Elas foram diagnosticadas com TDAH depois dos 30 anos: 'Finalmente me entendi'
Diferenças na manifestação dos sintomas, vieses na medicina e sobrecarga feminina ajudam a entender por que o quadro passa anos sem ser identificado em mulheres
“Foi como receber uma chave para finalmente me entender”, diz a empreendedora Alison Cavaillé. Quando recebeu o diagnóstico, a fundadora da marca francesa Tajinebanane tinha 37 anos. Desde pequena, ela se sentia “em todo lugar e em lugar nenhum ao mesmo tempo”, iniciava projetos que não terminava e lutava contra um cansaço mental constante. Há três meses, veio o resultado da avaliação neuropsicológica: TDAH severo.
“Durante toda a minha vida, achei que era apenas a minha personalidade”, conta. “Achava que eu era só intensa, excessiva, apaixonada. Na verdade, é uma neuroatipia.”
A história de Alison Cavaillé está longe de ser isolada. Durante décadas, o TDAH (transtorno de déficit de atenção com ou sem hiperatividade) foi considerado essencialmente masculino. Resultado: milhares de mulheres nunca foram diagnosticadas na infância, a ponto de alguns especialistas falarem em uma “minoria silenciosa”.
Um transtorno por muito tempo pensado no masculino
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades de regulação da atenção, impulsividade e, às vezes, hiperatividade.
Ao contrário do que se costuma pensar, ele não desaparece com a idade. Segundo o Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), da França, cerca de 2,8% dos adultos são afetados e o transtorno não atinge apenas homens — embora, por muito tempo, a pesquisa tenha se concentrado quase exclusivamente neles.
“As ferramentas de diagnóstico foram construídas a partir de observações feitas em meninos”, explica a psicóloga Amandine Legrand*, especialista em neurodivergências. “Isso acabou direcionando a forma como entendemos o transtorno.”
Os sintomas, porém, podem se manifestar de forma diferente conforme o gênero. Enquanto os meninos apresentam com mais frequência hiperatividade visível — agitação, impulsividade, comportamentos disruptivos —, as meninas tendem a ter uma forma mais desatenta: distração, devaneio, esquecimentos frequentes. “São manifestações menos visíveis em sala de aula e, portanto, menos identificadas”, completa a especialista.
Diagnósticos mais tardios
As consequências desse viés aparecem claramente nos dados. Um estudo publicado na revista European Psychiatry em abril de 2025, com cerca de 900 adultos com TDAH, mostrou que as mulheres são diagnosticadas, em média, cinco anos mais tarde do que os homens.
Muitas mulheres acreditam apenas que são desorganizadas, preguiçosas ou incapazes.
Na amostra analisada, a idade média do diagnóstico foi de cerca de 29 anos para mulheres, ante 24 anos para homens. Em outras palavras, a maioria passa a infância — e muitas vezes boa parte da vida adulta — sem entender a origem de suas dificuldades.
“Muitas mulheres acham que são simplesmente desorganizadas, preguiçosas ou incapazes”, diz Amandine Legrand. “O diagnóstico não acrescenta um rótulo. Muitas vezes, ele tira vários.”
O espelho dos filhos, depois da maternidade
Para Alison Cavaillé, a conscientização veio por um caminho indireto. Um episódio do podcast La Matrescence, apresentado por Clémentine Sarlat, sobre TDAH, começou a circular entre pessoas próximas. “Em 48 horas, quatro pessoas diferentes me enviaram dizendo: ‘Isso me fez pensar em você’.”
Embora não se reconhecesse imediatamente nas descrições, ela pensou no filho. “As dificuldades dele, alguns sofrimentos, mas também traços de personalidade muito fortes… tudo fez sentido.”
Durante o processo de avaliação, começou a ler e ouvir tudo o que encontrava sobre o tema. E, aos poucos, a dúvida surgiu. “Quanto mais eu avançava, mais pensava: isso também tem muito a ver comigo.” Aos 30 e poucos anos, decidiu fazer uma avaliação completa.
“Sempre me senti deslocada”
Para Clémentine Sarlat, o estalo veio das redes sociais.
“Eu seguia várias criadoras americanas que falavam sobre TDAH. E, quanto mais eu as ouvia, mais me reconhecia no que descreviam.” Um detalhe chamou sua atenção: a tendência de interromper as pessoas. “Eu corto a fala o tempo todo. Tenho muita dificuldade de me segurar. E pensei: ‘ah… então nem todo mundo faz isso’.”
Ela começou a pesquisar — principalmente em inglês, pela falta de conteúdo em francês — e procurou uma neuropsicóloga. “Durante os testes, o que me marcou foi que eu achava que tinha ido muito bem em alguns exercícios… mas estava errada porque não ouvi as instruções até o fim. Eu ia rápido demais.”
“Um funcionamento típico do TDAH”, explica Amandine Legrand.
O peso do “masking”
Se tantas mulheres passam sem diagnóstico, isso também se deve a um fenômeno bem documentado: o masking, ou camuflagem.
“As meninas aprendem muito cedo a compensar suas dificuldades para se adaptar às expectativas sociais”, explica a psicóloga. Organização excessiva, perfeccionismo, hiperaptação social… Tantas estratégias de adaptação demandam um gasto de energia considerável. “É um estado de vigilância constante, com esforço contínuo para corresponder às normas.”
Antes dos 30 anos, Clémentine Sarlat fazia muito masking. Mas, com três filhos pequenos, isso deixou de ser possível. Com o tempo, essas estratégias podem entrar em colapso — muitas vezes em fases de transição, como maternidade, aumento da carga mental ou estresse profissional.
Quando as estratégias deixam de funcionar
Nos casos femininos, os sintomas também podem ser intensificados pelas variações hormonais, mais uma especificidade historicamente negligenciada. Gravidez, pós-parto e perimenopausa são períodos em que o equilíbrio se torna mais frágil.
Segundo Amandine Legrand, o estrogênio desempenha um papel na regulação da dopamina, neurotransmissor central para atenção e funções executivas. Quando esses hormônios caem — antes da menstruação, após o parto ou na menopausa — os sintomas podem piorar.
Vários estudos começam a documentar esse fenômeno. Uma revisão publicada na Frontiers in Psychiatry aponta que essas flutuações podem agravar dificuldades de atenção, organização e regulação emocional em mulheres com TDAH. Outros trabalhos também indicam maior prevalência de síndrome pré-menstrual grave e transtorno disfórico pré-menstrual nessas pacientes.
“Durante muito tempo, essas dimensões foram pouco estudadas, em parte porque pesquisas excluíam mulheres por causa das variações hormonais. Mas elas são essenciais para entender o TDAH feminino.”
Para algumas mulheres, essas variações se traduzem em períodos em que os sintomas se tornam claramente mais difíceis de controlar. E as consequências podem ser significativas. Segundo declarações da psiquiatra Marie Gachet, do Centro Hospitalar Universitário de Montpellier, durante o Congresso Encéphale 2022, “as mulheres com TDAH apresentam mais comportamentos de risco e são mais frequentemente hospitalizadas em serviços de psiquiatria”.
Reinterpretar a própria vida após o diagnóstico
Para muitas mulheres, o diagnóstico funciona como uma releitura da própria história. Dificuldades escolares, trajetórias profissionais caóticas, relações afetadas pela impulsividade: tudo passa a fazer sentido.
“Eu me sentia profundamente incapaz”, lembra Alison Cavaillé. Hoje, ela faz terapia cognitiva para trabalhar organização e gestão do tempo. Clémentine Sarlat adotou ferramentas práticas para compensar certas dificuldades, como lembretes digitais e rotinas estruturadas.
Ambas concordam em um ponto: o diagnóstico não elimina as dificuldades, mas muda profundamente a forma de se enxergar. “Entender como eu funciono, mesmo que tarde, tira um peso enorme”, diz Clémentine.
Uma tomada de consciência coletiva
Ao mesmo tempo, algo está mudando. O tabu vem se rompendo, e a visibilidade do TDAH em mulheres cresce. Redes sociais, podcasts e relatos pessoais têm ampliado o debate e ajudado no reconhecimento de um quadro historicamente ignorado.
“Até hoje, o episódio em que conto meu diagnóstico é um dos mais ouvidos do meu podcast”, diz Clémentine Sarlat. “E a pergunta que mais recebo é: como fazer para conseguir um diagnóstico?”
Porque, apesar do avanço na conscientização, o caminho ainda é cheio de obstáculos. “É mais comum pensar em depressão, ansiedade ou até transtorno bipolar do que em TDAH em uma mulher”, afirma Amandine Legrand. Uma confusão frequente, que prolonga a peregrinação médica.
Além disso, ainda é difícil encontrar profissionais capacitados para diagnosticar e tratar TDAH em mulheres adultas.
Mesmo assim, para muitas, dar nome ao que viveram por anos vai muito além de um campo médico. É uma virada, uma forma de reler a própria história e, muitas vezes, o início de uma reconciliação consigo mesmas.
*Amandine Legrand (@psyautisme) é autora de Cérebro atípico: modo de usar — o guia prático após um diagnóstico tardio de autismo, de TDAH ou de AuDHD (sem tradução para o português).









