Médica desenvolve dor crônica após pandemia: 'Achei que era só muscular'
A intensivista Bárbara Zili Furlan passou seis anos com sintoma até receber o diagnóstico e o tratamento adequado para o seu caso
A intensivista Bárbara Zili Furlan, de 30 anos, se formou três meses antes do início da pandemia da Covid-19. Ser recém-formada não a impediu de estar na linha de frente de combate à doença, e ela vive até hoje as consequências desse período tão desafiador. A moradora de Curitiba (PR) tornou-se paciente de dor crônica.
“Naquela época, os regimes de plantão começaram a ser intensos, e o estresse foi se acumulando. Os médicos da emergência mais experientes eram afastados, e os recém-formados assumiram postos que não deveriam ser nossos, mas era um cenário em que, na verdade, não havia outra opção. Nesse contexto de plantões desgastantes e estresse de uma catástrofe global, senti uma dor no meu ombro esquerdo e atribuí à posição de ficar sentada na mesa do computador”, relata.
Furlan não conseguia nem sequer marcar consulta com um médico especializado para entender o que estava acontecendo. O seu próprio ritmo de trabalho não permitia isso, e as clínicas eletivas estavam fechadas. A única saída foi a automedicação.
“Como sempre que eu trabalhava sentia mais dor e, ao descansar, menos ou nenhuma, o trabalho virou o vilão de tudo. Pensava, então, que, quando eu trabalhasse menos, passaria. Eis que a pandemia acabou e eu entrei na residência médica de medicina intensiva. Na primeira metade, eu fazia cerca de 70 horas de UTI por semana. A dor foi se agravando”, lembra.
Segundo a anestesiologista Roberta Risso, coordenadora do serviço de tratamento de dor do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a dor caracteriza-se como crônica quando dura mais de três meses.
“A dor aguda é aquela em que o sistema nervoso central ainda não sofreu mudanças em relação à transmissão do estímulo doloroso. [Já quando] o paciente é exposto de forma contínua e constante, ele apresenta alterações no sistema nervoso central, que chamamos de sensibilização central. Então, às vezes, o estímulo físico pode até estar resolvido ou se resolvendo, mas a dor permanece por essa sensibilização do sistema nervoso, tanto central quanto periférico”, detalha Risso.
O diagnóstico da dor crônica
No terceiro e último ano de residência médica, o quadro de Furlan piorou. “Já sentia dor todos os dias, o tempo todo. Não queria ir trabalhar e minha saúde mental foi para o espaço”, desabafa.
Há um ano, a intensivista procurou um ortopedista. Por meio de exames de imagem, chegou-se ao diagnóstico de uma pequena protrusão de vértebra cervical. Em outras palavras, houve um “abaulamento” de um disco intervertebral do pescoço. “Nem vou chamar de hérnia. Meu problema foi atraso de diagnóstico e tratamento”, frisa Furlan.
Devido à demora para chegar ao diagnóstico, o corpo não respondeu aos tratamentos convencionais para o problema de saúde. Foram tantas tentativas que Furlan se perguntava até mesmo se os sintomas eram reais ou criados pela sua mente.
“Até que encontrei um serviço de fisioterapia específico que me ensinou manobras de descompressão que eu fazia em casa e melhorava. Nesse dia, chorei: de alívio, cansaço, exaustão… Minha vida, até então, girava em torno dessa dor. A única coisa que eu mantinha na cabeça era: não posso desistir. Não é normal viver com dor”, relata.
Com o alívio do incômodo agudo, Furlan conseguiu retornar às atividades físicas, que são uma forma contínua de manejo da dor crônica. Quanto mais ela malha, menos seu ombro incomoda.
“Sem pílula mágica, aceitei que, no fim do dia, não importa quão cansada eu esteja, preciso me mexer”, reflete. "Se eu pudesse dar um conselho como médica-paciente, seria: escute seu corpo, ouça o que ele está te dizendo e procure ajuda. Não desista. Vá a quantos especialistas conseguir. Faça os tratamentos padrões e os não padrões. Invista seu tempo e o dinheiro que for possível em melhorar. Se priorize: você é tudo o que você tem e não vai conseguir cuidar de ninguém se não estiver saudável!"









