanças no funcionamento do cérebro, inclusive no próprio.
Antes de se consultar com um médico, Malta se submeteu a uma ressonância magnética, no início de 2020. O exame mostrava um aumento leve de líquido no cérebro, mas sem alterações consideradas relevantes naquele momento. Pouco depois, veio a pandemia, e a neuropsicóloga passou mais de um ano e meio fora de São Paulo, onde morava, sem dar continuidade à investigação.
Durante a pandemia, o desequilíbrio se intensificou, a ponto de dificultar a caminhada em linha reta. Ao mesmo tempo, surgiram outros sinais que começaram a interferir na rotina: a perda do controle urinário e uma sensação de lentidão crescente nas atividades do dia a dia.
Em janeiro de 2022, já com os sintomas mais evidentes, ela procurou uma psicogeriatra. Uma nova ressonância mostrou que o acúmulo de líquido no cérebro havia aumentado. O diagnóstico foi de hidrocefalia de pressão normal (HPN), uma condição neurológica que costuma ser confundida com doenças como o Alzheimer.
A HPN é caracterizada pelo acúmulo de líquido do cérebro em cavidades internas chamadas ventrículos, muitas vezes com pressão dentro dos valores considerados normais. “Ela se manifesta classicamente por uma tríade de sintomas que inclui dificuldade para andar, alterações cognitivas e incontinência urinária”, afirma o neurocirurgião Fernando Gomes, professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia,
Essa combinação de sinais e sintomas ajuda a explicar por que o quadro pode ser confundido com outras condições comuns do envelhecimento. De acordo com o médico, na hidrocefalia a dificuldade de marcha costuma ser precoce e predominante, enquanto em doenças como o Alzheimer a perda de memória tende a aparecer primeiro.
Tratamento e melhora do quadro
Para avaliar a resposta ao tratamento, Malta foi submetida ao chamado tap test, procedimento em que parte do líquido é retirada da coluna. A reação veio rapidamente e ajudou a confirmar a indicação cirúrgica. “Depois de meia hora ou 40 minutos, eu comecei a andar normalmente, muito mais equilibrada, e meu xixi parou de escapar. Voltei ao normal”, diz.
A cirurgia foi realizada em março de 2022 e consistiu na implantação de uma válvula para drenar o excesso de líquido do cérebro. Apesar do medo inicial, especialmente pelo risco de qualquer intervenção que pudesse afetar suas funções cognitivas, o procedimento ocorreu sem intercorrências.
Sem tratamento, a doença tende a evoluir de forma progressiva, com piora da marcha, aumento do risco de quedas, agravamento do comprometimento cognitivo e perda do controle urinário, levando à perda de autonomia.









