Endometriose na menopausa: ‘Era tanta dor que eu não conseguia sentar’
Depois de quase dois anos sem menstruar, Vera Lucia Lopes da Silva Vilas Boas começou a ter dor pélvica intensa. Diagnóstico tardio revela que a doença também pode aparecer após o fim da vida reprodutiva
A dona de casa Vera Lucia Lopes da Silva Vilas Boas, de 58 anos, já havia parado de menstruar fazia um ano e dez meses quando o sintoma começou. Em março de 2024, ela acordou de madrugada com uma dor forte na região pélvica, próxima ao quadril. Vilas Boas se levantou, tomou um comprimido de dipirona e voltou a dormir. Nos dias seguintes, no entanto, o incômodo passou a se repetir, sempre à noite, irradiando também para a região lombar.
Após três meses, a dona de casa de Cabedelo (PB) procurou uma ginecologista, que pediu um ultrassom transvaginal, mas o exame não apontou alterações. Como a dor persistia, a paciente foi encaminhada ao ortopedista. Um teste de densitometria óssea apontou osteopenia, enquanto um ultrassom de abdome total veio normal.
Nenhum achado justificava a dor que Vilas Boas sentia. “Era tanta que eu não podia me sentar. Ou ficava deitada ou em pé”, relembra. “Eu fazia o que precisava e me deitava.”
Diagnóstico na menopausa
A investigação seguiu até que uma ginecologista da rede pública solicitou uma ressonância magnética da pelve. O exame trouxe a resposta: endometriose. Os focos estavam nos ligamentos útero-sacros e havia aderência envolvendo o cólon sigmoide, porção do intestino grosso.
O diagnóstico chamou atenção porque veio após a menopausa, fase em que, tradicionalmente, se espera redução da doença. Vilas Boas também estranhou. “Achei muito chato, pois, em tudo que li, as mulheres se libertavam da doença quando entravam na menopausa. Não quis me sentir azarada, achei que era força de alguma circunstância que ela não sabia me explicar”, reflete.
A relação da doença com os hormônios ajuda a entender esse cenário. “A endometriose é considerada estrogênio-dependente, ou seja, em sua fisiopatologia, o estrogênio induz o crescimento celular e a proliferação dos focos de endometriose (tecido semelhante ao endométrio) fora da cavidade uterina”, explica a ginecologista Fernanda Torras, membro da Febrasgo.
A médica diz que, embora a tendência seja de regressão após a menopausa, isso não acontece em todos os casos. Durante a perimenopausa, fase de transição antes do fim definitivo da menstruação, podem ocorrer oscilações hormonais com picos de estrogênio capazes de reativar focos da doença. Além disso, o uso de terapia hormonal e outras condições podem manter a atividade da endometriose mesmo após o fim dos ciclos menstruais.
Um estudo publicado em 2020 na revista científica Diagnostics revisou a literatura sobre o tema e mostrou que a endometriose após a menopausa corresponde a cerca de 2% a 5% dos casos. De acordo com os pesquisadores, a doença pode ocorrer tanto pela persistência de lesões quanto pelo surgimento de novos casos nessa fase da vida.
Tratamento e adaptação da rotina
Após o diagnóstico, a dona de casa foi encaminhada para avaliação com um cirurgião. A operação, no entanto, acabou descartada. Nesse intervalo, por orientação do ortopedista, Vilas Boas passou a fazer musculação, pilates e corrida. Quando chegou à consulta com o cirurgião, as dores já eram menos intensas e a musculatura estava mais fortalecida.
A conduta, então, passou a ser conservadora. A dona de casa manteve os exercícios e fez mudanças na alimentação, incluindo a retirada de embutidos e açúcar. Ela também segue com tratamento com terapia hormonal para menopausa.
Hoje, a dor ainda aparece, mas com menor intensidade, após exercícios com muito esforço ou torção da bacia, exageros na alimentação, consumo de bebida alcoólica ou piscos de estresse. No entanto, a dona de casa encontrou na corrida uma paixão e uma forma de se manter ativa. “Se o ortopedista não tivesse me mandado fazer musculação e me orientado a caminhar ou correr, eu não teria conseguido lidar bem com isso”, afirma.









